Sky Rojo: a série espanhola abre debates sobre a crueldade das redes de prostituição

A série espanhola Sky Rojo é a nova aposta mundial da Netflix. Dos mesmos criadores de La Casa de Papel, a trama traz em sua primeira temporada oito episódios de menos de 30 minutos, cada, contando a história de Coral, Wendy e Gina, três prostitutas que vivem presas em um bordel, e se veem na necessidade de fugir depois de um crime para salvar suas vidas.

Lançada em 19 de março de 2021, em pouco mais de 24 horas alcançou o top 10 mais visto de mais de 40 países: além dos óbvios Espanha, Argentina, México e Brasil, também figuram na lista Grécia, Polônia, Israel, Sérvia e Líbano.

O elenco também traz estrelas como Lali Espósito — argentina famosa por participar de tramas infanto-juvenis na década de 2000, como Chiquititas e Casi Ángeles, além de ter uma carreira como cantora — e Miguel Ángel Silvestre — espanhol que participou das séries Velvet, Sense8 e Narcos, além de estar confirmado para La Casa de Papel.

Aviso: este texto pode conter alguns spoilers.

O enredo de Sky Rojo

A história se passa em Tenerife, uma ilha que faz parte do arquipélago das Canárias, na Espanha. No meio de uma estrada que corta o deserto, está o bordel Las Novias. Este é o lugar onde os homens chegam para satisfazer e libertar todos os seus desejos sexuais. As noites são regadas de luzes neon, música, brilho e dinheiro.

Porém, atrás de toda a festança estão seres humanos que, na verdade, não queriam estar ali. E é possível perceber isso pela primeira vez ao conhecermos Gina (Yany Prado), a cubana. Ao tentar quitar uma dívida com seu cafetão, Romeo (Asier Etxeandia), para enfim poder ir embora, ela percebe que está presa em um ciclo sem fim: ao pagar milhares de euros que lhe devia, ele avisa que ela deve ainda mais do que antes.

A série também nos mostra sua amiga Wendy (Lali Espósito), uma argentina que funciona como um alívio cômico em diversas situações. Ela saiu de Villa 31 — uma espécie de favela situada em Buenos Aires — e, apesar de estar no mundo da prostituição, não gosta de homens.

Mas a história é narrada por Coral (Verónica Sánchez), uma ex dona de casa que até mesmo tem ensino superior. Existe um mistério no porquê ela está ali naquele bordel, mas uma coisa é fato: ela quer fugir e se esconder de alguém.

As três acidentalmente cometem um crime e resolvem fugir para se salvar. Com muita ação em uma trama que se passa em apenas dois dias, elas são caçadas pelos capangas do dono do bordel, os irmãos Moisés (Miguel Ángel Silvestre) e Christian (Enric Auquer). Até que, finalmente, elas decidem deixar de serem caçadas e invertem os papéis.

OBS: em um dos episódios há um “easter egg” de La Casa de Papel. Será que você consegue encontrar a referência?

A realidade da prostituição na Espanha

A Espanha é o país da Europa campeão em consumo de prostituição, ficando em terceiro lugar no mundo todo. Esses dados são apresentados na própria série, em flashbacks de Romeo, Christian e Moisés conversando com outros investidores.

A realidade é crua e violenta — e Sky Rojo não tenta romantizar a situação por se tratar de uma ficção. De fato, o criador Álex Pina passou anos entrevistando mulheres que foram vítimas de redes de prostituição para que pudesse dar um tom mais realista à trama.

A série mostra como essas mulheres não são felizes, como elas usam o escapismo da mente durante as relações para que seja possível suportar a dor de estar em uma situação como essa. E, pior ainda, por estarem presas em um bordel, não podem sequer sonhar em sair de lá.

Com uma recomendação etária para maiores de 18 anos, há cenas explícitas — mas que, ao mesmo tempo, não pesam no tom para não deixar o telespectador totalmente desconfortável —, é possível conhecer por meio de flashback algumas situações às quais elas são submetidas.

Ainda, Sky Rojo levanta quatro problemáticas muito pertinentes sobre o mundo da prostituição.

#1 As vítimas de tráfico de mulheres e da pobreza na América Latina

Sky Rojo mostra a história de duas latino-americanas: a cubana Gina e a argentina Wendy. Não por acaso, dados da Organização das Nações Unidas (ONU) também mostram que 13% das mulheres que estão em situação de tráfico e exploração sexual na Espanha são do nosso continente.

Apesar de ambas serem latino-americanas, vemos duas situações diferentes. Somos levados a acreditar que Gina foi enganada por Moisés, que foi até Havana e lhe prometeu um emprego de garçonete no país, e ainda ajusta para tirar o visto de permanência. Ela deixou sua mãe e seu filho pequeno, prometendo enviar dinheiro todo mês para que eles possam ter uma vida melhor.

