A cada quatro anos, o planeta praticamente para. Ruas se esvaziam, escritórios ligam a televisão escondida atrás do computador, bares lotam antes do meio-dia e grupos de WhatsApp viram um festival ininterrupto de memes e palpites táticos. Na América Latina, essa relação nunca foi um mistério para quem presta atenção. Ela está nos estádios que já serviram de centro de tortura, nos ditadores que discursavam ao lado de jogadores, nos empresários que compraram clubes para chegar à presidência da República, nas seleções usadas como anestesia para dores sociais profundas e, também, nos gestos de rebeldia de atletas que se recusaram a jogar o jogo que os governos queriam impor.
Um continente que aprendeu a se ver jogando
O futebol chegou à América Latina no fim do século XIX, trazido por comunidades britânicas ligadas ao comércio e às ferrovias. O curioso é que, justamente quando os países da região tentavam se afastar de suas antigas metrópoles europeias, adotaram como linguagem de identidade nacional um esporte de origem britânica.
Não demorou para que essa apropriação ganhasse contornos claramente políticos. Em 1930, o Uruguai sediou e venceu a primeira Copa do Mundo da história, no ano exato em que o país comemorava o centenário de sua fundação como Estado independente. Não foi coincidência: a organização do torneio era, para o governo uruguaio da época, uma prioridade que se encaixava perfeitamente na efeméride nacional. O título conquistado em campo selou o que o discurso oficial já queria dizer sobre o país.
Nas décadas seguintes, governos como o de Getúlio Vargas no Brasil e o de Juan Domingo Perón na Argentina perceberam o potencial do futebol como ferramenta de coesão popular. Vargas foi um dos primeiros a tentar estatizar o controle do esporte, acelerando sua profissionalização e enxergando nele um instrumento capaz de superar diferenças políticas internas. Perón, por sua vez, transformou o futebol em parte da engrenagem de propaganda do peronismo, associando o entusiasmo das arquibancadas à imagem de um país unido sob sua liderança.
Esse padrão — construir nação através da bola — se repetiu, com variações, em praticamente todos os grandes países da região. Na Argentina e no Uruguai, o futebol ajudou a consolidar estilos de jogo que viraram símbolos de identidade, como “a nossa” argentina ou a “garra charrua” uruguaia. No Brasil, o esporte se misturou à própria narrativa racial do país: o sucesso de jogadores negros como Pelé e Garrincha foi usado para sustentar a ideia de uma “democracia racial” brasileira.
Quando a ditadura entra em campo
Se o futebol serviu para construir identidades nacionais em tempos de democracia, ele se revelou ainda mais tentador para os regimes autoritários que dominaram boa parte da América Latina entre as décadas de 1960 e 1980. A lógica era simples e foi usada muito antes na Europa, pela Itália fascista de Mussolini e depois pela Alemanha nazista: um estádio lotado, cantando o hino nacional atrás de uma vitória esportiva, produz uma sensação de unidade que nenhum discurso político consegue igualar sozinho.
O caso mais estudado do continente é o da Copa do Mundo de 1978, disputada na Argentina sob o comando da junta militar liderada por Jorge Rafael Videla. Enquanto o país vivia uma das fases mais sangrentas de sua história — com milhares de desaparecidos e prisioneiros em centros clandestinos —, o regime investiu somas descomunais na organização do torneio. O general Omar Actis, responsável inicial pelo planejamento, defendia um evento mais modesto e acabou assassinado poucos meses após assumir o cargo, abrindo caminho para que o almirante Emilio Massera colocasse à frente da organização um aliado disposto a gastar sem limites. Estádios foram construídos ou reformados, um novo sistema de transmissão em cores foi implantado às pressas e uma agência de publicidade americana chegou a ser contratada secretamente para tentar melhorar a imagem do país no exterior.
No Brasil, o vínculo entre futebol e regime militar teve seu momento mais simbólico em 1970, quando a seleção conquistou o tricampeonato mundial no México justamente enquanto o país enfrentava um dos períodos mais duros da repressão. A vitória foi amplamente explorada pelo governo, que associou a força da seleção — e a figura de Pelé — à ideia de um Brasil “que ninguém segura”. Menos de um mês depois de ser coroado campeão do mundo, o regime intensificava a perseguição a opositores armados, num contraste que ilustra bem como o sucesso esportivo podia conviver, sem qualquer constrangimento público, com a violência de Estado.
