Entrevista com Bazuros: do Bom Retiro para a cena latino-americana da cúmbia

No dia 4 de julho, durante a segunda edição do Festival de Cúmbia Sol y Sombra, em São Paulo, o Exclamación encontrou o Bazuros para conversar sobre o crescimento da cúmbia na capital paulista, a construção da identidade da banda e os desafios de fazer música independente no Brasil.

Nascido no Bom Retiro, o grupo se tornou uma das principais referências da cúmbia feita em São Paulo, misturando influências latino-americanas com a diversidade cultural da cidade. Na conversa, os integrantes falaram sobre o significado do álbum Mucha Lucha, Poca Plata, o surgimento do portunhol em suas composições e o momento vivido pela cena paulistana.

Isabela Guiaro: O primeiro álbum de vocês, Mucha Lucha, Poca Plata, resume perfeitamente o corre da música independente na América Latina. Como a realidade dos integrantes molda essa urgência, essa fúria e a cúmbia do Bazuros?

Bazuros: A banda é formada por trabalhadores de diferentes áreas, então essa realidade está presente em tudo o que fazemos. Mucha Lucha, Poca Plata surgiu de uma frase dita pelo Leão durante uma das muitas viagens que fizemos para tocar sem estrutura e sem receber cachê. Ela acabou sintetizando muito bem a nossa vivência e a realidade de quem faz música independente.

Isabela Guiaro: A banda nasceu no Bom Retiro, um bairro historicamente marcado pela migração e pela mistura que representam São Paulo. Quanto a geografia e o caos da cidade influenciam o som de vocês?

Bazuros: Basta olhar para a banda para perceber essa pluralidade. Somos pessoas de diferentes origens, com referências musicais e experiências de vida variadas. Isso é muito paulistano.

Essa diversidade constrói a nossa identidade. Não buscamos uma estética única ou uma imagem padronizada. Somos uma banda fluida, que faz cúmbia em uma cidade cheia de informações, contrastes e influências, e isso aparece naturalmente no nosso som.

Isabela Guiaro: No começo, vocês usavam teclados Casio para fazer as linhas melódicas e hoje se arriscam no portunhol também. Como foi o desenvolvimento dessa linguagem própria para cantar a realidade brasileira dentro dessa estética latino-americana?

Bazuros: No início, tínhamos bastante receio de compor em espanhol. Queríamos encontrar um jeito próprio de fazer cúmbia, sem parecer uma cópia de outras cenas.

Conforme fomos escrevendo mais músicas, construímos uma identidade musical mais sólida. Com teclado, guitarra, sopros e outros instrumentos assumindo diferentes funções melódicas, fomos descobrindo nossa própria sonoridade. Esse processo também nos deu segurança para experimentar o portunhol, que hoje faz parte da linguagem do Bazuros.

Isabela Guiaro: O Festival Sol y Sombra chega à segunda edição celebrando o crescimento dessa cena. Nós conversamos no ano passado e queria saber: o que mudou desde então? E o que ainda falta para a cúmbia paulistana dominar de vez os palcos dos grandes festivais?

Bazuros: Quando conversamos pela última vez, estávamos tocando no Carioca Club, em um festival com um público muito grande. De lá para cá, percebemos que a cena de São Paulo continua se abrindo cada vez mais para a cúmbia.

É um gênero que já ocupa um espaço enorme em vários países da América Latina, e acreditamos que esse crescimento também está acontecendo aqui. Na verdade, não sentimos que falte alguma coisa específica. Estamos construindo esse caminho aos poucos.

Hoje, as pessoas já reconhecem a cúmbia do Bazuros como um movimento paulistano conectado ao restante da América Latina. É uma questão de tempo para que a cúmbia ocupe um espaço ainda maior no Brasil, especialmente em São Paulo.

Isabela Guiaro: Muito obrigada! Gostariam de deixar uma mensagem final?

Bazuros: Nós que agradecemos, Exclamación. É uma alegria participar pela segunda vez do Festival Sol y Sombra, dividindo o palco com artistas de diferentes países e fortalecendo a cena da cúmbia em São Paulo.

É muito bonito acompanhar esse movimento crescendo a cada ano. Esperamos que ele continue se expandindo e levando cada vez mais gente para conhecer a cúmbia. Muito obrigado!

Leia também sobre o 2º Festival de Cumbia a Sol y Sombra e entrevistas com outros artistas.

Fotos por @lumachiararuiz

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