Cholas bolivianas: quem são essas mulheres?

Certamente você já deve ter visto o modo que algumas mulheres bolivianas se vestem, com aqueles chapéus e roupas diferentes e coloridas, certo? Mas, você sabe por que elas usam esses trajes e quem são elas?

As chamadas cholas bolivianas, ou apenas cholitas, são mulheres de ascendência indigena e mestiça. Vem ler o texto de hoje para entender tudo sobre elas e a sua importância para a cultura da Bolívia. 

Origem das cholitas

A palavra “chola” deriva do quechua e aymara, idiomas dos povos originários andinos, e significa “mestiço/filho de pais de diferentes etnias”. Durante muitos anos, as cholas bolivianas foram alvo de discriminação por parte da sociedade, por suas origens e ascendências, já que acreditava-se que essas mulheres representavam algo negativo. 

Devido à interferência da Espanha na época da colonização, as cholas passaram a se vestir com as roupas que conhecemos hoje, sendo proibidas de usarem as vestimentas que remetesse à cultura dos Andes.  

O Unku, roupas tradicionais dos quechuas e aymaras, era baseada em uma camisa de lã que cobria dos ombros aos joelhos — era diferenciada em cada etnia por cores e diagramas). LLakolla ou llakota  — uma manta —, que servia para cobrir as costas e era composta por duas peças retangulares costuradas no centro, que iam até os joelhos.

Também fazia parte a Llautu, uma trança colorida enrolada na cabeça pela testa como uma coroa. Chuccu, traje usado pelas diferentes etnias, cujas formas e cores caracterizavam cada um dos ayllus — população andina: Chuspa e Wiscus ou ujutas.

Após a proibição dos espanhóis, foi ordenado um sistema de categorização, em que elas usariam roupas de acordo com suas regiões e castas.   

Por muitos anos, chola tinha um significado pejorativo, sendo resignificado pelas mesmas e hoje é motivo de orgulho para essas mulheres, tanto por serem quem são, suas vestimentas e principalmente, por suas ascendências, fazendo delas símbolo de resistência boliviana.  

Uma das principais razões para o preconceito contra as cholitas ter diminuído na Bolívia foi porque o ex-presidente, Evo Morales, decretou, em 2011, a lei “Contra o racismo e toda forma de discriminação”, o que favoreceu a inclusão das cholas em espaços públicos, o que antes era mal visto por algumas pessoas.

Em janeiro de 2020, a presidente interina Jeanine Áñez, assinou um projeto de lei para reconhecer as cholitas como Patrimônio Cultural e Imaterial da Bolívia, incluindo as sete diferentes identidades das mulheres indígenas do país: afro boliviana, cochabambina, chuquisaqueña, paceña, potosina, tarijeña e orureña.

Porém, essa iniciativa gerou uma repercussão negativa, já que muitas pessoas viram nessa ação uma forma de Áñez conquistar o voto feminino e ganhar simpatia da população indigena. O projeto de lei aconteceu três dias após a presidente interina anunciar que estava se candidatando às eleições presidenciais.

Trajes das cholas bolivianas

As roupas típicas das cholitas consistem em uma saia rodada que vai até abaixo dos joelhos — chamadas de pollera — e xales coloridos, o cabelo dividido em duas tranças, sapato baixo e o chapéu-coco — nas cores preto, marrom e cinza. As saias volumosas foram inspiradas nas vestimentas das espanholas do século 18. 

Por cima das blusas, elas usam uma espécie de manta para se protegerem do frio. Além disso, essas mulheres usam panos coloridos amarrados nas costas para guardarem seus pertences ou carregarem seus filhos nas costas.

Os chapéus também vieram da Europa no século 20. De acordo com algumas  versões, um comerciante encomendou chapéus italianos, mas os homens não queriam os cinzas, o estoque ficou cheio e ele resolveu começar a vendê-los para as mulheres. 

Além da vestimenta típica, dependendo da classe social das cholitas, elas também podem usar acessórios de prata ou ouro, brincos e anéis. 