No Chile, a relação entre futebol e ditadura assumiu um capítulo particularmente sombrio. Depois do golpe de 11 de setembro de 1973, o regime de Augusto Pinochet transformou o Estádio Nacional de Santiago — palco, uma década antes, da final da Copa do Mundo de 1962 — em um dos maiores centros de detenção e tortura do país. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas tenham passado por ali, entre vestiários convertidos em celas e arquibancadas usadas como área de espera para interrogatórios brutais. Ainda assim, semanas depois, o mesmo estádio recebeu uma partida oficial das eliminatórias para a Copa de 1974 contra a União Soviética. Os soviéticos se recusaram a jogar em um local “manchado pelo sangue de patriotas chilenos”, mas a FIFA manteve a decisão de classificar o Chile, exigindo apenas que os jogadores chilenos entrassem em campo e completassem os gestos de uma partida sem adversário. O gol simbólico marcado diante de um gramado vazio, poucos dias depois de o próprio estádio ter servido de prisão, resume talvez como nenhum outro episódio a distância moral entre o espetáculo esportivo e a realidade que ele tentava esconder.

As pequenas rebeliões dentro do grande jogo
Mas nem tudo, nesse período, foi submissão. O futebol latino-americano também guarda cenas de coragem individual que se tornaram símbolos de resistência.
Em 1974, o atacante chileno Carlos Caszely recusou-se, em cerimônia oficial transmitida ao vivo pela televisão, a apertar a mão de Pinochet. O gesto custou caro: sua mãe foi presa e torturada como retaliação. Anos depois, já em 1988, durante a campanha do plebiscito que decidiria a continuidade da ditadura, ela apareceu ao lado do filho em um programa eleitoral contando publicamente o que havia sofrido. O testemunho ajudou a mobilizar parte do eleitorado indeciso e contribuiu para a vitória do “Não” ao regime militar.
No Uruguai, um pequeno clube de bairro operário, o Defensor Sporting, tornou-se inesperado campeão nacional em 1976, quebrando um domínio de mais de quatro décadas dos gigantes Peñarol e Nacional. Comandado por um técnico comunista e formado majoritariamente por jogadores de esquerda, o time transformou seu estádio em um raro espaço de liberdade durante os anos mais duros da repressão. Um dos volantes da equipe fazia questão de comemorar cada gol erguendo o punho fechado, gesto associado à militância de esquerda, enquanto o vestiário ouvia, antes das partidas, canções de um artista exilado e proibido nos países vizinhos. Quatro anos depois, durante o chamado Mundialito de 1980 — uma minicopa organizada para celebrar os cinquenta anos do primeiro Mundial —, a mesma ditadura uruguaia via sua própria torcida gritar, em pleno Estádio Centenário, palavras de ordem contra o regime, poucas semanas depois de os militares terem sido surpreendidos pela derrota em um plebiscito constitucional que tentava perpetuá-los no poder.
Vale lembrar que esse padrão de resistência via futebol não é exclusividade latino-americana. Na Espanha franquista, o FC Barcelona se consolidou como símbolo de resistência ao regime e ao centralismo espanhol, absorvendo o papel de expressão política que a ditadura havia proibido em outros espaços da vida catalã. Décadas depois, na Alemanha, o pequeno St. Pauli se tornaria o primeiro clube a proibir oficialmente símbolos fascistas em seu estádio, virando referência para torcidas antifascistas em todo o mundo. E na África do Sul do apartheid, a exclusão das federações que aceitavam a segregação racial ajudou a isolar internacionalmente o regime até a formação de uma entidade de futebol sem discriminação, em 1991.
Cartolas que viraram presidentes
Se a instrumentalização do futebol pelas ditaduras é a face mais dramática dessa relação, há outra, mais sutil e persistente até hoje: a do dirigente esportivo que usa o clube como trampolim para a política eleitoral.
O exemplo mais lembrado no Chile é o de Sebastián Piñera chegou a se tornar o maior acionista individual da sociedade que controla o clube Colo-Colo — mais popular do país e historicamente identificado com as classes trabalhadoras. Antes de vencer a eleição presidencial, Piñera também comprou um canal de televisão, reunindo em suas mãos duas ferramentas clássicas de projeção pública. Curiosamente, pesquisas de opinião mostram que Piñera não obteve, entre os torcedores do Colo-Colo, uma vantagem de avaliação maior do que a que o próprio Pinochet já tinha décadas antes junto à mesma torcida — um indício de que o “efeito Piñera” talvez seja, na verdade, um efeito mais amplo associado à direita chilena desde a ditadura.

Na Argentina, foi o próprio Mauricio Macri quem seguiu o caminho inverso ao de muitos: em vez de comprar um clube, disputou e venceu a presidência do Boca Juniors em 1995, afastando-se das empresas da família para, segundo ele mesmo reconheceria depois, aprender na prática a lidar com a política e com a classe trabalhadora. A experiência serviu de treino para sua carreira posterior como prefeito de Buenos Aires e, mais tarde, presidente da Argentina.

No Uruguai, o atual quadro político também guarda um capítulo semelhante: Tabaré Vázquez presidiu o Club Atlético Progreso, equipe de um bairro operário de Montevidéu, justamente no ano em que o time conquistou seu único título nacional. No Paraguai, Horacio Cartes comandou o Club Libertad antes de chegar à presidência do país, cultivando ao longo do caminho uma relação privilegiada com a Conmebol, que tem sede justamente em território paraguaio.

