Palenque de San Basilio (Colômbia): o primeiro território negro livre das Américas

Fundada por negros que fugiram da escravidão em tempos coloniais, Palenque de San Basílio, na Colômbia, é conhecida por ser a primeira cidade  livre das Américas. Além de ser um marco para a independência da população africana no nosso continente, também foi responsável pela cultura dos palenqueros, que sobrevive até os dias de hoje.

Inclusive, a municipalidade que próxima a Cartagena, no litoral caribenho, também é considerada Patrimônio  Cultural e Imaterial da Humanidade. Continue lendo para conhecer mais sobre essa conquista do povo negro.

A chegada dos negros na Colômbia

Assim como no Brasil com os portugueses, os espanhóis traficavam africanos para que eles fossem escravizados em suas colônias. Para a Colômbia, foram enviados os capturados no Golfo da Guiné, que abarca os países Costa do Marfim, Gana, Togo, Benim, Nigéria, Camarões, Guiné Equatorial e Gabão. 

O principal ponto de chegada era o porto de Cartagena de Índias, localizado na costa caribenha, o principal centro de embarcações de toda a região. Aliás, o censo populacional feito em 1620 mostra que, dos seis mil habitantes da cidade, 1400 eram africanos. Já em 1686, o número cresceu para dois mil.

As rebeliões dos negros, porém, sempre estiveram presentes desde a sua chegada nas Américas. Um exemplo é a destruição da cidade de Santa Marta, também no Caribe, em 1530. Também já nessa época foram começados as primeiras fugas e formação de quilombos, que, na Colômbia, eram chamados de cimarrones ou palenques.

A revolução de Benkos Biohó e fundação de Palenque de San Basílio

A principal das revoluções causadas pelas pessoas escravizadas foi a liderada por Benkos Biohó. Trazido de uma ilha que hoje faz parte de Guiné Bissau em 1595, junto a sua esposa Wiwa e seus filhos Sando e Orika, ele era pertencente à etnia bijago. Os bijagos eram uma sociedade organizada de forma equitativa, com repartição de bens sem discriminação entre todos.

Em 1599, Biohó juntou cerca de 30 negros para fugir e fazer uma expedição na região de pântano de Matuna. Os espanhóis, tentando trazê-los de volta, montaram um grupo de caça encabeçado por Juan Gómez. Porém, com o fracasso dessa busca, a maioria deles caiu em mãos dos quilombolas (“cimarrones”, em espanhol) e acabou morrendo, inclusive o líder.

Então, o grupo de Biohó seguiu a expedição caminhando ao interior do país. Ao chegarem aos Montes de María, prepararam o terreno para montar seu próprio território que, no futuro, ficou conhecido como Palenque de San Basílio, localizada a 50km de Cartagena de Índias.

Enquanto a palavra “palenque” fazia referência aos muros levantados para fugir dos espanhóis e tem uma função similar ao termo “quilombo”, San Basílio foi adotado por conta da estátua do santo que estava sendo transportada entre cidades e ficou presa na região. Ninguém conseguiu removê-la do barro, o que foi encarado como um sinal de que eles deveriam adotá-lo.

Estátua de Benkos Biohó, localizada em Palenque de San Basilio
By Caracol Viajero – Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=55471178

A vida em Palenque de San Basílio

A escolha do local se deu ao alto nível de chuvas, criando uma correnteza que fornecia água para toda a população, que é usada para lavar roupas e tomar banho. Para consumo, foi criado um sistema de filtragem ao cavar poços.

Já as casas da cidade eram construídas de lata, troncos de guaco e folhas de palma. Infelizmente, grande parte delas foram queimadas durante a Guerra de Mil Dias, que ocorreu entre 1899 e 1902. Na ocasião, as tropas do general Jaramillo incendiou o território por conta da ajuda que a população prestou a seu adversário.

