Entre vinis e cúmbias: Em entrevista, Cecyza fala sobre a evolução da cena latino-americana paulistana

No dia 4 de julho, durante a segunda edição do Festival de Cúmbia Sol y Sombra, em São Paulo, o Exclamación conversou com a DJ, pesquisadora e colecionadora de discos Cecyza. Radicada na capital paulista desde 2009, ela acompanha de perto a expansão da música latino-americana na cidade e compartilhou sua visão sobre a evolução do público, a cultura do vinil e o fortalecimento da cena da cúmbia no Brasil.

Isabela Guiaro: Você está em São Paulo desde 2009 e pesquisa música latina há mais de uma década. Como você avalia a evolução do público paulistano em relação à cúmbia e à música tropical desde então?

Cecyza: No começo havia muito pouca oferta desse tipo de música em São Paulo. Existiam algumas festas de música latina, mas eram eventos bem underground. Lembro de frequentar lugares como o Prato do Dia e a Gafieira Cúmbia, onde normalmente havia uma mistura entre música brasileira e latino-americana.

Muitas vezes eu chegava esperando ouvir um repertório específico e encontrava outra proposta. Hoje vejo uma mudança muito grande. O público paulistano passou a consumir muito mais música latina, principalmente a produção mais contemporânea.

A minha pesquisa continua voltada para um universo mais underground, explorando gravações dos anos 1960, 70, 80, 90 e 2000. Mas, sem dúvida, o interesse pela música latino-americana cresceu bastante nos últimos anos.

Isabela Guiaro: Você tem um enorme acervo de discos de vinil e transita entre a cúmbia, o merengue, a salsa e até o synth-pop dos anos 1980. Como você monta um set para uma festa como essa?

Cecyza: Depende muito do evento e do público.

É a primeira vez que toco neste espaço, embora tenha participado da edição anterior do festival. Pelo que percebo, aqui há muitos migrantes, então também gosto de tocar músicas que fizeram parte da minha história e que marcaram muita gente.

Hoje trouxe um repertório bastante variado: cúmbias peruanas dos anos 70, merengue, salsa, rap e também cúmbias mais modernas. Agora é sentir como o público responde.

Isabela Guiaro: Você já levou seu som para vários países. O que a noite paulistana tem de único em comparação com outros lugares onde você já tocou?

Cecyza: São Paulo é uma cidade que nunca para. Aqui existe festa praticamente todos os dias da semana.

Tem forró na segunda, cúmbia na terça e, a partir de quarta-feira, já é fácil encontrar eventos de diferentes estilos. Em muitas cidades isso não acontece. A programação normalmente começa só na quinta-feira.

Outro diferencial é a estrutura para DJs que tocam vinil. Em São Paulo existem muitos espaços preparados para isso. Em Buenos Aires e Lima, por exemplo, apesar de haver uma forte cultura de colecionismo de discos, ainda são poucos os lugares equipados para receber apresentações exclusivamente em vinil.

Isabela Guiaro: Na sua experiência, qual subgênero da cúmbia costuma conquistar mais rapidamente o público paulistano?

Cecyza: A cúmbia reggae, ou cúmbia rebaixada, costuma ter uma resposta muito rápida porque tem uma sonoridade mais próxima do reggaeton.

Quem ainda não conhece a cúmbia acaba se identificando mais facilmente com esse estilo justamente por causa dessa aproximação com ritmos que já são bastante populares.

Isabela Guiaro: Para finalizar, o que representa chegar à segunda edição de um festival dedicado à cúmbia em São Paulo? Quais são as suas expectativas para o futuro dessa cena?

Cecyza: Acho maravilhoso existirem espaços como este, dedicados exclusivamente à cúmbia.

O reggaeton já possui muitas festas e um público consolidado, mas um festival voltado especificamente para a cúmbia ainda é algo raro. Além de fortalecer a cena, ele permite que as pessoas descubram novos artistas.

Eu mesma conheci várias das bandas que se apresentam hoje por meio do Festival Sol y Sombra e das pessoas que fazem parte desse movimento. Espero que essa iniciativa continue crescendo e fortalecendo cada vez mais a cúmbia em São Paulo.

Leia também sobre o 2º Festival de Cumbia a Sol y Sombra e entrevistas com outros artistas.

Foto por @lumachiararuiz

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