Conflito armado na Colômbia, parte 1: o contexto histórico (1863 – 1958)

O conflito armado na Colômbia foi um dos principais assuntos durante várias décadas nos noticiários globais. Os eventos que até hoje refletem na política colombiana também foram responsáveis pela criação de uma imagem pejorativa sobre o país.

Apesar da visão sobre a Colômbia ter mudado nos últimos 20 anos, principalmente pela criação de referências culturais positivas que se tornaram marcantes em todo o mundo, o slogan do departamento de turismo “O único perigo é querer ficar” ainda não conforta aqueles que ficaram com a impressão de que o local é muito violento.

De fato, os conflitos estão longe de ter um fim. Em setembro, o país apareceu novamente nos noticiários após a polícia matar um homem negro. Isso causou uma revolta em diversas cidades colombianas, com protestos que exigiam justiça e gritavam que vidas negras importam, também, na Colômbia.

Portanto, é essencial compreender qual a raiz desse problema e como a sociedade colombiana chegou ao atual estado. Continue lendo este post para entender essa linha do tempo. 

O contexto histórico do conflito armado na Colômbia

Embora o conflito armado na Colômbia seja um tema recorrente ao analisar a linha do tempo do país desde a época da libertação da América — houveram desentendimentos entre os bolivarianos e santanderistas e abolicionistas contra escravagistas, por exemplo —, existem alguns antecedentes históricos específicos que marcam a instauração de uma forma de guerra civil. 

Por conta disso, é impossível dissociar os conflitos mais recentes sem compreender quais foram os acontecimentos que transformaram a política e a sociedade colombiana a partir do século XIX.

A Guerra dos Mil Dias

Após a dissolução da Grã-Colômbia, que era uma nação formada pelos territórios que compreendem, também, o Equador, a Venezuela e o Panamá, em 1831, a política colombiana ficou dividida, essencialmente, entre dois grupos que disputavam o poder: os liberais e os conservadores.

Em 1863, os liberais criaram a Constituição Federalista que estabelecia o livre mercado e uma política contra o poder religioso. Em uma guerra entre 1864 e 1865, os conservadores retornaram ao governo e, em 1886, o então presidente Rafael Núñez e Miguel Antonio Caro decretam uma nova Constituição Centralista. 

O documento outorgou o poder da Igreja Católica, diminuiu a liberdade de imprensa e fez com que o lado conservador adquirisse mais poder por meio de ações acusadas de  fraudulentas.

Uma série de conflitos seguiu até que no dia 17 de outubro de 1899 começou a Guerra dos Mil Dias. O lado liberal, sem muita experiência militar, foi massacrado e derrotado. Ao total, cerca de 4% da população colombiana foi morta, em um total que ultrapassa a marca de 100 mil vidas perdidas. 

Com o término em 21 de novembro de 1902, data da assinatura do Tratado de Wisconsin, os conservadores se mantiveram no poder.

Entre as consequências da guerra é possível destacar a enorme inflação, que fez com que uma nota de um dólar fosse equivalente a 100 pesos colombianos, sendo que antes do conflito ela valia quatro, e a queda do preço internacional do café, principal exportação do país.

Bogotazo

Nas três décadas seguintes, a ala conservadora se perpetuou no poder. Em 1930, porém, o partido liberal vence uma eleição presidencial e coloca Enrique Olaya Herrera no cargo até 1934. Marcando o início da hegemonia liberal, os grupos conservadores começaram a se organizar a favor do presidente do Partido Conservador Colombiano, Mariano Ospina Pérez.

Enquanto isso, para as eleições de 1946, os grupos liberais se dividiram em dois grupos: os que apoiavam o então presidente Alberto Lleras Camargo, que representava as elites liberais, e Jorge Eliécer Gaitán, que defendia causas populares. 

Com a chamada para as próximas eleições devido ao mau governo de Lleras, os liberais indicaram Gabriel Turbay como principal e Gaitán como dissidente. 

Entretanto, favorecido pela divisão dos opositores, vence Luis Mariano Ospina Pérez. Desde o início do governo conservador, Gaitán foi posicionado como principal candidato liberal para as próximas eleições, já que possuía um forte apelo popular.

Convocou movimentos como a Marcha del Silencio — que levou mais de 100 mil pessoas a protestar contra as perseguições policiais violentas que simpatizantes do seu partido sofriam. Sua proximidade com pautas de esquerda e a crítica à dominância das elites começou a incomodar certos setores da política colombiana.

No dia 9 de abril de 1948 foi marcada em Bogotá a IX Conferencia Panamericana, na qual os Estados Unidos queria criar um acordo para declarar o comunismo ilegal nos países participantes. Por outro lado, na mesma época seria realizado o Congreso Latinoamericano de Estudiantes, para debater contra o intervencionismo estadunidense.

