Três meses após a captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, a Venezuela vive um paradoxo político: a ruptura que parecia inaugurar uma nova era convive com a permanência de estruturas, práticas e atores do período anterior. A substituição relâmpago pelo governo interino liderado por Delcy Rodríguez, consolidada em menos de 48 horas, garantiu uma estabilidade inicial que surpreendeu tanto opositores quanto setores do próprio chavismo. No entanto, a rapidez da reorganização estatal não foi acompanhada por transformações profundas.
A sensação dominante no país é de suspensão. A rotina foi retomada, o comércio voltou a funcionar, as instituições seguem operando e as ruas voltaram a ser ocupadas por manifestações — tanto de apoio quanto de contestação. Mas a questão central permanece sem resposta: trata-se de uma transição democrática em curso ou de uma reconfiguração do poder dentro do mesmo sistema?
Do madurismo ao rodriguismo: mudança de liderança, continuidade estrutural
A substituição de Maduro por Rodríguez não significou uma ruptura com o modelo político consolidado ao longo das últimas duas décadas. A mudança de liderança parece mais um rearranjo interno do que uma transformação estrutural. O aparato estatal, incluindo os mecanismos de controle político, judicial e de segurança, segue praticamente intacto.
A nova administração promoveu alterações significativas no gabinete, substituindo mais de 40% dos ministros e afastando figuras diretamente associadas ao círculo íntimo de Maduro. A saída de nomes-chave do núcleo duro do poder, incluindo aliados históricos e operadores políticos, foi interpretada como uma tentativa de consolidar autoridade própria e, ao mesmo tempo, sinalizar abertura a novos interlocutores — internos e externos.
Ainda assim, a base do poder permanece ancorada nas mesmas redes institucionais e militares que sustentaram o chavismo nas últimas décadas. A nomeação de figuras com histórico nos serviços de inteligência e nas forças armadas reforça a ideia de continuidade na lógica de controle.
O que emerge, portanto, não parece ser uma transição controlada, que preserva os pilares do sistema enquanto busca reposicioná-lo diante de novas circunstâncias. Seria um chavismo por fora, e um entreguismo aos Estados Unidos por dentro?
Tutela externa e reconfiguração geopolítica
Se no plano interno a mudança é limitada, no plano internacional a transformação é evidente. A Venezuela vive hoje sob uma forma inédita de tutela econômica e influência política dos Estados Unidos. Após a operação que resultou na captura de Maduro, Washington passou a exercer controle direto sobre fluxos financeiros estratégicos, especialmente aqueles provenientes da exportação de petróleo.
A reaproximação diplomática entre Caracas e Washington foi rápida e pragmática. Em poucas semanas, as embaixadas foram reabertas, canais de comunicação foram restabelecidos e acordos começaram a ser negociados. A suspensão parcial de sanções, especialmente aquelas direcionadas à liderança interina, foi acompanhada pela imposição de novos mecanismos de supervisão econômica.
O petróleo, principal ativo do país, tornou-se o eixo dessa nova relação. Embora a produção esteja em recuperação e novos investimentos tenham sido anunciados, os recursos gerados não estão plenamente sob controle do governo venezuelano. A administração desses fundos, mediada por instituições financeiras sob influência norte-americana, limita a autonomia do Executivo.
Essa dinâmica cria uma tensão estrutural: ao mesmo tempo em que a cooperação com os Estados Unidos é vista como condição para a recuperação econômica, ela também reforça a percepção de perda de soberania.
Economia: sinais de recuperação, impacto desigual
No plano econômico, os sinais são ambíguos. Indicadores macroeconômicos apontam para uma recuperação gradual, impulsionada principalmente pela reativação do setor petrolífero e pela expectativa de investimentos estrangeiros. A abertura do mercado de hidrocarbonetos, rompendo com décadas de controle estatal rígido, representa uma mudança significativa na política econômica.
O mercado imobiliário, por exemplo, começa a reagir após anos de estagnação. Há um aumento nas transações e uma valorização de ativos, especialmente em áreas urbanas com maior dinamismo comercial. No fim, esse movimento reflete uma aposta na estabilidade futura, ainda que baseada mais em expectativas do que em resultados concretos.
No entanto, essa recuperação não se traduz de forma imediata no cotidiano da população, pois a inflação continua pressionando os preços, o bolívar segue em trajetória de desvalorização e o poder de compra permanece extremamente limitado. O salário mínimo, praticamente simbólico em termos reais, mantém grande parte da população em situação de vulnerabilidade.
O consumo reflete essa realidade. Há uma redução na compra de bens básicos, com famílias priorizando o essencial e abandonando padrões de consumo mais amplos, e a economia, embora em recuperação técnica, ainda não conseguiu reconstruir o tecido produtivo necessário para gerar emprego, renda e estabilidade.
