Máquina de silenciamento: Guerra de Milei contra cantora Lali Espósito chega aos meios públicos argentinos por meio de censura

Em julho de 2026, uma onda de denúncias independentes revelou que a estrutura de comunicação estatal da Argentina adotou uma prática de veto informal e não documentado contra a cantora Lali Espósito. Os trabalhadores da Rádio Nacional e profissionais da TV Pública vieram a público denunciar que a artista — amplamente associada à visibilidade dos feminismos e das dissidências sexuais — foi completamente banida das programações e da linha editorial dos canais oficiais do Estado.

O texto dos trabalhadores da Radio Nacional responsabiliza diretamente o diretor da emissora, Fernando Subirats, ao lado dos gerentes jornalístico e artístico, Nicolás Yacoy e Fernanda Carbonell. Eles ainda mencionam que a eliminação das direções das emissoras provinciais (uma rede federal de 57 estações que vai da Antártida até La Quiaca) sufocou a produção local. Agora, qualquer conteúdo ou entrevista exige a autorização prévia de uma “coordenadora jornalística”, cargo que afirmam ser exercido informalmente por Lula Lupo.

Paralelamente, o jornalista Lucca Melpi revelou que a situação na TV Pública é ainda mais restritiva. Durante sua participação no programa de streaming No Damos Abasto, Melpi (que trabalhou no canal estatal) afirmou categoricamente que Lali Espósito está totalmente proibida na emissora. Segundo ele, o veto é tão severo que a cantora não pode sequer ser mencionada ao vivo no ar, confirmando relatos idênticos de outros funcionários do canal.

Episódios semelhantes já haviam sido relatados antes. Em 2024, o cineasta Goyo Anchou contou que, ao tentar programar um ciclo de filmes em um centro cultural dependente do governo nacional, foi avisado em um código não escrito que vetava, entre outros conteúdos, qualquer material que incluísse Lali Espósito. Segundo ele, tratava-se de uma diretriz oral, transmitida de chefe a funcionário, sem nenhum documento que a formalizasse.

A guerra declarada de Milei contra Lali

Para entender por que uma das maiores artistas pop da Argentina virou alvo prioritário nos meios públicos, é preciso retroceder ao conflito público e direto entre Lali Espósito e o presidente Javier Milei, que se arrasta desde agosto de 2023.

Tudo começou quando a força política La Libertad Avanza venceu as eleições primárias (PASO) e Lali publicou nas redes sociais a frase: “Que perigoso. Que triste”. A partir dali, a máquina governamental iniciou uma ofensiva contra a cantora.

Já no poder, Milei passou a se referir a Lali publicamente com o apelido pejorativo “Lali Depósito”, a acusando de receber cachês em shows organizados com dinheiro público. Em diversas ocasiões, o presidente a chamou também de “parasita” e de “instrumento de propaganda política”, acusações que a cantora rebateu tanto em entrevistas quanto em canções, caso de “Fanático”, faixa de seu álbum No vayas a atender cuando el demonio llama, composta como resposta indireta aos ataques. Lali chegou a afirmar que, por um tempo, foi alvo do que descreveu como o “ódio” do próprio mandatário.

O embate se estendeu por atos públicos e disputas nas redes: Lali participou de manifestações críticas ao governo, como a Marcha do Orgulho Antifascista, e o próprio Milei voltou a mencioná-la em entrevistas e transmissões de streaming ao longo de 2024 e 2025. É nesse contexto de hostilidade declarada entre a artista e o chefe de Estado que as denúncias de veto a seu conteúdo na Rádio Nacional e na TV Pública ganham um sentido mais direto: para os denunciantes, o silenciamento dentro dos meios estatais seria uma extensão, pela via administrativa, de uma disputa que até então se travava apenas no campo discursivo.

Em seus shows, o público de Lali se aquece com o cântico “Quem não pula, votou no Milei”, fazendo com que a grande maioria comece a saltar.

Leia mais sobre o conflito entre Lali e Javier Milei.

Um padrão recorrente: o “Código Não Escrito” e o sucateamento dos meios de comunicação públicos

O que une as denúncias de 2026 a episódios anteriores é o modus operandi da censura: a ordem verbal. Não existem e-mails, resoluções ou decretos assinados proibindo Lali Espósito; as diretrizes são transmitidas oralmente de chefes para funcionários.

O Antecedente de 2024

Esse padrão já havia sido alertado em 2024 pelo cineasta Goyo Anchou. Ao tentar programar um ciclo de filmes em um centro cultural dependente do governo nacional, ele foi barrado por um “código não escrito” que proibia qualquer material que incluísse a imagem ou o nome de Lali Espósito. Como os episódios se baseiam apenas em testemunhos (muitos mantidos em sigilo por medo de demissão), torna-se difícil uma denúncia judicial formal por falta de provas físicas.

Crise Salarial e Asfixia Econômica

O sindicato dos trabalhadores da Rádio Nacional argumenta que o critério ideológico caminha lado a lado com o desmonte financeiro dos veículos públicos. No mesmo manifesto em que denunciam o veto à artista, os funcionários expuseram a precariedade do setor sob a atual gestão:

  • Salários congelados desde 2024.
  • Piso salarial da categoria em torno de 474 mil pesos, valor que os coloca formalmente abaixo da linha da indigência.

A centralização e o silenciamento de figuras como Lali Espósito são vistos pelos trabalhadores como o ápice de um projeto que esvazia o papel democrático e a pluralidade de vozes dos meios de comunicação do Estado.u uma sequência de ataques por parte de apoiadores do então candidato — e, depois, do próprio presidente.

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