Protestos no Chile: um ano do estalo social que levou o país às ruas

As imagens de fogo, estátuas sendo derrubadas, bandeiras do povo mapuche colocadas ao alto e forte repressão militar rodaram o mundo no final de 2019. A onda de protestos no Chile completa um ano desde seu marco inicial e ainda está trazendo desdobramentos para o país, como, por exemplo, o plebiscito para a criação de uma nova constituição.

O povo chileno deve ir às ruas para votar se aprova ou não no dia 25 de outubro, 11 dias depois do primeiro aniversário do começo das manifestações, que ocorreu em 14 de outubro de 2019.

A revolta contra o aumento das passagens do metrô

Protestos causados por aumento na tarifa não são um tema incomum para brasileiros. Naquela ocasião, a mudança de preço foi aprovada para o sistema de transportes da Santiago, capital do Chile, no dia 6 de outubro de 2019, subindo uma quantidade de 30 pesos chilenos, chegando a 830 — que, na época, equivalia a R$4,81.

A população da cidade, especialmente os jovens, inconformada com o novo valor, organizou uma “evasión masiva”, que significa pular as catracas e acessar as instalações do metrô de forma gratuita.

Em menos de uma semana após o dia 14, a grande aderência da população aos protestos, a destruição das estações ou mesmo queima de algumas delas levou os militares às ruas para contê-los com gás lacrimogêneo. Além disso, o governo suspendeu os serviços metroviários.

Toque de recolher e Estado de Emergência

Ao perceber o crescimento das manifestações, que já chegava a outras cidades, o presidente Sebastián Piñera decretou Estado de Emergência e toque de recolher nos principais centros de protestos. No dia 19 de outubro, ele dá volta atrás e decide suspender o aumento da passagem de metrô com a justificativa de que “escutou com humildade a voz do povo”.

Entretanto, essa medida não acalmou a população. A constante repressão policial levantou questionamentos sobre abusos de Direitos Humanos, a legislação, a constituição, as desigualdades sociais, ou mesmo o que significava para o povo viver em toque de recolher. Portanto, seguiram com protestos e, alguns grupos, com saques e depredações.

Ainda sobre os manifestantes, o presidente se pronunciou: 

“Estamos em guerra contra um inimigo poderoso, implacável, que não respeita a nada nem ninguém e que está disposto a usar a violência e a delinquência sem nenhum limite”.

Então, foi ordenada a extensão do toque de recolher: no domingo, dia 20, a região metropolitana de Santiago, ficou das 19h às 6h de segunda-feira, e em Concepción e Valparaíso, das 20h às 6h.

Nessa semana, também foram confirmadas 18 mortos. Além disso, começaram a surgir denúncias sobre o abuso de poder os militares, prisões sem justificativa, bombas atiradas diretamente ao público que, inclusive, deixou centenas de pessoas feridas.

La Marcha Más Grande

Programada para o dia 25 de outubro, a Marcha Más Grande tinha como objetivo ser a maior manifestação de todos os tempos. Juntando diversos setores da sociedade, o protesto juntou 1,2 milhão de pessoas na Plaza Baquédano, em Santiago. Considerando que o Chile possui 18 milhões de habitantes, quase 10% da população esteve presente.

Inclusive, a adesão foi maior que o último grande ato do país, que foi sobre a campanha ”No” do plebiscito nacional de 1988.

Nesse dia também houveram manifestações em cidades importantes do Chile, como Viña del Mar, Valparaíso, Coquimbo, La Serena, Concepción, Arica, entre outras. Por conta disso, o governo decretou toque de recolher nos dias 26 e 27.

Violência policial e nova onda de protestos

Foi iniciada uma nova onda de protestos no país, tornando-se um ato diário. Muitas pessoas, inclusive, iam para a manifestação após sair do trabalho, de modo que virou rotina para os chilenos. Com esse crescimento de manifestantes, a repressão também se tornou mais violenta, usando bombas de gás lacrimogêneo e carros lança-água. Escolas ocupadas por estudantes também passaram a ser invadidas pela polícia.

Frente a isso, foi organizada uma enorme greve geral no dia 4 de novembro, data que ficou conhecida como Super Segunda-Feira. Aderiram à paralisação setores industriais, professores, sindicatos, caminhoneiros, etc. Apesar de pacífico, este foi um dos protestos mais violentos até então, terminando em 43 feridos por conta das ações policiais.

Dois dias depois, manifestantes se aglomeraram ao centro comercial Costanera Center por ser considerado um grande símbolo do neoliberalismo. Ações violentas da polícia dispersaram os grupos, fazendo com que eles formassem barricadas, fosse iniciada uma onda de saques e, ainda, vandalização de locais conectados à direita política.

Já no dia 8 de novembro, em um novo ataque aos manifestantes, o estudante e fotógrafo Gustavo Gatica foi atingido diretamente por uma bomba, fazendo com que ele perdesse a visão completa. Então, ele acabou se tornando um grande símbolo da resistência anti-governo. 

