Os doze anos de ditadura no Uruguai

Quando analisamos o contexto histórico do Cone Sul da América, principalmente em relação aos golpes militares dos países desta região, é preciso mencionar o Uruguai.

Pressionado pela repressão militar dos países vizinhos, o golpe no Uruguai aconteceu em 1973, de forma subsequente ao do Chile, resultando em doze anos de censura e brutalidade policial. Totalizando 202 mortos e 196 desaparecidos, a ditadura forçou o exílio de cerca de 380 mil uruguaios, quase 14% da população na época.

Mas como se desenvolveu o golpe no país? Quais são as circunstâncias que rondam esse cenário e os resquícios do autoritarismo na sociedade uruguaia atual?

Período pré-ditatorial

Em uma contextualização da situação mundial, os golpes na América Latina foram acontecendo de forma sucessiva, durante tempos de Guerra Fria. Em uma visão mais aguçada da situação de resistência por todo território americano, existiu uma forte influência de resistência por parte da Revolução Cubana.

Com a ameaça militar iminente nos países do Cone Sul americano, no Uruguai o desleixo com a democracia começa a se tornar perceptível por volta de 1967, através da violência por parte do Estado. 

Porém, diferente da ditadura brasileira, por exemplo, o regime no país vizinho foi instaurado de forma gradual, com a cooperação do presidente eleito para o desenvolvimento de um governo autoritário e sem necessidade de uma posse agressiva de poder por parte das Forças Armadas, em um primeiro momento.

Esquadrão da Morte e brutalidade militar

Dentro da esfera política dos anos 60, em uma tentativa de calar seus opositores, nasce o Esquadrão da Morte, um grupo de paramilitares de extrema-direita que tinha o intuito de confrontar diretamente os inimigos do governo sem estar ligado ao sistema político.

Esse e outros grupos extraoficiais fascistas e neonazistas se consolidam através do terrorismo. São invadidas faculdades para amedrontar os estudantes e dá-se início a uma onda de ataques a grupos marginalizados e oprimidos que, segundo representantes da extrema-direita, conversavam com o comunismo.

Existe um apoio internacional social e financeiro para fortalecer o discurso terrorista dentro do país, por parte do Esquadrão da Morte brasileiro, comandado por Sérgio Fleury e conhecido pela tortura e assasinato de adolescentes e sindicalistas.

Consequentemente, a brutalidade militar e policial se torna mais presente dentro do país, causando a repressão de qualquer atividade considerada danosa ao governo atual.

Surge, então, como forma de oposição, o grupo guerrilheiro de esquerda Movimento de Liberação Nacional – Tupamaros (MLN-T). Além de confrontar diversos grupos fascistas, os Tupamaros se responsabilizavam pela distribuição de comida e dinheiro aos pobres, o que geraria uma reação de violência severa no combate dos anos seguintes.

A transição do golpe civil-militar

Filiado ao Partido Colorado, Juan María Bordaberry assumiu o poder no início de 1972. Por ser representante de um dos partidos que mais sofria represálias por parte do movimento revolucionário uruguaio da época, Bordaberry é recebido com desgosto por partidários da esquerda.

Com o desfecho do embate entre o MLN-T e o Esquadrão da Morte, que terminou com 11 assassinatos, o presidente decretou “Estado de Guerra Interno” e, posteriormente, aprovou a Lei de Segurança de Estado, que se manteria em vigor nos doze anos de ditadura.

Instituído o Estado de Guerra Interno, as Forças Armadas constituem a perseguição de opositores políticos, gerando a prisão em massa e o desaparecimento de guerrilheiros, dispersando o movimento dos Tupamaros.

Com a crise de 1973 e usufruindo da fraqueza de seus opositores, Bordaberry lidera um golpe cívico-militar através do Pacto de Boisso Lanza que resulta no dissolvimento do parlamento e extinção de organizações sociais e de partidos políticos, com a conjunção do apossamento de militares em cargos políticos.

Apesar da dispersão e perda de força dos guerrilheiros, a população— em grande parte a classe estudantil e trabalhadora — não se calaria diante da infração de seu direito de liberdade.

Greve geral

Desde os anos 60, a classe trabalhadora e estudantil debatia sobre os governos autoritários nos países vizinhos e o reflexo destas ditaduras na sociedade uruguaia. Portanto, era de um consenso dentro destas classes a reação de se opor ao golpe.

