A influência da violência na Colômbia na obra de Gabriel García Márquez

Considerado o principal nome do realismo mágico, Gabriel García Márquez teve sua obra diretamente ligada à violência na Colômbia. O autor é o ganhador do Nobel da Literatura e foi fortemente influenciado pelos acontecimentos que marcaram o seu país. 

Seu avô, Nicolás Márquez, foi um coronel associado aos liberais que esteve presente nos enfrentamentos bipartidários que culminaram na Guerra de Mil Dias, a guerra civil mais cruel da Colômbia. Nesse tempo, houve a morte de 4% da população total do país, o que resulta em cerca de 100 mil pessoas.

Conheça algumas formas como os períodos da Guerra dos Mil Dias, Bogotazo e La Violencia estiveram presentes na arte do escritor colombiano.

O encontro com milícias “El Amor en los Tiempos de Cólera”

O livro “O Amor nos Tempos de Cólera” conta uma história dividida em dois recortes temporais. O primeiro deles se passa na festa de casamento de Fermina Daza e Juvenal Urbino. Ao citar o ex presidente Rafael Nuñez, que ocupou o cargo três vezes entre 1980 e 1988, ele coloca a temporalidade para que o leitor possa entender o contexto histórico.

Naquela época, as disputas entre os partidos conservador e liberal começavam a se esquentar. A tensão culminaria na Guerra de Mil Dias, que é o principal ponto de partida para entender o contexto histórico do conflito armado na Colômbia.

Em um determinado ponto, o pai de Fermina descobre que ela está se correspondendo com seu antigo amor, Florentino, e a leva para outra cidade. Em um fragmento, a jovem se mostra horrorizada pelo medo de viajar a noite, já que havia o perigo de serem interrompidos por milícias na estrada.

De fato, em um momento, o homem chega a ser abordado por milícias que o questionam se ele é liberal ou conservador. Por ser espanhol, não demonstra simpatia por nenhum dos dois.

“Cien Años de Soledad”: o bipartidarismo em Macondo remonta o início do conflito armado na Colômbia para o leitor

O clássico e um dos maiores títulos da literatura latino-americana que se passa na cidade fictícia de Macondo mostra como aquele pequeno povoado era pacífico nos inícios de sua formação, até que o Estado começa a se fazer presente para instituir as burocracias do governo por meio do Corregedor Moscote. O autoritarismo chega, também, acompanhado do bipartidarismo que atingia toda a Colômbia, na época.

Ao ser questionado, Moscote explica a Aureliano Buendía a diferença entre os liberais e conservadores. Os primeiros seriam “pessoas de má índole, a favor de enforcar padres, de instituir matrimônio civil e divórcio”, entre outras coisas. Já os segundos seriam aqueles que “receberam o poder por meio de Deus, propagavam a estabilidade da ordem pública e a moral”.

Em “Cien Años de Soledad”, Aureliano simpatizou com a ideologia liberal e a abraçou, definitivamente, depois de presenciar Moscote, conservador, fazendo fraude eleitoral para poder tomar o poder de Macondo. A cidade passou a sofrer nas mãos da repressão policial, de modo que Buendía se sentiu motivado a ingressar no exército rebelde liberal.

Relatos da violência na Colômbia na literatura de Gabriel García Márquez, com “Vivir Para Contarla”

Além das contribuições literárias, Gabriel García Márquez era jornalista e escreveu muitos textos que se desgrudam da ficção e falam da realidade. Em sua biografia, “Vivir Para Contarla”, o autor narra um momento que ele presenciou e que, depois, se tornou um marco para a história colombiana e, também, para a sua própria vida.

Um dos acontecimentos que ajudam a dar o contexto histórico para o conflito armado na Colômbia é o Bogotazo: uma série de manifestações violentas após o assassinato do líder político Eliécer Gaitán em plena luz do dia, horas antes de seu encontro com Fidel Castro.

A sua morte levantou uma fúria repentina que fez com que o povo ali presente perseguisse o atirador e o linchasse até a morte.

Em um trecho, Gabriel García Márquez conta:

“Agarraram pelos calcanhares o corpo [do atirador] ensanguentado e o arrastraram pela rua Séptima até a praça de Bolívar, entre os últimos trens elétricos detidos pela notícia, vociferando gritos de guerra contra o governo. Das varandas os encorajavam com gritos e aplausos, e o cadáver desfigurado a golpes ia deixando peças de roupa e de corpo nas ruas. Muitos se incorporaram à marcha, que em menos de seis quadras havia alcançado o tamanho e a força expansiva de um estalo de guerra. Ao corpo macerado só lhe restavam a cueca e um sapato.”

Estes são apenas alguns exemplos de como o conflito armado e a violência na Colômbia se fizeram presentes na literatura do autor colombiano. Continue lendo o Exclamación para saber mais sobre história e cultura de países hispanos.

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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