A cumbia transformou o asfalto paulistano em pista tropical no 2º Festival Cumbia a Sol y Sombra

A cúmbia, em suas mais diversas mutações — da psicodelia peruana dos anos 1970 ao peso contracultural do punk —, encontrou na capital paulista um laboratório perfeito de reinvenção. Muito além de um exotismo passageiro, o gênero fincou raízes na cidade por meio de um ecossistema independente que conecta migrantes, pesquisadores e a juventude alternativa.

Apesar do gênero já estar presente em outras regiões do país, São Paulo está construindo agora o seu próprio lugar dentro dessa história, não como origem, mas como ponto de encontro. É esse movimento que o Festival Cumbia a Sol y Sombra, em sua segunda edição, ajuda a colocar em evidência, reunindo bandas e DJs que fazem da cúmbia uma linguagem contemporânea e genuinamente paulistana.

Para entender como essa engrenagem funciona e por que o ritmo se tornou a trilha sonora oficial da resistência tropical paulistana, conversamos com três nomes que estavam lá tocando e pensando esse movimento — o cantor Sebastián Piracés (ex-Francisco, el Hombre, hoje em carreira solo), a banda Bazuros e a DJ e pesquisadora Cecyza.

Uma cidade-laboratório

Para Sebastián Piracés, chileno-mexicano que passou quase quinze anos à frente da Francisco, el Hombre antes de embarcar num projeto solo, São Paulo ocupa um lugar único no mapa latino-americano. “São Paulo é um universo. É a maior cidade da América do Sul e, por conta disso, recebe pessoas de muitos países e de muitas regiões do Brasil”, diz. “É uma cidade de encontro e de trânsito de pessoas. Isso possibilita um ambiente de troca como poucas cidades em toda a América Latina conseguem oferecer.”

Segundo ele, não é à toa que artistas de outros países latino-americanos escolhem ficar mais tempo na cidade além dos shows: “para entender como funciona essa cidade tão maluca, tão caótica e tão aleatória, mas que consegue criar uma identidade muito própria e também impulsionar artistas não apenas do Brasil, mas de toda a América Latina.”

A banda Bazuros, formada no Bom Retiro — bairro historicamente marcado pela imigração —, reforça essa ideia de pluralidade como marca registrada da cena paulistana. “É uma coisa bem paulistana: gente de vários lugares, com influências diferentes, tanto musicais quanto de vivência”, conta o grupo. “Não somos uma banda que tem uma unidade visual, que se apresenta todo mundo com a mesma camisa florida. É uma coisa bem fluida. A gente consegue caminhar bem e fazer cúmbia numa cidade cheia de informação como São Paulo.”

Do underground ao mainstream (quase)

Cecyza, peruana, DJ e pesquisadora de música latina há mais de uma década, vive em São Paulo desde 2009 e viu essa transformação de perto. Ela lembra dos primeiros anos, quando as festas de música latina eram raras e escondidas. “No começo realmente havia pouca oferta desse tipo de música na cidade de São Paulo”, relembra, citando espaços como o Prato do Dia e a festa Gafieira Cúmbia como marcos iniciais dessa cena ainda underground.

Hoje o cenário mudou, mas em uma direção específica: “o público paulistano tomou gosto pela música latina, mas principalmente pelo lado mais moderno”, observa. Enquanto o reggaeton já tem festas consolidadas, seu trabalho de garimpo — vinis de cúmbia peruana dos anos 70, merengue, salsa — segue nichado. Por isso, para ela, um festival dedicado exclusivamente à cúmbia é praticamente inédito: “Para o reggaeton já existem muitas festas e um público consolidado. Mas um festival voltado especificamente para a cúmbia eu ainda não tinha visto.”

Sobre o que faz o público paulistano vibrar mais rápido, Cecyza aponta um subgênero específico: “A cúmbia reggae, ou a cúmbia rebaixada, que tem uma conexão maior com o reggaeton […] é esse tipo de cúmbia que conquista mais rapidamente quem ainda não conhece o gênero, justamente porque dialoga com sons mais populares internacionalmente.”

Punk, resistência e ancestralidade

Piracés também faz uma leitura do encontro entre cúmbia e punk rock, dois universos que moldaram sua trajetória musical. “A cúmbia é um ritmo muito ancestral, presente há muitas gerações”, explica. “A junção entre cúmbia e punk acontece porque são culturas que, diante do status quo e da hegemonia cultural do mainstream, se apresentam como culturas de resistência.”

Essa mesma lógica de resistência aparece quando ele fala do legado da Francisco, el Hombre — banda que começou tocando em praças, “passando o chapéu”, e conseguiu se sustentar de forma independente por quase quinze anos. “Isso é uma conquista muito subestimada, porque é muito difícil viver de música”, afirma. Sobre encarar agora uma carreira solo depois de tantos anos em coletivo, ele resume: “amo estar em coletividade, porque a gente não constrói as coisas sozinho […] A coletividade é a melhor construção que a gente pode se propor a fazer.”

O futuro da cúmbia no Brasil

Questionado sobre a saúde da cena independente latino-americana no Brasil, Piracés não poupa complexidade na resposta. Para ele, a desarticulação atual tem raízes concretas: “consequência da desestruturação das políticas culturais no final da década de 2010, seguida por um período de desgoverno e, depois, por uma pandemia.” Ainda assim, ele enxerga um movimento de reorganização em curso — e cita o próprio Festival Sol y Sombra como parte dessa resposta coletiva: “Estamos aqui no Festival Sol e Sombra, que é justamente uma dessas iniciativas para reunir artistas e fortalecer uma cena.” O músico também reafirma o caráter genuinamente brasileiro do ritmo, muitas vezes visto como importação: “A cúmbia é latino-americana. A cúmbia também é brasileira. Existe cúmbia no Norte, no Pará, no Amazonas, existe cúmbia no Sul, nas regiões de fronteira.” Para ele, a resiliência histórica do gênero garante sua continuidade: “se resistiu durante tantas gerações, é porque continuará resistindo.”

Já Cecyza celebra o próprio fato de o festival existir como sinal de amadurecimento da cena: “Acho maravilhoso existirem espaços como este, dedicados especialmente à cúmbia […] Acho muito importante porque também cria oportunidades para as pessoas conhecerem novos artistas.” Ela mesma, diz, descobriu várias das bandas que tocaram naquele dia através do próprio Festival Sol e Sombra.

Bazuros, que também já havia participado da primeira edição do festival, nota o crescimento da cena de um ano para o outro. Lembrando de quando tocaram no Carioca Club, o grupo avalia: “Acho que a cena de São Paulo está se abrindo cada vez mais para a cúmbia […] Estamos no caminho para crescer cada vez mais. As pessoas já reconhecem a cúmbia do Bazuros como um movimento paulistano conectado ao que está acontecendo na América Latina.”

Na sua segunda edição, o Sol y Sombra confirma o que essas três vozes descrevem de ângulos diferentes: São Paulo virou um porto de trânsito latino-americano, onde punk, cúmbia ancestral e experimentação eletrônica dividem o mesmo palco — e a mesma noite que, como diz Cecyza, “nunca para”.

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