Porém, logo percebemos que somente ela foi enganada. Em uma ligação após a fuga, Gina descobre que sua mãe não apenas sabia que ela seria prostituta, mas também “garantiu que ela faria o serviço direito”. Ainda, a mandou voltar porque “eles mandam dinheiro”. 

Por outro lado, temos Wendy, que morava em uma favela em Buenos Aires junto com sua namorada, e se ofereceu para ir à Espanha com o objetivo de juntar dinheiro para que ambas pudessem sair daquela realidade cruel na qual viviam. Logo, descobrimos que ela enviou tudo o que tinha e a garota a deixou.

Em uma cena, Moisés comenta que várias famílias na América Latina o veem como herói e dão graças a Deus quando ele oferece levar uma de suas filhas para serem prostitutas na Espanha. Isso escancara um problema social muito grave: a aceitação da venda de mulheres em troca de dinheiro para poder comer e viver.

Wendy, apesar de não ter sido vendida por sua família e ter certo nível de consciência da situação, também mostra que muitas mulheres se submetem a isso para tentar ganhar uma vida melhor, mas logo percebem a roubada na qual se meteram e, infelizmente, não têm como voltar atrás.

#2 A mercantilização de mulheres

A primeira delas é o tratamento das mulheres como se elas fossem objetos, meras mercadorias. Nos flashbacks em que Romeo conversa com os investidores, ouvimos falas sobre como esse é o negócio mais rentável do universo: eles investem cerca de seis mil euros por garota e cada uma delas em dois anos dá um retorno de 300 mil.

Ainda, são feitas as contas de com quantos homens, em média, cada uma terá que ter relações: com 15 clientes por noite, ao final desse prazo de dois anos, chegamos ao assombroso número de 10.950.

Eles também conversam sobre o quão solitárias elas são e se aproveitam disso. A ideia é se aproximar delas, perguntar como estão — já que ninguém mais se importa com elas. Essa é uma vulnerabilidade da qual eles usam como ferramenta para dominá-las e tê-las em suas mãos.

Também é importante mencionar que ele, de fato, as mantém presas: ao viverem em uma ilha, não é possível fugir para outro lugar. Ainda, ele também tem os passaportes de todas elas guardados em uma caixa forte. Ou seja: mesmo que alguma consiga fugir do bordel, não vai conseguir ir muito longe.

#3 Em Sky Rojo, “não” é “sim”?

Romeo comenta sobre a importância dos bordéis para que os homens possam exercer seu “instinto natural” de transar com o máximo de mulheres possível. Então, esse não pode ser um espaço para as novas ondas, como o #MeToo — que começou com mulheres nos Estados Unidos contando situações de abuso sexual.

Ou seja, ali dentro todos teriam a liberdade para fazerem o que quiserem. E, usando o que ele mesmo disse: “Sim é sim, não é sim, e talvez também é sim”.

Em contrapartida, em uma narrativa feita por Wendy, ela fala sobre como quando a mulher não quer, o sexo se torna um estupro — e é isso o que acontece com elas. Presas naquele lugar, elas são obrigadas a satisfazerem sexualmente vários por dia para poder sobreviver.

De fato, depois que elas fogem e decidem tentar ter uma nova vida, Wendy encontra em um banheiro um ex cliente que pede que ela faça um servicinho. Ela diz que não, pois “já não sou puta”. Então, ele usa da força para conseguir o que quer. Então, para que serve dizer “não”, mesmo que a mulher acredita ter liberdade de escolha?

#4 Sem clientes não existe prostituição

Outro dado chocante mostrado é que 39% dos homens espanhóis já procuraram serviços de uma prostituta — e quem confirma essa informação é a própria (ONU). Isso ajuda a explicar o porquê dos números de prostituição e tráfico de mulheres serem tão altos no país. Afinal, se não existe procura, não é preciso ter uma indústria por trás disso.

Em uma cena, um cliente que está ajudando as três garotas escuta uma conversa delas falando sobre sua triste realidade. Ele se sente mal e diz que não sabia que elas passavam por isso, mas que não tinha culpa de elas estarem nessas situação. 

As garotas deixam claro que ele tem culpa, sim, porque ele paga por sexo. Se não houvesse clientes, não haveria tantas garotas sequestradas sendo obrigadas a se prostituírem. 

Sky Rojo é uma série que te prende pela ação, pela fuga, pelos confrontos. Mas, ao mesmo tempo, ela te coloca para pensar na crueldade das redes de prostituição que existem na Espanha, o maior consumidor de exploração sexual da Europa.

Agora, veja estas dicas de 5 séries curtas em espanhol para assistir!

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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