A ditadura argentina de Videla: marco de resistência e memória

Quando falamos de ditaduras na América Latina, é impossível não mencionar o país vizinho: a Argentina. O golpe de 1976, o sexto e último de uma série de intervenções militares, foi o mais brutal da história argentina, sustentado pelo apoio de grandes grupos econômicos nacionais e internacionais, da Igreja Católica e da Imprensa.

A incerteza de números de desaparecidos causa até hoje revolta na população do país; enquanto dados oficiais contabilizam cerca de 9 mil presos políticos sem paradeiro, organizações não-filiadas ao governo, como as Abuelas de Plaza de Mayo, estimam 30 mil desaparecidos.

Mas quais foram as circunstâncias que levaram seus governantes a cometer tamanha atrocidade? Como a Argentina lida até os dias de hoje com a desestabilidade financeira, além da emocional causada pela falta de respostas e de justiça?

Contexto histórico da ditadura na Argentina

O país sofreu uma severa crise econômica no ano anterior ao golpe. Após a morte do ex-presidente Juan Domingo Perón, sua sucessora, Isabelita Perón, não pôde contornar a iminente instabilidade dentro da sociedade argentina. 

Com a inflação marcando um aumento de 500%, o povo se mostra cada vez mais insatisfeito com a reação do governo, apesar de serem realizadas diversas trocas no Ministério da Economia na tentativa de salvar o mandato da crise.

Se aproveitando das críticas da imprensa e da revolta do povo argentino, os militares tomaram o poder em 1976, através de um golpe liderado pelo comandante das Forças Armadas, Jorge Rafael Videla, chamado de “Processo de Reorganização Nacional”.

O golpe de Estado de Videla

O Processo de Reorganização Nacional fechou o governo e teve como principal componente a repressão dos “subversivos”, que seriam todos aqueles que se opunham ao seu mandato, inicialmente exclusivamente membros e partidários do Partido Peronista.

Com o apoio da Igreja Católica, Videla era visto como um “bom ditador”, aquele que supostamente traria estabilidade para a população argentina após a crise. Mas isso foi se provando cada vez mais contraditório, ao passo que seus atos consolidaram a extrema censura militar.

Foi estabelecido a troca de todos os membros da Corte Suprema de Justicia para membros das Forças Armadas, além da proibição de toda atividade política e a pena de morte a todos os opositores. 

Consequentemente, o controle de informações divulgadas e a restrição de opiniões subversivas ao governo; segundo o documentário História Argentina, idealizado pela UBA, alguns jornais chegam a censurar palavras como “pobre” e “paz”.

A economia durante a ditadura argentina

Numa tentativa de estabilizar o mandato e sua força, Videla recusa o Programa de Estrutura para a Economia planejado pelo ministro da época. Desta forma, idealiza o “Reordenamento do Poder”, que resulta em um reajuste de preços que prejudica ainda mais o cidadão argentino, atingindo o aumento de 187,5% de montante, garantindo a ganância empresarial.

Em conjunção, são feitos recortes de salários e demissão de representantes do Estado. A implementação de mais impostos e mais tarifas para empresas públicas fazem com que o salário dos trabalhadores caia em 40%, o que desperta a fúria dos operários que organizam motins, apesar do decreto de uma pena de até seis anos para aqueles que realizarem uma greve.

Estratégia militar e Terrorismo de Estado

Com a formação do golpe de Estado, os militares encontram uma forma mais estável de exercer seu poder perante o povo. O país é subdividido em áreas estratégicas e assim são criados “Centros de Detenção”, onde eram levados os opositores do governo. 

A Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas (CONADEP) considera a ditadura argentina como Terrorismo de Estado, classificando-a por quatro momentos: 

  • sequestro: onde cidadãos argentinos eram levados de dentro de suas casas sem mandado policial e levados para os centros de detenção espalhados por todas as áreas, totalizando 364 campos de concentração;
  • a detenção: as condições que os detentos tinham nestes lugares era extremamente precária, além da extrema agressividade por parte da polícia. Em um terceiro momento, a tortura é apontada. Foram milhares de argentinos que tiveram seus direitos violados, com torturas psicológicas e físicas. 
  • a execução. Algumas após uma série de detenções e meses de tortura, outras ao serem recém capturadas; os presos políticos terminavam executados por seus ideais contrários ao governo. Um cenário comum dentro da história das ditaduras era a saída de um avião cheio de presos que voltava vazio numa travessia pelo mar, o desaparecimento dentro do raio de 9 a 30 mil pessoas.

