Cultura palenquera: conheça os costumes do povo negro colombiano

A cultura palenquera se perpetuou ao longo dos séculos. Ao se tornar um território livre, Palenque de San Basílio abarcou uma população negra vinda, em maioria, do Guiné. Portanto, houve um isolamento da sociedade que terminou em costumes, idioma e música de forte raiz africana.

Veja algumas das principais manifestações culturais da região!

O idioma criollo palenquero

O isolamento dos palenqueros se reflete até os dias de hoje por conta, principalmente, do idioma. O criollo tem como primeira base as línguas africanas do tronco bantu, principalmente o kikongo e o kimbundu.

Esse é um ponto importante porque muitos dos negros que fugiram para os palenques foram liberados assim que chegaram nas Américas, de modo que não chegaram a ter tanto contato com a língua espanhola.

De qualquer forma, o espanhol também tem uma grande influência no criollo palenquero. A estrutura das frases vem do tronco latino, criando uma mistura entre os dois idiomas. Curiosamente, também há uma forte influência do português, já que a região de Guiné Bissau já vinha sofrendo com invasão e colonização de Portugal antes da captura para escravização da população local.

Essa junção de línguas bantús com o coloquialismo espanhol e português é falada até hoje en Palenque de San Basilio, sendo declarada como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco. A população local é bilíngue.

Alguns exemplos de palavras são:

  • burú – dinero (dinheiro);
  • ceddo – cerdo (porco);
  • chepa – ropa (roupa);
  • chitiá – hablar (falar);
  • cuagro – barrio (bairro);
  • kusa- cosa (coisa);
  • mai – madre (mãe);
  • moná – niño (criança);
  • mbende – vender (vender);
  • ngaina – gallina (galinha);
  • ngubá – maní (amendoim);
  • onde – dónde (onde);
  • posá – casa (casa);
  • pueta – puerta (porta).

A cultura palenquera na música e dança

A música também acabou se tornando um forte instrumento de perpetuação da cultura ao longo dos anos. Tanto os ritmos entoados pelos fortes tambores quanto as danças com marcante expressão corporal que vêm da tradição africana permaneceu entre os palenqueros.

De fato, grande parte dos movimentos musicais que surgem na região caribenha da Colômbia tem grande influência de São Basílio. É o caso do Son de Negro, Entrompao, Chalusonga, Púyala, Son Palenquero de Sexteto, entre outros.  Uma das bandas mais conhecidas, inclusive, é o Sexteto Tabalá.

Dois dos principais deles, o mapalé e a champeta, são fortemente difundidos em todo o país e ganham visibilidade principalmente nas celebrações do carnaval de Barranquilla.

Mapalé

Um dos mais populares é o mapalé, dança com movimentos rápidos e acrobáticos que acompanham o toque da percussão. Surgiu entre os pescadores que trabalhavam na costa caribenha e depois foi levada para Palenque e ali desenvolvida. A influência dos mares aparece no nome da dança: mapalé vem do peixe de mesmo nome que, fora da água, se movimenta de forma agitada.

Em geral, para esse tipo de dança, também há alguns trajes típicos: o homem usa calças com barras cortadas em franjas, enquanto as mulheres usam saia e top, também com detalhes em franja. As cores vibrantes são muito usadas e, inclusive, há pinturas corporais.

Champeta

Outro ritmo que tem origem no caribe e foi desenvolvido pelos palenqueros é a champeta. Segundo a tradição oral, trabalhadores dos bairros pobres, em maioria negros, das cidades caribenhas de Cartagena e Barranquilla, assim como os próprios palenqueros, eram chamados pelas elites de “champetuos”, devido ao uso de um facão que era popularmente chamdo “champeta”.

A dança começou a se expressar na década de 1930, mas ganhou notoriedade nacional a partir dos anos 1970, quando os músicos passaram a agregar influências de reggae e salsa, até que em 1981 foi lançada a primeira canção com letra cantada, “La Terapia Criolla”, que foi amplamente difundida por carros de som que circulavam pelas cidades.

Na década de 1990, houve uma modernização da batida e popularizou-se o uso de pistas de música africana como base, enquanto os artistas colombianos criavam letras para colocar por cima, usando modismos dos dialetos criollos. Atualmente, passa por uma urbanização e é um dos ritmos mais populares da costa caribenha.

Culinária

Ao visitar a cidade de Cartagena de Índias, provavelmente você vai encontrar no centro histórico mulheres negras com trajes típicos vendendo frutas e guloseimas. Os doces das palenqueras são uma tradição da região, sendo que a comercialização dessas iguarias é considerada uma das principais fontes de renda das famílias de Palenque de San Basílio.

Porém, a culinária local vai muito além dos quitutes de rua. Os pratos típicos palenqueros têm forte herança africana, com uma breve adaptação com o que é disponível na terra colombiana. Vale ressaltar que os habitantes do território plantam o seu próprio alimento.

A influência da gastronomia palenquera é tão forte que, depois de um programa de alfabetização fornecido pelo governo, a população construiu um livro de receitas colaborativo, que ganhou o prêmio de Melhor Livro de Culinária do Mundo pelo Gourmand World Cookbook Awards 2014.

“Cocina palenquera para el mundo”, chamada no idioma criollo de “Kumina ri Palenge pa to paraje”, traz diferentes tipos de fazer arroz, carnes, peixes, acompanhamentos, sopas e doces. Entre os destaques estão o arroz de banana madura, a galinha crioula com leite de côco, o bolinho de mandioca e os diferentes tipos de cocada.

Tradições

Uma das formas mais fáceis de identificar uma palenquera é por conta de sua roupa. Em geral, elas usam vestidos com babados e repletos de cores vibrantes, além de ter o acompanhamento de lenços e turbantes na cabeça. Imageticamente, se assemelham às vestimentas das baianas. 

Em Palenque de San Basilio, um dos rituais mais conhecidos é o lumbalú. Com o objetivo de celebrar os mortos, é uma tradição africana que também é conhecida na Angola.

Funciona da seguinte forma: durante nove noites seguidas, são executados diferentes danças e cantos para honrar a alma daquele que se foi. Isso porque, segundo a tradição, depois de morto, o espírito retorna a casa durante esses dias antes de seguir seu caminho. Então, para recebê-lo, família e amigos se reúnem. 

Gostou de conhecer mais sobre a cultura palenquera? Continue lendo o Exclamación para mais dicas!

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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