Operários, médicos e estudantes ocuparam fábricas, hospitais e escolas em forma de protesto à ditadura uruguaia. A Convenção Nacional de Trabalhadores (CNT) liderou uma greve geral que perdurou durante dois meses.

Os trabalhadores conciliaram manter diversos locais ocupados por todo o território uruguaio, com uma concentração maior em Montevidéu, capital do país, e em fábricas regidas pelo governo.

O regime, descontente com a voz política de trabalhadores e estudantes, e na iniciativa de dispersar este movimento, proibiu a CNT de agir, desencadeando em uma série de ataques por parte dos militares aos trabalhadores.

Novo mandato e atos institucionais

Após a institucionalização das Forças Armadas no país, em conjunção com as desavenças militares com Bordaberry e o cancelamento das eleições, Alberto Demicheli, outro representante do Partido Colorado, assume o poder provisório em 1976. 

Poucos meses depois, os militares institucionalizam Alberto Méndez como líder político, um mandato autoritário que perduraria até o ano de 1981.

Méndez divulgou o mais novo “Cronograma Político”, prometendo a reabertura do país através de novas eleições em 1982, após uma suposta reforma política. Assim, no seu regime, são aprovados uma série de Atos Institucionais. 

No total, foram 11 atos que asseguravam total domínio militar, proibição de greves e da participação de partidos políticos e o dever do toque de recolher, que constituiu a estabilidade de seu mandato e do regime militar. 

Fracasso econômico

É necessário mencionar a instabilidade econômica no Uruguai ditatorial. Em 1973, na cidade de San Miguel, foram estabelecidas pelos políticos e militares as primeiras decisões sobre a economia do país seguindo o Plano Nacional de Desenvolvimento, aprovado no mesmo ano.

Certos detalhes deste planejamento de reforma econômica tiveram que ser alterados por conta da crise do petróleo nos meses seguintes, que geraram um desequilíbrio com aumento de valores e o fechamento do mercado europeu.

Sob o comando de Alejandro Végh Villegas, o então ministro da economia, há um investimento no fortalecimento da produção nacional, priorizando toda e qualquer indústria uruguaia.

Durante os próximos dois anos, foram decretadas novas leis e medidas para tentar controlar a instabilidade financeira e atrair capital estrangeiro, permitindo o crescimento de indústrias têxteis e mineiras, mas, em contraposição, houve um aumento gigantesco da inflação no país.

Apesar do crescimento de exportações, ainda era muito maior a importação no Uruguai, o que resultou em um déficit da balança comercial. O governo, em uma tentativa fracassada de melhorar a economia do país, tomou medidas econômicas extremas, que acobertam qualquer tipo de corrupção, como a anulação de controles fiscais e a eliminação de taxas dos bancos, ampliando o endividamento dos bancos nacionais.

Em 1982, consequente às medidas de reforma financeira, ocorre a “Quebra da Tabela”, que consiste no abandono do cronograma de futura cotação do dólar, marcado pela saída do Banco Central, fazendo com que o dólar americano alcançasse $33 pesos uruguaios. A partir de então, o país começou a enfrentar uma das piores crises econômicas.

Além da quebra na economia, o Uruguai começa a enfrentar problemas sociais e governamentais, como a taxa altíssima de desempregados, marcando até 12% da população, a queda do salário mínimo e aumento da dívida externa, alcançando 4 milhões de dólares.

Terrorismo de Estado

A violência que futuramente seria enquadrada dentro do terrorismo de Estado datam desde antes da ditadura: Prisões irregulares, torturas, desaparecimentos e assassinatos de considerados opositores políticos aconteceram em massa durante todo o regime militar.

Além disso, o governo criou uma rede de vigilância por todo território uruguaio, em uma tática de recompensar aqueles que eram a favor da ditadura e colaborassem com o Estado, como também gerar pânico, marcados pela desconfiança e falta de comunicação, dificultando todo tipo de relação social e dispersando grupos que reivindicavam a liberdade de expressão.

Como marco de um governo autoritário, a imprensa era censurada e notícias que pudessem causar conflitos para o regime eram impedidas de serem publicadas.

Foi estabelecida, também, a criação de centros clandestinos para a tortura de presos políticos, onde ministravam afogamentos, choques elétricos, espancamento além de outros tipos de tortura psicógica e, principalmente, física.

Ana Amorós, presa política e torturada, compartilha um pouco da angústia da incapacidade de se defender dos horrores que sofreu na mão do coronel Gilberto Vázquez.