Se no começo as roupas das cholas eram alvo de preconceito, atualmente elas servem até para exemplo de moda dentro e fora da Bolívia. É o caso da designer boliviana, de origem aymara, Eliana Paco, que já desenhou uma coleção de roupas inspiradas nas cholas e apresentou seus modelos em um desfile em Nova York, EUA. Na ocasião, ela nomeou sua coleção de Pachamama — Mãe Terra, no idioma dos indígenas.

Cholitas nos espaços públicos 

Como citado acima, a discriminação contra as cholas diminuiu consideravelmente a partir da lei implantada em 2011, permitindo que as cholitas pudessem frequentar espaços que antes não eram abertos para elas. Seja em restaurantes, transportes públicos ou até mesmo na política, inclusive muitas delas estão à frente de organizações sociais, como Sindicato de cozinheiras, na época liderado por Petronila Infantes. 

Algumas cholitas também já fizeram parte da política boliviana, sendo elas: 

  • Remédios Loza, política boliviana e deputada nacional.
  • Nélida Sifuentes, política boliviana e senadora nacional.
  • Silvia Lazarte, política.
  • Savina Cuéllar, política.
  • Rosario Aguilar, advogada, política , ex vereadora e designer de moda.
  • Maria Eugenia Choque, trabalhadora social e presidenta do Tribunal Supremo Eleitoral.
  • Rebeca Cruz, Presidenta do Concejo Municipal do Alto, 2018
Remedios Loza, política

Outros espaços também já foram conquistados pelas cholas bolivianas, como nos programas de televisão e na música. Os principais nomes das cholitas envolvidas no meio artístico são:

  • Bertha Acarapi, apresentadora de televisão
  • Encarnación Lazarte, cantora e compositora
  • Justa Elena Canaviri Choque, chef e apresentadora de televisão
  • Yola Mamani, locutora e ativista

Cholas bolivianas alpinistas

Na Bolívia também existem cholitas que se arriscam e escalam as montanhas mais altas do país. Elas escalam picos de 6.088 metros de altitude, como é o caso do pico Huayna Potosí, mas também já subiram os picos do Illimani, Acotango, Parinacota. As cholitas sobem as cordilheiras com suas roupas tradicionais e os equipamentos de proteção. 

Não são apenas cholitas mais novas que encaram os riscos e escalam os picos, há também mulheres acima dos 50 anos que sobem nas montanhas. As cholas bolivianas chegaram a ser tema de um documentário feito sobre o tema, aqui é possível ver o trailer do filme. 

Um dos motivos que levaram essas mulheres a escalarem as montanhas foi para superar o machismo que existe na Bolívia, que as fizeram acreditar que somente os homens poderiam enfrentar esses riscos. Anteriormente, elas eram vistas apenas como cozinheiras dos escaladores, então elas tomaram a decisão de se juntarem e começarem a escalar também. Hoje em dia, além de escalarem, as cholitas também estão aptas e serem guias das escalações.

Cholitas em cima dos ringues de luta

As cholas não se arriscam apenas nas montanhas, elas também participam de combate de luta livre. Em busca de mostrarem seu valor no mundo machista, elas resolveram entrar para o mundo dos ringues, o que virou atração para quem visita o país. Confirmando a igualdade entre os gêneros, muitas cholitas além de lutarem contra as mulheres, também se enfrentam contra os homens.

Desde os anos 2000, as cholitas se enfrentam todos os domingos nas arenas e, assim como as cholitas alpinistas, as lutadoras se enfrentam usando suas roupas típicas de cholas. Elas treinam, em média, duas vezes por semana e assistem vídeos para aprenderem novas técnicas de golpes.

A popularidade das cholitas lutadoras é tão grande que uma delas estrelou uma campanha publicitária para “El Ojo de Iberoamerica 2015”, um dos mais tradicionais festivais de publicidade latino-americanos, a escolhida para estrelar a campanha foi a lutadora ChinChin, uma divertida lutadora boliviana que conquista diversos troféus ao derrotar oponentes latinos. 

Para conhecer mais sobre a cultura boliviana e latino-americana, continue lendo o Exclamación!

Autor: Beatriz Gouvêa

Jornalista de formação e amante da cultura hispana desde criança. Passo a maior parte do tempo escutando música em espanhol e amo tudo o que envolve o universo latino.

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