Boom latino-americano: saiba como a literatura da América Latina ganhou o mundo

Entre os anos 1960 e 1970, diversos escritores da América Latina tiveram uma divulgação massiva mundo afora, principalmente em países da Europa. Este movimento ficou marcado como “boom latino-americano”, em que romancistas da região tiveram suas obras vendidas fora do território latino.

Tanto na época quanto nos dias de hoje, esses escritores continuam tendo uma enorme importância na literatura do continente, trazendo à tona temas que estão fora do eixo europeu e estadunidense, consequentemente gerando uma maior visibilidade para os países latino-americanos. Quer conhecer mais sobre o que foi este marco? Venha ler esse artigo!

Origem do boom latino-americano

Não há um consenso definido sobre quem foi o precursor desse fenômeno da literatura latina. Muito se discute se foi a obra “O Jogo da Amarelinha” (1963), do escritor argentino Julio Cortázar, que deu início a essa manifestação literária, enquanto outros dizem que o primeiro lançamento foi  “A cidade e os cachorros” (1963), do peruano Mario Vargas Llosa, que chegou a ganhar o Prêmio Biblioteca Breve, em 1962. 

Porém, o que se pode afirmar é que o boom literário aconteceu na época da Guerra Fria e após a Revolução Cubana. Com a destituição do ditador Fulgencio Batista, em 1959, Cuba e a América Latina tinham esperanças de uma nova era e de chamarem a atenção para este lado do continente, de uma forma que impactasse e gerasse uma visão positiva da região.

O escritor colombiano Gabriel García Márquez

Universo temático da literatura latino-americana

Os escritores eram influenciados pelo movimento modernista da Europa e estadunidense e a vanguarda latino-americana do século XX. As características principais das obras consistem em neologismos, jogos de palavras, além do universo imaginário e fantástico. 

Sempre com a América Latina e suas terras natais servindo de pano de fundo para as histórias, muitas delas continham temas sobre violência, repressão governamental e racismo. Também faziam parte das narrativas casos de amor, violência e política. 

O realismo mágico era tradicionalmente usado nas obras e serviu para explicar os temas políticos, amorosos e sociais. Um exemplo dessa nova literatura é o clássico “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez — mais conhecido como Gabo. 

Este livro, inclusive, já vendeu mais de 50 milhões de exemplares e foi traduzido para 46 línguas diferentes, além de ser o responsável em fazer Márquez ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, em 1982. 

Esta modalidade de escrita é típica da América Latina e é criada uma fusão entre um universo mágico e realidade, em que é mostrado elementos irreais como algo natural e comum. No caso de “Cem Anos de Solidão”, os personagens se deparam com elementos fantásticos, mas tratam os temas com naturalidade. 

Alguns exemplos são a peste de insônia e esquecimento que afetam os personagens da história, uma mulher que sobe ao céu, entre outros. 

Autores do boom latino-americano

Os principais nomes que faziam parte do boom latino-americano eram Gabriel García Márquez (Colômbia), Julio Cortázar (Argentina) e Mario Vargas Llosa (Peru), mas além deles haviam nomes renomados como: 

  • Adolfo Bioy Casares (Argentina);
  • Alejo Carpentier (Cuba);
  • Agustín Yáñez (México);
  • Augusto José Antonio Roa Bastos (Paraguai);
  • Carlos Fuentes (Panamá);
  • Elena Garro (México);
  • Emmanuel Carballo (México);
  • Ernesto Sábato (Argentina);
  • Gustavo Álvarez Gardeazábal (Colômbia);
  • João Guimarães Rosa (Brasil);
  • Jorge Amado (Brasil);
  • José Donoso Yáñez (Chile);
  • José Lezama Lima (Cuba);
  • Jorge Luis Borges (Argentina);
  • Juan Rulfo (México);
  • Luis Spota Saavedra (México);
  • Manuel Puig (Argentina);
  • Miguel Ángel Asturias (Guatemala);
  • María Luisa Bombal (Chile);
  • Sergio Fernández Cárdenas (México).

Obras que ganharam destaque e premiações

Entre os livros que ganharam reconhecimento na época estão “Cem Anos de Solidão” (1967), de Gabriel García Márquez; “O Jogo da Amarelinha” (1967), de Julio Cortázar; “A morte de Artemio Cruz” (1962), de Carlos Fuentes; “O lugar sem limite” (1966), de José Donoso; “A traição de Rita Hayworth” (1968), de Manuel Puig; “O túnel” (1948) de Ernesto Sabato; “A Cidade e os Cachorros” (1963), de Mario Vargas Llosa.