Além disso, a Argentina teve participação na maior operação de troca de informações da América Latina do século XX. Conhecido como Plano Condor, o esquema de altíssima inteligência com apoio dos Estados Unidos se tornou uma fonte para a troca de informações entre governos ditatoriais.

Envolvidos Brasil, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia, além da própria Argentina, a Operação Condor facilitou o sequestro de pessoas e a perseguição política de inimigos do governo que estavam em exílio ou escondidos, totalizando um número incerto entre 60 e 80 mil mortos e mais de 400 mil prisioneiros políticos.

Por subsequente, no âmbito econômico, não se pôde mais negar o crescimento de preços e da subvaloração do dinheiro dentro do território argentino a partir de 1977. O país se sente obrigado a abrir as fronteiras para a importação de produtos, resultando em um crédito externo barato, que logo representam taxas mais altas.

Copa do Mundo de 1978 na Argentina

Ditadura militar: a protagonista da Copa de 78 na Argentina - Jornal O Globo

Com a chegada da Copa do Mundo de 1978, sediada na Argentina, o governo de Videla se mantém diante de uma nova ameaça: a imprensa internacional. Para impedir intromissão de órgãos estrangeiros, é contratada uma empresa privada como consultora de imagem do país no exterior. A partir de então, o país vê uma grande oportunidade.

São investidos cerca de 500 mil dólares na construção de estádios e para o suporte necessário dos gastos gerados pela chegada do Mundial em solo argentino. Além disso, a imprensa nacional é advertida que não deve fazer nenhuma crítica sequer à seleção argentina de futebol. 

Dentro do campeonato, porém, a Argentina encontra dificuldades de avançar: pela contabilidade de pontos, seriam necessários mais de 4 gols no jogo entre a Argentina e o Peru, para enfim poder desclassificar o Brasil. O time, porém, não enfrenta obstáculos para vencer os peruanos com seis gols de diferença, um placar considerado improvável, gerando um burburinho por meio da imprensa internacional.

A seleção argentina de futebol vence a Copa do Mundo de 1978 em casa e o povo argentino aproveita a glória em uma tentativa falha de esquecer o passado e começar um novo capítulo. Portanto, milhares de cidadãos comemoram a vitória em frente a Casa Rosada, palácio presidencial ocupado por Videla.

Mas, com o passar dos dias, a realidade do povo continua se agravando com mais brutalidade policial e maior número de desaparecidos.

Plata Dulce 

Em meio a tantas crises, a ditadura argentina enfrentaria mais um ataque à sua estabilidade. Como resultado da suspensão de direitos laborais, a queda da produção industrial e o crescimento da dívida externa por parte dos bancários gerou um dos maiores desastres econômicos da história da Argentina, conhecido como “Plata Dulce” (Dinheiro fácil).

Os bancos, que cada vez cobram mais taxas e tarifas para os empréstimos, geram uma quebra no financeiro, causando a falência de bancos argentinos como BIR, Banco de Los Andes e Bancos Oddone. O governo ditatorial, na tentativa de mascarar o colapso da economia do país, cria o Auxílio de Sistema Bancário, diminuindo as reservas e causando o aumento da dívida externa.

Insatisfeitos, os militares, que já haviam se separado em três grupos de potência, se revoltam e Videla tem de lidar com o inevitável afastamento do poder, logo após fazer uma declaração de que os peronistas, que representavam os maiores inimigos da estabilidade ditatorial e os primeiros a serem torturados e desaparecidos, poderiam, por sua vez, ter a chance de se reerguer como partido “se pudessem se encontrar de forma digna”.

O breve mandato de Viola

Inicia-se, em 1981, o mandato de Roberto Eduardo Viola. 

Escolhido pelas Forças Armadas para substituir Videla na posição de representante político da ditadura, o general tentou manter uma linha de meio termo, já que existia um conflito interno por parte dos militares que, por conta da instabilidade financeira e de concentração de poder, começaram a falar sobre a abertura do congresso para a convocação de eleições.

Por mais que a perseguição política ainda fosse extremamente forte e presente no seu mandato, a fraqueza se mostra publicamente quando, persistindo que iriam vencer apesar dos informes assim discordarem, a Grã Bretanha derrota as tropas argentinas nas Ilhas das Malvinas.

No mesmo ano, porém, Viola é afastado por problemas de saúde, sendo então substituído pelo terceiro representante não-eleito da história argentina, Leopoldo Galtieri.