O presente: eleições, camisas e torcidas organizadas nas ruas
Esse vínculo entre futebol e disputa eleitoral segue absolutamente vivo na América Latina de hoje, e a atual Copa do Mundo tem servido de pano de fundo para vários episódios recentes.
Na Colômbia, a segunda volta das eleições presidenciais de 2026 colocou frente a frente Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella em uma disputa que também se travou na simbologia das cores nacionais: o uso da camisa amarela da seleção colombiana em atos de campanha por ambos os lados gerou acusações cruzadas de apropriação indevida de um símbolo que deveria ser de todos os colombianos. Não é a primeira vez que essa camisa se torna terreno político disputado no país: em ciclos eleitorais recentes, ela já havia sido associada com força a setores de extrema direita, um fenômeno que analistas latino-americanos comparam ao que aconteceu com a camisa da seleção brasileira depois de 2014, quando passou a ser vista por muitos torcedores como um símbolo identificado com um determinado campo político, e não mais como patrimônio unânime da torcida.
No Chile, o próprio ano de 2024 trouxe um bom retrato de como futebol e política municipal se entrelaçam no dia a dia da democracia latino-americana. Em Valparaíso, dois dos principais candidatos a prefeito tinham ligação direta com o Santiago Wanderers — um deles resistido pelos torcedores por sua gestão administrativa do clube, e outra apoiada publicamente por antigas glórias da equipe. Na capital, um prefeito reeleito prometeu em campanha ceder terreno de sua comuna para a construção de um novo estádio do Club Universidad de Chile, um dos times mais tradicionais do país. As duas grandes torcidas organizadas chilenas, a Garra Blanca do Colo-Colo e Los de Abajo da Universidad de Chile, seguem sendo, mais do que meros grupos de apoio esportivo, atores capazes de se posicionar em debates políticos e sociais que vão muito além do resultado de uma partida.
Também no Chile, o crescimento do futebol feminino se conectou nos últimos anos a pautas mais amplas de igualdade de gênero. Jogadoras da liga feminina protagonizaram protestos por melhores condições salariais e de trabalho, e atletas como a goleira Christiane Endler passaram a ser vistas não apenas como referências esportivas, mas como vozes públicas em temas como educação sexual, aborto e violência de gênero — sinal de que a politização do futebol na região não se limita mais ao universo masculino que historicamente concentrou as grandes disputas de poder.
Há ainda outra dimensão, menos espetacular mas igualmente política, na relação entre futebol e América Latina: a econômica. A liberalização do mercado europeu de transferências depois da Lei Bosman, em 1995, somada ao crescimento vertiginoso dos direitos de televisão, transformou a região em uma grande exportadora de talento — um papel que lembra, e não por acaso, o histórico papel latino-americano como exportador de matérias-primas para as economias centrais.
A mudança de sede da final da Copa Libertadores de 2018 entre River Plate e Boca Juniors, transferida da Argentina para o Santiago Bernabéu, em Madri, por questões de segurança, tornou-se o emblema desse deslocamento: a decisão final sobre o clássico mais importante do futebol sul-americano acabou sendo tomada, literalmente, na casa dos antigos colonizadores.
O rádio, a televisão e a construção de uma torcida nacional
Antes das redes sociais amplificarem cada lance e cada polêmica, foi o rádio quem primeiro transformou o futebol latino-americano em experiência coletiva simultânea. No Brasil das primeiras décadas do século XX, um país continental e fragmentado, apenas quem estava fisicamente no estádio vivia o jogo em tempo real — o restante da população dependia dos jornais do dia seguinte. A chegada do rádio mudou tudo: a voz carregada de emoção dos locutores esportivos permitiu que um operário no subúrbio do Rio de Janeiro e um comerciante do interior do país sentissem, ao mesmo tempo, a mesma explosão de alegria diante de um gol.
Esse poder de criar uma espécie de comunidade imaginada em tempo real não passou despercebido pelos governos. Em 1964, apenas dezoito dias depois do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart, a rádio oficial brasileira transmitia, no meio de discursos que tentavam legitimar o novo regime, a cobertura completa de uma partida entre Flamengo e Santos — como se a vida seguisse seu curso normal enquanto liberdades individuais eram suprimidas. O futebol, nesse caso, funcionou quase como cortina de fumaça sonora: uma forma de sugerir normalidade justamente no momento em que ela desaparecia.
O que a história recente mostra, com bastante clareza, é que o futebol latino-americano continua sendo, ao mesmo tempo, palco de distração e de despertar político — um jogo de duplo sentido que, apesar de todas as tentativas de controle, ninguém consegue vencer sozinho.
