Mães e Avós da Praça de Maio: força feminina na ditadura argentina

A última ditadura argentina, que aconteceu entre 1976 e 1983, foi uma das mais brutais da América Latina e ainda causa muita revolta pela falta de informação sobre o número de mortos e desaparecidos, mesmo depois de 40 anos. 

Há quem diga que foram 6 mil, mas, segundo a Asociación Abuelas de Plaza de Mayo, são contabilizadas cerca de 30 mil pessoas. Estas mulheres, que resistiram à ditadura com toda sua força, protestaram constantemente na praça principal de Buenos Aires em nome de justiça por seus filhos e netos desaparecidos.

Em homenagem ao Dia das Mães, o Exclamación trará um pouco da luta dessas mulheres dentro da política e como o amor maternal se tornou uma forma de resistência feminina que causa admiração para a população argentina.

Contexto histórico: o golpe de 1976 e na Argentina

Na instabilidade política da Argentina, e após muitas intervenções militares nos anos antecedentes, o golpe de 1976 não foi uma surpresa. Isabelita Perón foi afastada do cargo de presidência após uma operação das Forças Armadas, liderada pelo general Jorge Videla, dando início aos tempos de maior brutalidade militar na história argentina.

Marcado por assassinatos em praça pública e prisões sem mandatos, os confrontos entre a polícia e grupos de resistência aconteciam com frequência no cenário da Argentina do final dos anos 70. Associados ao partido peronista, reivindicando direitos humanos e democracia, jovens encabeçaram os ataques contra a armada governamental.

Estes jovens se separavam em grupos clandestinos, espalhados por todas as províncias do país, formando uma base de forte resistência à violência militar. Mas não tardou muito para o autoritarismo prevalecer, onde qualquer suspeito de oposição era levado preso, mesmo que sem mandato.

Homens e mulheres são detidos sem justificativas e, com a escassez de informações, inicia-se a luta de inúmeras famílias por respostas, na busca incessante por seus parentes desaparecidos.

Filhos desaparecidos na ditadura

Com a conduta policial se tornando cada vez mais desumana, mães rondam delegacias à procura de seus filhos. A força feminina começa então a se tornar mais presente na política quando estas mulheres incansáveis questionam as autoridades.

Mas o cenário real da população é de desespero e negação. Parte do povo fecha os olhos para o autoritarismo, negando a existência de repressão, enquanto a outra parte se encontra em desolação pela falta de informação sobre o paradeiro dos desaparecidos.

A indignação toma conta das famílias pelo país e as mães argentinas resolvem se unir em uma das praças principais da cidade de Buenos Aires, a Plaza de Mayo, para exigir a localização de seus filhos através do que seria, a princípio, uma pacífica caminhada, e que, mais tarde, se tornaria uma marca de resistência em forma de protestos.

Política e resistência feminina: formação das Mães da Praça de Maio

Em um ato popular, 14 mães realizam uma caminhada até a Casa Rosada, palácio presidencial ocupado pelos militares na época, em nome de seus filhos. Estas mulheres encontram conforto umas nas outras, percebendo a realidade em comum entre tantas histórias de famílias argentinas.

Nasce, em 1977, o movimento das Madres de Plaza de Mayo, tornando regular os encontros de ainda mais mulheres na região, em forma de oposição e em busca de justiça. Com o símbolo de um lenço branco na cabeça, as Mães da Praça de Maio se tornam o primeiro movimento contra o militarismo durante a ditadura.

Em uma tentativa de se organizar e compreender completamente a complexidade de suas reivindicações, estas mulheres se encontravam na casa de Azucena Villaflor, representante do grupo, para debater estratégias e encontrar apoio umas nas outras.

Os encontros se tornam uma arma que marca a potência do movimento, onde grande parte destas mulheres aprendem sobre política, enquanto outras encontram abrigo depois de longas viagens interprovinciais.

No documentário “Todos son mis hijos”, Evel de Petrini, uma das mães associadas ao movimento Madres de Plaza de Mayo, conta um pouco sobre a luta do ponto de vista maternal:

“O que dói é não saber. Você diz ao seu filho, olhando nos seus olhos ‘tchau, até amanhã’, e depois você nunca mais o vê. Não saber o que aconteceu, nem onde ele está, nem saber o que fizeram com ele. É uma coisa que carcome a sua cabeça durante muito tempo. Você fica perto do telefone caso ele te ligue, você fica perto da porta caso ele apareça, você não sai de casa porque tem medo dele chegar e você não estar. E depois começa a doer na alma. […] É uma coisa tão desesperadora que eu acredito que não haja uma dor maior que esta.”

Apesar de protestarem de forma pacífica, os encontros se tornam uma forma de resistência nacional, liderada por essas mães que, com sua simplicidade e sinceridade, acabam sensibilizando diversas pessoas a se juntarem a elas por justiça.

Este ato não agrada os militares, que não se restringem na hora de atacar com violência. As mães de Maio relatam agressões, além de representantes principais serem levadas à prisão na tentativa de dispersar o grupo.

Netos roubados: as Avós da Praça de Maio

Muitas das filhas e noras das Mães da Praça de Maio estavam grávidas no momento em que foram detidas. Cria-se mais revolta através dos anos quando estas famílias não recebem informações nem sequer do paradeiro de seus netos, sendo conhecidas a partir de então como Abuelas y Madres de Plaza de Mayo.

Durante os anos de repressão militar, deu-se início a um sistema clandestino onde os militares realizavam o parto destas mulheres grávidas, sequestrando seus filhos e os vendendo para famílias de militares e cúmplices do governo.

Os rumores sobre o paradeiro destes recém-nascidos seriam confirmados anos após o esvaecimento da ditadura no país, provando que foram falsificadas identidades e simuladas adoções de crianças nascidas na época do regime por todo o território argentino.

Estima-se que mais ou menos 500 crianças foram sequestradas, onde 119 foram identificados e 381 continuam desaparecidas até o dia de hoje, mesmo 40 anos depois do fim do golpe.

Mães e Avós da Praça de Maio nos dias de hoje

Após o fim da última ditadura militar argentina, foram decretadas como mortas todas as pessoas que desapareceram sem rastro de paradeiro. Muitas mães perderam as esperanças de encontrar seus filhos, mas não seus netos.

A Asociación Cívica Madres y Abuelas de Plaza de Mayo se tornou uma organização não-governamental com o intuito de descobrir a identidade dos netos destas mulheres e reunir as famílias, em nome de justiça. 

Com o emblema “Todos son mis hijos” (Todos são meus filhos), essas mães encontraram forças umas nas outras durante a ditadura e criaram um vínculos através dos anos, se tornando o símbolo de resistência feminina numa luta que é travada até os dias de hoje.

A força maternal destas mães e avós é homenageada até hoje. São encontradas placas, monumentos e praças em várias cidades argentinas, além de prêmios nobres pela trajetória de defesa dos direitos humanos instauradas pelas Abuelas de Mayo.

Além disso, os lenços, “pañuelos” no castelhano, se tornaram uma forma de resistência feminina por todo o país, representando a força do coletivo feminino. As Actrices Argentinas, organização política atual de atrizes que travam lutas ideológicas feministas, trazem como símbolo o lenço verde.

Agora que conhece a história das Mães e Avós da Praça de Maio, leia sobre outro momento importante para a Argentina e conheça o legado de Eva Perón.

Autor: Amanda Clepf

Analista de mídias sociais e entusiasta da cultura e política hispânica. Gosto de debater e iniciar conversas. Simplemente enamorada por la história de Argentina.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s