Nos últimos dias, a ideia de que argentinos estariam recorrendo ao consumo de carne de burro como consequência direta da crise econômica ganhou força em parte da imprensa brasileira e nas redes sociais. A narrativa, no entanto, simplifica — e em alguns casos distorce — a origem do tema, que surgiu a partir de uma experiência pontual e não de uma mudança estrutural no padrão alimentar do país.
A discussão ganhou novo impulso após um debate no Senado argentino, durante a tramitação de um projeto sobre propriedade privada. Em meio a um ambiente já polarizado, a menção à carne de burro por um expositor provocou reações imediatas entre parlamentares, transformando o tema em símbolo de disputa política, mais do que em um retrato fiel da realidade social.
A origem da história da carne de burro
A base factual da controvérsia sobre a “carne de burro” está longe de indicar uma mudança generalizada no consumo argentino. O tema surgiu a partir de uma iniciativa específica na Patagônia, liderada pelo produtor rural Julio Cittadini, que passou a testar a comercialização desse tipo de carne como alternativa produtiva em regiões com limitações para a pecuária tradicional.
A proposta ainda ocorre em escala reduzida e enfrenta desafios de aceitação cultural e de desenvolvimento de mercado. Em muitos casos, a carne foi apresentada ao lado de outras alternativas regionais, como a de lhama, dentro de uma lógica de diversificação produtiva.
O projeto ainda opera em escala reduzida e enfrenta desafios importantes, como a resistência cultural ao consumo e a falta de um mercado consolidado. Inclusive, o próprio idealizador da iniciativa rejeitou a associação direta com a crise, indicando que se trata de um experimento econômico e não de uma substituição generalizada da carne bovina na dieta nacional.
O Ministério da Produção da província de Chubut, na Argentina, então, autorizou a venda de carne de burro, mesmo com várias críticas.
O que os dados econômicos mostram sobre o consumo da carne na Argentina?
Se a narrativa sobre a carne de burro é exagerada, os indicadores econômicos revelam, por outro lado, um cenário de pressão real sobre o consumo.
A inflação segue sendo um dos principais desafios. Dados oficiais indicam que o índice de preços ao consumidor registrou alta mensal recente superior a 3%, com acumulado anual acima de 30%. Embora significativamente menor do que os níveis extremos de anos anteriores, a inflação continua afetando o poder de compra.
No caso específico da carne bovina — um elemento central da cultura alimentar argentina — os preços subiram de forma expressiva. Cortes tradicionais passaram a atingir valores considerados elevados para grande parte da população, levando a uma redução no consumo.
A disparada tem sido um dos principais fatores de pressão sobre a inflação na Argentina. Dados do Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC) mostram que, enquanto a inflação acumulada em 12 meses chegou a 32,6% até março de 2026, o preço da carne subiu entre 55% e 61% no mesmo período, dependendo da região — praticamente o dobro da inflação geral. O impacto é tão relevante que o presidente Javier Milei afirmou que, sem a alta da carne, a inflação núcleo teria ficado em 2,5%. Levantamentos do Instituto de Promoción de la Carne Vacuna Argentina indicam ainda aumentos mensais expressivos, como 10,6% apenas em março, enquanto cortes populares lideraram as altas no último ano, evidenciando o peso do produto na cesta básica e no cálculo inflacionário.
Esse encarecimento já afeta diretamente o consumo. Segundo a Cámara de la Industria y Comercio de Carnes y Derivados de Argentina, a demanda por carne bovina caiu 10% em março de 2026 na comparação anual, com o consumo per capita recuando para 47,3 kg — o menor nível da série histórica iniciada em 2000. Entre as causas da alta estão a redução da oferta de gado, impactada pela seca de 2023, e a valorização dos preços internacionais — estimada em cerca de 40% — além do aumento do custo da hacienda, que chegou a níveis 85% acima da média histórica, segundo a Fundación Agropecuaria para el Desarrollo de Argentina.
Além disso, a combinação de políticas de ajuste fiscal, redução de subsídios e valorização do peso argentino contribuiu para um fenômeno descrito por analistas como “inflação em dólares”, encarecendo o custo de vida mesmo em moeda estrangeira.