Para a subsistência do território, os palenqueros faziam saques a grandes fazendas, levando de volta à vila animais e plantações. Ao invadir esses lugares, também aproveitavam para liberar algumas pessoas escravizadas e conseguir novos aliados.

Benkos Biohó se tornou o rei do território. A sociedade palenquera tinha forte estrutura militar, sendo comandada, também, pelo general Lorencillo. Havia um tenente, um tesoureiro e, inclusive, um líder espiritual conhecido como zahorí. 

Quanto aos demais cidadãos, a organização social de redes de famílias chamadas ma-kuagro. Em cada um desses grupos tem um sistema de direitos e deveres, de modo que todos cooperam para o desenvolvimento e as atividades diárias.

As mulheres, inclusive, têm um papel muito importante na família. A preparação de doces tradicionais, ao longo dos anos, acabou se tornando uma das principais fontes de renda para as casas da cidade.

O governo de Palenque de San Basílio e os tratados de paz com os espanhóis

Ao saber da fundação de Palenque de San Basílio, mais uma vez foi lançado um grupo de caça, liderado por Diego Hernández Calvo e Francisco de Campos. Aliás, Campos era o escravagista que tinha Biohó sob seu poder antes da revolução. Entretanto, mais uma vez, foram derrotados.

Quando a segunda campanha de espanhóis foi derrotada, Francisco de Campos foi capturado e detido como prisioneiro. Segundo a tradição oral, a filha de Biohó teve um romance com ele e ambos fugiram. Porém, foram capturados e mortos. 

Começou a correr a história dos cimarrones entre os escravos, de modo que as revoltas e fugas passaram a ser cada vez mais comuns. Desta forma, Palenque de San Basílio começou a crescer ainda na virada do século 16 para 17.

Diante dessa situação, o governador de Cartagena Jerónimo de Zuazo y Casasola ofereceu um tratado de paz a Benkos Biohó, em 1605. Colocado em prática apenas em 1613, nesse ano os espanhóis reconheceram a autonomia da vila, de modo que os cimarrones tinham passe livre para transitar em Cartagena. A condição é que eles parassem de recrutar novos fugitivos e incentivar rebeliões. Além disso, Biohó deveria deixar de se entitular como rei.

O tratado durou apenas seis anos. Em 1619, Benkos foi capturado por guardas civis de Cartagena ao andar pela cidade. Zuazo já não era mais governador, de modo que o novo responsável pelo cargo, Don García Girón, se sentia intimidado por sua imponência e arrogância, que incentivava muitos pensamentos rebeldes entre o povo negro.

Portanto, ordenou sua execução. Depois de dois anos de prisão, em 16 de março de 1621 o revolucionário foi executado, com ordem de estrangulamento e posterior esquartejamento.

A independência e os desdobramentos

Mesmo com a morte do seu líder, a vila continuou crescendo e se defendendo diante das tentativas de ataque dos colonizadores. Tornando-se um grande símbolo de resistência negra na região já há mais de um século, a Coroa Espanhola não viu outra alternativa senão lançar um Decreto Real em 1713 que dava a liberdade para os palenqueros da região.

Desta forma, Palenque de San Basílio se tornou o primeiro território negro livre das Américas. Isso aconteceu quase 100 anos da independência do Haiti, que é considerado a primeira república negra do  mundo.

Com o sucesso de Benkos Biohó, cada vez mais os negros da região caribenha do país passaram a se rebelar. De fato, muitos dos cimarrones buscavam recrutar novos integrantes assim que desembarcavam dos navios negreiros, causando um clima de tensão entre os colonizadores.

Na região dos Montes de María surgiram quatro palenques com mais de 600 cimarrones. Porém, em outras partes como a serra de Larauco e a de San Luis também havia mais assentamentos.

Gostou de conhecer a história de Palenque de San Basílio, o primeiro território negro livre das Américas? Continue lendo o Exclamación para saber mais sobre países que falam espanhol!

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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