A anistia e seus limites
Um dos principais gestos do governo interino foi a aprovação de uma Lei de Anistia, apresentada como instrumento de reconciliação nacional. A medida resultou na libertação de centenas de presos considerados políticos, um movimento que foi recebido com cauteloso otimismo.
No entanto, a aplicação da lei revelou seus limites, uma vez que o processo de liberação não é automático e depende de decisões judiciais caso a caso. Além disso, há exclusões significativas, que mantêm um número relevante de pessoas detidas. A seletividade na aplicação levanta questionamentos sobre a real intenção da medida.
A anistia também cumpre uma função política: reduzir a pressão interna e melhorar a imagem do governo diante da comunidade internacional. Ao mesmo tempo, mantém instrumentos de controle ao não liberar todos os detidos ou ao impor restrições aos libertados.
Essa ambiguidade define o momento atual com avanços pontuais que coexistem com mecanismos de contenção que impedem uma abertura plena.
Liberdades e espaço cívico
O espaço cívico na Venezuela apresenta sinais de reativação, mas permanece sob vigilância, uma vez que manifestações voltaram a ocorrer com maior frequência e menor repressão imediata, indicando uma mudança na estratégia governamental. Em vez de repressão direta, observa-se uma gestão mais calibrada.
Esse recuo relativo da repressão permitiu o retorno de setores da sociedade às ruas, incluindo trabalhadores, aposentados e estudantes. As demandas são majoritariamente econômicas, centradas em salários e condições de vida, mas carregam também um componente político.
No entanto, a liberdade de expressão é limitada, pois restrições a meios de comunicação, bloqueios digitais e controle indireto sobre a informação fazem parte do cenário.
O impasse institucional e a ausência de eleições
A questão eleitoral é o ponto mais crítico da atual conjuntura. A Constituição venezuelana estabelece mecanismos claros para a substituição do presidente em caso de ausência absoluta, incluindo a convocação de novas eleições. No entanto, a interpretação adotada pelas instituições evitou classificar a situação de Maduro de forma definitiva.
Esse vazio jurídico permite a manutenção do governo interino por tempo indeterminado, sem a obrigatoriedade de convocar eleições imediatas. O resultado é um limbo institucional, no qual o país opera sem um horizonte político claro.
A possibilidade de eleições existe, mas não há cronograma definido. A percepção é de que o governo busca ganhar tempo, consolidar sua posição e melhorar suas condições antes de enfrentar um processo eleitoral.
Enquanto isso, a oposição, embora rearticulada, enfrenta dificuldades para converter apoio social em poder político efetivo. A ausência de regras claras e garantias institucionais limita sua capacidade de atuação.
Nas ruas, o sentimento predominante é uma combinação de revolta, esperança e ceticismo. A saída de Maduro gerou para os opositores expectativas de mudança que haviam se dissipado nos anos anteriores. Ao mesmo tempo, a ausência de transformações concretas alimenta dúvidas sobre o futuro. Por outro lado, os apoiadores seguem lutando pela soberania do país e contra a intervenção dos Estados Unidos
A vida cotidiana continua marcada por incerteza.
Serviços públicos e infraestrutura: a crise persistente
A crise dos serviços públicos permanece como um dos maiores desafios, pois o sistema elétrico continua instável, com apagões frequentes fora da capital.
Problemas semelhantes afetam o abastecimento de água, o sistema de saúde e o transporte público. A deterioração acumulada ao longo de anos não pode ser revertida rapidamente, mesmo com novos recursos.
A dependência de financiamento externo e a necessidade de reconstrução estrutural colocam o país diante de um processo complexo e prolongado.
Cenários possíveis
Os próximos meses serão decisivos para definir a direção da Venezuela. Três cenários principais se desenham:
O primeiro é de uma reconfiguração do chavismo sob influência externa, em que o grupo político se mantém no poder, agora com maior pragmatismo e dependência de Washington. As reformas econômicas e os gestos de abertura funcionariam menos como ruptura e mais como estratégia de sobrevivência.
Um segundo caminho é o de uma abertura política condicionada, impulsionada pela pressão social e por interesses internacionais, que poderia levar a eleições, ainda que sob forte controle institucional.
Também pode haver um terceiro cenário de tensão prolongada, marcada pela dificuldade de estabilização e pelo avanço de setores do chavismo que rejeitam a tutela externa. Nesse cenário, pode ganhar força um discurso anti-imperialista e uma tentativa de recompor autonomia política, aprofundando a disputa interna e elevando a incerteza.
Todos os cenários estão condicionados por um fator central: a relação com os Estados Unidos. A capacidade de Washington de influenciar a economia e a política venezuelana será determinante para o desfecho, mas ainda é difícil prever o que irá acontecer.