Diferentes escritores latinos receberam um Nobel de Literatura, sendo eles: Miguel Ángel Asturias, em 1967 com o livro “O Senhor Presidente”, Mario Vargas Llosa, no ano de 2010, por ‘sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual’. E como já citado acima, Gabriel García Márquez, com “Cem Anos de Solidão”, em 1982.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa

Impacto do boom latino-americano para a literatura

Como dito anteriormente, esse movimento tinha o objetivo de tirar a imagem preconceituosa que países da Europa e os Estados Unidos tinham da América Latina, sendo que um dos principais impactos foi de mostrar para o resto do mundo que os latino-americanos eram capazes de produzir cultura e elementos positivos, e não apenas ditaduras — que aconteciam em praticamente todo o continente na época, financiados pelos Estados Unidos.

Além disso, o movimento impactou os futuros escritores — e não só latinos. Em uma matéria publicada no portal El País, sob o título de “Boom latinoamericano: Universo en expansión”, publicada em 17/11/2012, diversos autores disseram a importância do boom latino para suas vidas e carreiras.

O escritor estadunidense Gay Talese afirmou que se sentia em dívida com a manifestação literária, porque foi a partir dos livros lançados na época e dos autores do boom que veio à tona variados temas, tirando a ignorância que muitas pessoas ainda tinham sobre a América Latina. 

Já marroquino Tahar Ben Jellooun conheceu a literatura latina com “Cem Anos de Solidão” e com isto, foi dada a possibilidade dele de sonhar e imaginar histórias novas para suas narrativas.

Por outro lado, o colombiano Héctor Abad Faciolince manifestou que negar a importância que o boom teve posteriormente é absurda. Ele ainda declarou que todos devem ser agradecidos com estes escritores que abriram às portas do mundo e dos leitores. 

Carlos Fraz, autor chileno disse que não se pode matar o boom latino-americano e o que ele representa, pois ele é imortal e segue vivo. Outra escritora que reiterou a importância do boom foi a mexicana Guadalupe Nettel. Ela afirmou que o movimento lhe mostrou que se deve escrever a partir do que somos. 

O escritor argentino Manuel Puig

Livros que viraram adaptações

Variadas obras desses escritores ganharam versões para o cinema ou séries de televisão. Dentre elas estão: “Pantaleão e as Visitadoras”, de Mario Vargas Llosa. O livro teve duas versões cinematográficas, uma em 1975, tendo o próprio Llosa como co-diretor. A segunda versão aconteceu em 1999. 

O filme “Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabo, foi lançado em 2007. A trilha sonora teve a participação de Shakira com as músicas “Hay Amores”, “Despedida” e “Pienso en Ti”. 

Outros filmes do escritor colombiano que tiveram adaptações para as telonas foram “Ninguém Escreve ao Coronel”, em 1999, “Crônica de Uma Morte Anunciada”, em 1987, e “Memórias de Minhas Putas Tristes”, em 2011, mas todos não obtiveram sucesso suficiente nos cinemas.  

Em 2019, foi anunciado que “Cem Anos de Solidão” ganharia uma série pela Netflix, porém não há data de lançamento ainda. 

Aqui no Brasil, as obras de Jorge Amado foram adaptadas em diversos formatos. A mais famosa foi o livro “Gabriela”, resultando em uma novela em 1975 e o remake, em 2012. “Dona Flor e Seus Dois Maridos” virou minissérie e foi transmitida em 1998. Outro sucesso foi a novela “Tieta”, exibida entre 1989 e 1990 e inspirada no livro “Tieta do Agreste”. 

Outro livro que é um sucesso tanto no Brasil como mundo afora, é “Capitães de Areia” e ganhou adaptação para as telonas, em 2011. O filme foi adaptado por sua neta, Cecília Amado.

Gostou de conhecer sobre o boom latino-americano? Fique bem informado sobre países hispanos aqui no Exclamación!

Autor: Beatriz Gouvêa

Jornalista de formação e amante da cultura hispana desde criança. Passo a maior parte do tempo escutando música em espanhol e amo tudo o que envolve o universo latino.

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