“Foi a primeira vez que me estuprou. Eu pensava que se isso algum dia acontecesse comigo, iria morder, arranhar, iria chutar suas genitais. Eu pensava que era possível se defender. Não fiz nada.”

Desfecho da ditadura

Na virada dos anos 80, o governo propõe um plebiscito, buscando a legitimidade de modificar a constituição. A disputa resultou em 42,1% dos votos a favor e 57,9% contra, o que logo favoreceria na abertura do regime e a volta democrática.

No início de 1981, o general Gregorio Álvarez assume a presidência e, em uma nova e última tentativa de perpetuar o golpe, abriram-se eleições internas com a participação de somente três partidos políticos de direita, gerando a divisão entre apoiadores e opositores da ditadura no ano seguinte.

Existiram muitos votos em branco em forma de protesto pela proibição da participação de partidos de esquerda na decisão que não foram contabilizados.

A partir de então, a resistência começa a ganhar força em todo o país. No final do ano de 1982, a realização do primeiro ato contra a ditadura e abertura do governo, “por um Uruguai democrático e sem exclusões”, simboliza a perda de força do militarismo uruguaio.

O general Álvarez, com a conjunção de representantes de partidos de direita, derroga alguns dos atos institucionais, consequente ao decaimento dos regimes por toda América Latina.

São abertas as eleições no final do ano de 1984 e a apuração de votos leva Julio María Sanguinetti, do Partido Colorado, à presidência do Uruguai em 1985, marcando o fim do golpe cívico-militar uruguaio e reabrindo as portas da democracia.

Uruguai nos dias de hoje

A ditadura cívico-militar uruguaia deixou 196 desaparecidos, 202 mortos, cerca de 20 mil prisões políticas e torturados, além de 380 mil exilados políticos, representando aproximadamente 14% da população da época.

Tais números, quando comparados com a ditadura de Pinochet, são considerados baixos e até mesmo chegam a ser ignorados pela população latino-americana, mas a indignação e o sentido de justiça persistem entre os uruguaios.

A organização não-governamental “Madres y Familiares de Uruguayos Detenidos Desaparecidos” se consolidou durante o fim da ditadura e a reabertura democrática. Com a junção de três grupos independentes, a associação trabalhou durante anos para buscar respostas sobre o desaparecimento dos presos políticos no país.

No ano de 2000, o presidente Jorge Battle instalou a “Comisión para la Paz”, no intuito da abertura de investigações em busca dos desaparecidos e abriu um processo de informações para o julgamento de militares acusados de tortura durante os doze anos de golpe militar, mas nada saiu do meio burocrático da justiça uruguaia.

Somente em 2005, 20 anos depois do fim do golpe, o presidente Tabaré Vázquez reiniciou as investigações acerca dos desaparecidos em tempos de ditadura, em busca da verdade e em respeito à memória. Estas investigações resultaram na localização dos restos mortais de desaparecidos enterrados em prédios militares, além da condenação de sete torturadores e o julgamento de outros militares, incluindo o ex-ditador Bordaberry.

Além disso, no final de 2016, o Uruguai indenizou 413 vítimas dos doze anos de repressão militar e emitiu cerca de 890 certificados de responsabilidade de Estado.

Em 2019, se desenvolveu um processo de ação por parte do grupo de 28 mulheres que foram abusadas e torturadas e denunciaram mais de 100 agressores, sendo estes em grande parte militares. Estas mulheres continuam à espera de uma audiência pública que, por conta da pandemia, foi postergada.

O país possui cerca de 28 monumentos para homenagear os assassinados e desaparecidos durante o período de extrema brutalidade militar, representando a luta pela verdade, memória e justiça que ainda buscam os familiares e amigos de, pelo menos, 20 mil uruguaios que sofreram abusos do governo autoritário entre 1973 e 1985, recordando para sempre a história no intuito de não repeti-la; ecoando, através dos anos, um único pedido, um grito de luta: “Ditadura nunca mais!”

Quer saber mais sobre as ditaduras latino-americanas do século XX? Leia sobre a ditadura de Fulgencio Batista em Cuba e muito mais aqui no Exclamación!

Autor: Amanda Clepf

Analista de mídias sociais e entusiasta da cultura e política hispânica. Gosto de debater e iniciar conversas. Simplemente enamorada por la história de Argentina.

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