Entre os estudantes do congresso estava Fidel Castro, que deveria se encontrar com Gaitán na mesma data da conferência, às 14h. Entretanto, isso nunca aconteceu, pois o colombiano foi assassinado enquanto saía do prédio onde estava seu escritório para almoçar uma hora antes, com disparos feitos por um homem identificado como Juan Roa Sierra.

O assassino tentou escapar, mas o público que presenciou o ato o perseguiu enfurecidamente até que conseguiram capturá-lo. Foi linchado e espancado até a morte, tendo seu corpo arrastado pela rua. 

Logo, explodiu-se uma revolta na cidade de Bogotá, que ficou conhecida como Bogotazo. O ato durou uma semana e se espalhou pelo país, causando confrontos violentos e milhares de mortes.

La Violencia

Essa revolta marcou o ponto inicial do período chamado La Violencia, no qual grupos liberais e conservadores guerrearam incessavelmente. A guerra civil foi um período extremamente violento na Colômbia, marcado por assassinatos, perseguições políticas e confronto armado, principalmente nas zonas rurais do país.

Por conta disso, foram criados grupos armados de camponeses que se popularizaram pelas suas atitudes atrozes. Os mais famosos são:

  • Chulavitas: paramilitares anticomunistas para defender interesses conservadores na região de Boyacá;
  • Pájaros: com as mesmas motivações, porém formados por paramilitares originários do Valle del Cauca.

Além disso, também foram formados grupos de guerrilhas liberais, que vinham de regiões como Antioquia, Santander e Llanos Orientales. Muitos que faziam parte, porém, não participavam por conta de ideologias, mas sim para aproveitar e saquear fortunas e colheitas nas cidades do interior. 

Os que executavam essas atividades eram conhecidos como bandoleros. Ficaram conhecidos como “Robin Hood”, pois as riquezas roubadas eram repartidas entre os menos favorecidos. Porém, também assaltavam a polícia para obter armamento.

O bandolerismo se tornou tão forte que os grandes fazendeiros chegavam a pagar altas taxas para que esses grupos não adentrassem em suas propriedades.

Com a vitória do conservador Laureano Gómez nas eleições presidenciais de 1950, o conflito armado se intensificou. Sua política ia contra o diálogo com a oposição e fomentava a disputa bipartidarista e os grupos de ambos os lados seguiram com violência brutal e assassinatos.

Em 1952, houve a Conferencia Guerrillera Nacional, promovida pelo Partido Comunista Colombiano, com o objetivo de organizar ações contra os paramilitares apoiadores do governo, que chegou a fazer ataques em regiões dominadas pelos conservadores.

Calcula-se que, nesse período, morreram mais de 175 mil pessoas e mais de 2 milhões se viram forçadas a sair de zonas rurais, que foram as que mais sofreram com os grupos organizados e ataques.

Golpe de Estado e a Junta Militar

O crescimento da ação das guerrilhas junto à incapacidade do governo de contê-los causava um grande descontentamento na classe política. Por conta disso, o Exército junto a apoiadores organizou um golpe de estado, colocando o general Gustavo Rojas Pinilla no poder em 1953.

Apesar da tomada de poder à força, ele não era mal visto pela população. Isso porque ele representava um fim da hegemonia do Partido Conservador. Além disso, algumas de suas medidas davam a entender que o país, por fim, caminharia para a paz.

Pinilla ofereceu uma anistia parcial para a maioria das guerrilhas, que aceitaram e desativaram as suas atividades. Entretanto, as que eram ideologicamente marxistas continuaram a mando de Jacobo Prías Alape, membro do Partido Comunista e chefe do movimento agrário. 

Porém, essa promessa de paz acabou com o massacre de junho de 1954, que levou diversos estudantes à morte em plena luz do dia, com balas do exército. Além disso, Pinilla entrou em conflito com o Partido Comunista, acusando-os de conspiração com seu governo.

Tanto os liberais quanto os conservadores, preocupados com as medidas da ditadura militar, organizaram uma greve nacional com o apoio das classes populares. Em 10 de maio de 1957, o general Gustavo Rojas Pinilla renunciou o cargo.

Então, assumiu em seu lugar uma Junta Militar para o período de transição. Uma das primeiras medidas foi convocar a população para votar em um plebiscito para a aprovação de uma reforma constitucional, no dia 1 de dezembro de 1957. Nessa ocasião, foi a primeira vez que as mulheres puderam exercer o direito de voto no país.

Este post é a primeira parte de uma série de textos que abordam a linha do tempo do conflito armado na Colômbia. Em breve será lançada a continuação. 

Continue acompanhando o Exclamación para saber mais sobre política, história e cultura de países hispanos!

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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