Movimento Teatro Abierto contra a ditadura militar

O movimento Teatro Abierto tem grande força na resistência à ditadura no início dos anos 80. Após a declaração do governo de que “não existiam autores argentinos competentes” e a retirada da matéria de Dramaturgia Argentino Contemporâneo de uma das maiores universidades do país, dramaturgos, artistas e escritores se reúnem para a criação do Teatro Abierto.

Durante 2 meses, estes artistas, proibidos de se apresentar em teatros e televisão pela censura e o exílio político, voltam a se reencontrar na sede da organização, no Teatro de Picadero, para voltar aos palcos e encontrar o público.

O sucesso das peças foram notáveis. Apesar de não conter nenhum conteúdo que fosse considerado opositor do governo militar, o público encontrava maneiras de fazer analogias com as histórias cotidianas representadas nas peças com a realidade brutal do cidadão argentino. 

Tal notoriedade não agrada as Forças Armadas, que incendiaram propositalmente a sede de encontros, destruindo todo o edifício do Teatro de Picadero. Abrem-se as investigações por parte do governo, mas elas são inconclusivas; eles afirmam não haver “a mais mínima pista” do causador do incêndio, uma vez que foi provado ser proposital.

Isso não impedirá os artistas de buscar outros teatros e lugares para as suas apresentações, encontrando forças para resistir contra a opressão e representar a classe social mais prejudicada pelos ataques aos direitos humanos.

O desmonte da ditadura na Argentina

Uma série de acontecimentos desencadeiam a ruptura da ditadura militar. 

No início dos anos 1981, Viola declara que a petroleira argentina perdeu seis milhões de dólares americanos, afetados por conta da crise. 

Não demora muito para que o povo sinta o baque da instabilidade econômica: o aumento do dólar passa de 2 mil para 10 mil pesos argentinos do dia para noite.

Com Viola afastado, Leopoldo Galtieri toma as rédeas do regime militar e das tropas enviadas às Malvinas, para combater a Grã Bretanha de Margaret Tatcher na posse do território da ilha, que resulta em um fracasso completo. 

Depois de omitir a situação não favorável do país na guerra, gerando o extermínio de quase 700 soldados argentinos tanto nas mãos da guerra como também do desprezo dos comandantes com seus soldados, os militares lidam com ainda mais conflitos internos, levando-os a encaminhar o destino político a Bañoni, em uma última tentativa de manter o uma imagem de controle de poder.

Com a chegada de Bañoni, percebendo o abalo da figura militar dentro do cenário argentino e no resto da América Latina, é declarada a abertura do congresso e a convocação de eleições a mais tardar, no ano seguinte.

A Multipartidária, organização de representantes e partidos políticos contra a ditadura, juntamente com a liberdade de imprensa, pressionam o Estado para a determinação de uma data para a volta do povo às urnas. E, finalmente assim decidido pelo governante, em outubro de 1983, são realizadas as eleições e se exerce o direito do povo de escolher, marcando o fim de 7 anos de impunidade e opressão.

O pós-ditadura e os dias atuais na Argentina

A última ditadura militar argentina contabilizou um número incerto de desaparecidos, o que ainda gera uma sede de justiça para a população. As Abuelas de Plaza de Mayo, mulheres que tiveram seus filhos sequestrados e netos roubados durante os anos de repressão, estimam 30 mil desaparecidos e 500 crianças roubadas.

A lembrança de dias que não se repetirão se perpetua pela Argentina através dos anos. Inaugura-se no ano de 1998 o  Parque da Memória, monumento que homenageia os desaparecidos na ditadura cívico-militar pela contabilização oficial da época.

A escolha do lugar não é por acaso: em frente ao Rio da Prata, a área era conhecida por ali serem realizados os voos da morte, onde aviões que decolaram cheios de presos políticos e aterrissaram vazios.

Por conta deste e de outras homenagens aos mortos pelo regime militar de 1976, como a construção de um museu no lugar de um campo de concentração, o povo argentino relembra constantemente sua história e quais caminhos não podem-se tomar para evitar mais um massacre em massa. Assim o país entoa através das vozes do povo, aqueles que sobreviveram tamanha atrocidade, repete sempre em coro: “Nunca más”.

Você já conhecia a história da ditadura militar argentina? Confira o Exclamación para mais informações sobre a política hispanoamericana! Não deixe de conferir sobre a ditadura de Augusto Pinochet no Chile.

Autor: Amanda Clepf

Analista de mídias sociais e entusiasta da cultura e política hispânica. Gosto de debater e iniciar conversas. Simplemente enamorada por la história de Argentina.

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