As demandas sociais dos protestos no Chile

As tarifas foram apenas a ponta do iceberg para a sociedade chilena. Embora a implementação do modelo neoliberal de Milton Friedman tenha trazido benefícios para a economia do país e favorecido seu desenvolvido, as questões internas não entraram na conta. Ou seja: o Chile, hoje, sofre com o acúmulo de problemas sociais que vêm desde a época da Ditadura, que começou em 1973.

Segundo o Banco Mundial, o Chile é o 13º país mais desigual do mundo. Um dado complementar da Comissão Econômica para América Latina (CEPAL) mostra que o 1% mais rico acumula 26,5% da riqueza do país.

Na época das manifestações, o salário mínimo era de $301.000 pesos chilenos, equivalente a R$2100. Embora a conversão para reais aparente uma vantagem para brasileiros — afinal, o nosso é de R$1045 —, é preciso considerar o custo de vida no país.

Transporte

Tomando como exemplo o transporte em Santiago, que foi o estopim para as manifestações. Um estudo lançado em 2019 do Centro de Inovação em Transporte e Logística da Faculdade de Engenharia e Ciências da Universidade Diego Portales mostra que o Chile é o nono país mais caro do mundo para se locomover. 

Segundo a pesquisa, pessoas de baixa renda tendem a gastar até 30% de seu salário em transporte, enquanto os que são considerados ricos gastam cerca de 2% em deslocamentos.

Educação

Outro tema que entra em pauta é o acesso à educação superior. No Chile, mesmo as universidades públicas são pagas e, inclusive, às vezes mais caras que as privadas. Para conseguir bolsas que reduzem o valor das mensalidades ou mesmo obter gratuidade é preciso ter uma boa pontuação no PSU — o vestibular — e de comprovação econômica.

As poucas perspectivas de futuro, aliás, são uma das razões pelas quais os jovens chilenos têm exercido cada vez mais um forte papel nas mobilizações sociais. Para citar um exemplo: as agrupações estudantis e de ocupação de escolas no Chile em 2006 foi uma das fontes de inspiração para os alunos que se mobilizaram em São Paulo, em 2015.

Saúde

A falta de incentivos governamentais também afeta a área da saúde: tratamentos médicos ou mesmo remédios apresentam um valor acima da média. E todos esses pontos refletem na conclusão do estudo feito em 2019 pela consultora Mercer: Santiago é a segunda cidade da América Latina com maior custo de vida. 

A pesquisa, que levou consideração alimentação, saúde, transporte, moradia, entre outros, evidencia a seguinte problemática: o aumento de 30 pesos na passagem significa um peso maior no orçamento mensal de inúmeras famílias que já têm dificuldade para sobreviver.

Aposentadoria

Mais um assunto que toca os chilenos a nível pessoal é o de aposentadorias. Não há um plano de aposentadoria pública, de modo que muitos idosos têm que trabalhar até idades bastante avançadas para garantir o sustento. 

E isso levantou uma problemática que ainda não é amplamente discutida no país: o de atentados contra a própria na terceira idade. Segundo o  Ministério de Saúde e do Instituto Nacional de Estatísticas, as taxas de suicídio entre maiores de 80 anos é 70% maior que as do continente, chegando a 17,7 a cada 100 mil habitantes.

Povos indígenas

Por fim, outra demanda social que ganhou força durante os protestos no Chile foi a dos povos indígenas. Segundo o último censo, de 2017, 13% dos habitantes do países se identificam como nativos. 

Entretanto, essa população é completamente negligenciada. Eles não são considerados na constituição chilena, de modo que seus direitos não são garantidos. Inclusive, o Chile é o único país da América Latina que não possui nenhum tipo de determinação constitucional a respeito dos povos originários.

Quando eclodiu a onda de protestos, os mapuches viram uma oportunidade de reclamar, principalmente exigindo autonomia da região de La Araucanía, que é considerada uma terra sagrada e ancestral — cujo verdadeiro nome é Wallmapu.

Porém, muitos militantes indígenas acabaram sendo presos por um detalhe técnico da lei antiterrorismo do país.

Por que mudar a Constituição do Chile?

Todos os pontos do tópico anterior chegaram a ser debatidos e discutidos por governantes e candidatos em época eleitoral, porém nunca foram implementadas ações. Ou seja, a população chilena vive em um desgaste político à espera de melhorias sociais.

Uma das principais demandas dos manifestantes é a criação de uma nova constituição. Em 15 de novembro, Sebastián Piñera Mas, por que essa é uma questão importante para eles? Ou, ainda, por que algumas reformas não são o suficiente para atender aos pedidos da população?

Constituição Pinochetista

A Constituição do Chile foi promulgada em 1980, quando o país passava pela ditadura de Augusto Pinochet, que durou de 1973 a 1990. Nela, houve uma mudança na atuação do Estado quanto à implementação de políticas públicas para bem-estar social.

Enquanto desde 1925 o governo executava um papel de criador desses mecanismos, a partir de então o Chile passou atuar apenas como subsidiário. Ou seja: a manutenção dos direitos que, em teoria, são universais, como saúde, alimentação, moradia, entre outros, serão mantidos pela iniciativa privada, a não ser que esta não tenha interesse em financiá-la.

Ou seja, no pós-ditadura tornou-se difícil implementar políticas públicas que possam atender às demandas da população.

Além disso, como já foi mencionado, os povos indígenas não possuem nenhum direito constitucional, já que a agenda de Pinochet não tinha nenhum interesse em promover benefícios a essas pessoas.

Adesão da classe artística ao estalo social

Historicamente, a arte sempre esteve muito ligada aos acontecimentos políticos de um país. E, no Chile, isso não foi diferente. Inúmeros artistas passaram a se manifestar a favor das manifestações e, inclusive, o povo chileno passou a cobrar um posicionamento dos principais nomes da nação.

A rapper Ana Tijoux, que sempre se posicionou contra o governo neoliberal e vocalizou contra as injustiças da sociedade chilena, foi uma das vozes mais ativas durante as ondas de protestos no Chile.

Como apoio, lançou a música “Cacerolazo” (Panelaço), com uma letra que dizia:

“A 200 metros, vire à direita

E corre, p*rra, que aí vêm os milicos

Panelaço

Queime, acorde, renuncie Piñera

Pela alameda não está o La Moneda [palácio presidencial]

Colher de pau contra o tiroteio

E ao toque de recolher, panelaço

Não são 30 pesos, são 30 anos

A constituição e os perdões

Com punho e colher frente aos aparelhos

E a todo o Estado, panelaço”

Outra artista que ficou do lado do povo foi Mon Laferte. Cancelou uma turnê na Europa para ir ao Chile e sair de viagem com o coletivo El Largo Tour, que agrupava artistas, advogados e psicólogos. O objetivo era recorrer áreas periféricas do país, levando música, informação e esperança a comunidades mais carentes.

Aproveitando de sua visibilidade internacional, também aproveitou o seu comparecimento na entrega anual do Grammy Latino para se manifestar. Chamou atenção dos fotógrafos no tapete vermelho ao abrir um casaco, sem nenhuma camiseta por baixo, tendo apenas escrito em tinta em seu peito “No Chile torturam, estupram e matam”. Ao ganhar um prêmio, também falou sobre em seu discurso de agradecimento.

Por fim, também lançou uma música denunciando a situação do país, “Plata ta ta” (Grana na na), com Guaynaa.

Outros artistas chilenos que se juntaram às manifestações foram as cantoras Camila Gallardo, conhecida apenas como Cami, Francisca Valenzuela, Denise Rosenthal, Pascuala Ibala, Cancamusa, Camila Moreno, os integrantes do grupo folclórico Illapu, entre outros.

Inclusive, foi lançada uma nova versão de “El Derecho de Vivir En Paz”, de Victor Jara, com diversos cantores.

Símbolos dos manifestantes

Foi criada uma nova simbologia para fazer protestos no Chile, sejam figuras, personagens, pinturas, gestos, etc. As mais representativas são:

  • negro matapacos: cachorro vira-lata preto que foi flagrado em vários protestos na última década;
  • bandeira mapuche: símbolo dos povos indígenas colocados à frente da tradicional combinação chilena;
  • bandeira negra: uma recriação da bandeira chilena na cor preta e uma estrela branca desenhada;
  • tapa olhos: um dos gestos mais emblemáticos, devido aos manifestantes que perderam a visão, é usar uma das mãos para tapar um dos olhos e levantar a outra com o punho em símbolo de luta.

Resultado dos protestos no Chile

Chegando a uma situação de instabilidade política e social, o presidente Sebastián Piñera instituiu a Nueva Agenda Social, que prevê reformas na saúde e aposentadoria. Por outro lado, também criou a Agenda de Seguridad, aumentando penas para vandalismo, roubo e atentados contra membros das forças armadas.

Piñera foi ao ar em rede nacional no dia 12 de novembro para anunciar novas medidas. Entre elas, estava a possibilidade de criar uma nova constituição para o país.

Nas semanas seguintes, partidos políticos e parlamentares começaram a se reunir para organizar novas propostas constitucionais. Além disso, foi definida uma data para convocar a votação para, então, validar a criação da nova Constituição: 26 de abril de 2020. Entretanto, devido à pandemia do novo coronavírus, o plebiscito foi adiado para 25 de outubro.

Segundo o Instituto Nacional de Direitos Humanos, até dezembro houve um total de 34 mortos e 3583 feridos, sendo 359 deles com traumas oculares devido às bombas de gás. Além disso, o Ministério da Saúde divulgou que, no primeiro mês de protestos, foram registrados 10792 atendimentos emergenciais.

Uma das consequências também foi a desvalorização do peso chileno, queda nas projeções de crescimento do país e, inclusive, uma crise econômica.

Os protestos no Chile ainda estão gerando desdobramentos, mesmo depois de um ano. Inclusive, mas manifestações nunca pararam. Continue lendo conteúdos no Exclamación para se manter informado sobre política, cultura e história de países hispanos.

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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