Conflito armado na Colômbia, parte 2: guerrilhas, paramilitarismo e narcotráfico (1958-1990)

Todos os acontecimentos anteriores foram marcados por alto índice de violência, perseguição política aos opositores do governo e criação de grupos para combater as faltas de liberdade. Juntos, esses movimentos geraram o cenário do que viria a ser o atual conflito armado na Colômbia.

Entenda a cronologia de 1958 a 1990.

O início do atual conflito armado na Colômbia

Apesar de marcantes, os acontecimentos prévios a 1958 são apenas um contexto histórico da violência colombiana. O conflito armado na Colômbia que conhecemos — que envolve guerrilhas, paramilitarismo e narcotráfico — surgiu como consequência das ações anteriores.

Inclusive, é importante lembrar que esse histórico violento também contribuiu para a criação da arte colombiana.

Começado na década de 1960, é preciso pontuar que houve um grande impacto da Revolução Cubana (1959) e da Guerra Fria. Por conta disso, e com medo de que mais países latino-americanos fizessem uma revolução socialista, os Estados Unidos passaram a atuar de forma mais agressiva na região.

Frente Nacional

Os liberais e conservadores entraram em acordo de bipartidarismo e alternância de poder entre eles, pacto conhecido como Frente Nacional. A ideia é que nos próximos 16 anos, ou seja, quatro presidências, houvesse essa distribuição de cargos de forma equitativa.

  • Governo Alberto Lleras Camargo (1958-1962)

Então, em 1958, com a vitória do liberal, Alberto Lleras Camargo, foi começada a transição para a democracia. A população se via um pouco mais contente com o acordo, já que isso resolveria diversos conflitos internos causados pela disputa de poder.

Porém, o bipartidarismo deixava de fora outros grupos políticos. Desta forma, se formaram no interior do país algumas chamadas Repúblicas Independentes, onde não se reconhecia a soberania do Estado e o exército não podia entrar.

Nesse primeiro governo, foram estabelecidas algumas medidas de reabilitação do país. Entretanto, com a morte do líder comunista Jacobo Prías Alape por parte dos bandoleros e a mando de uma pessoa ligada ao governo, muitos guerrilheiros já desmobilizados voltaram às atividades. 

  • Governo Guilleromo León Valencia (1962-1968)

No governo seguinte, do conservador Guillermo León Valencia, houve uma tentativa de instaurar a paz no país. Com isso, três dos principais líderes dos bandoleros foram mortos. 

Além disso, começou-se a dissolver as Repúblicas Independentes. Contra a de Marquetalia, localizada em Gaitania, foi acionada a Operação Soberania em maio de 1964. Por meio dessa ação, mais de mil soldados tentaram adentrar a zona e prender os líderes das FARC Manuel Marulanda “Tirofijo”, Ciro Trujillo Castaño e Jacobo Arenas.

Eles conseguiram fugir e formaram o Programa Agrário de Guerrilheiros, que foi a principal base para a criação das Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC), que recebeu esse nome e foi regulamentada em 1966. Já a República de Marquetalia foi desintegrada no final de 1965.

Quando o grupo de jovens comandados pelo guerrilheiro Fabio Vásquez Castaño voltam do treinamento militar em Cuba, fundam o Ejército de Liberación Nacional (ELN). O grupo se tornou ainda mais popular com a difusão feita pelo sacerdote Camilo Torres Restrepo, que defendia a união do cristianismo com o marxismo.

Em resposta ao crescimento das guerrilhas, o General estadunidense William P. Yarborough recomenda ao governo a criação de grupos paramilitares. Por meio do decreto 3398 de 1965, foi autorizado o treinamento militar para aqueles que desejassem se envolver com a luta anticomunista nas zonas de conflito.

  • Governo Carlos Lleras Restrepo (1966-1970)

O liberal Carlos Lleras Restrepo chegou com a proposta de realizar a Reforma Agrária no país, também promovendo maior participação social dos moradores e trabalhadores rurais do país. Porém, a política não foi bem-sucedida e, até hoje, a Colômbia sofre com problemas relacionados a terras.

Sofreu enorme pressão popular, chegando a fechar universidades devido a protestos. Enrijeceu o exército e criou cartilhas anti-guerrilhas, também tornando em lei o decreto que havia sido aprovado para a instauração do paramilitarismo, em 1968.

O Ejército Popular de Liberación (EPL) tentou se consolidar, mas com a morte em conflito de seus dois líderes, Pedro Hernando Vásquez Rendón e Pedro León Arboleda, o grupo logo desapareceu. Também nessa época, o exército eliminou diversos membros das FARC, incluindo Ciro Trujillo Castaño.

  • Governo Misael Pastrana Borrero (1970-1974)

Nessa última fase da Frente Nacional colombiana, Misael Pastrana Borrero enfrentou as guerrilhas, principalmente a ELN. Por meio da Operação Anorí, infiltrou militares, cercou e atacou o grupo, conseguindo abater e prender a maioria deles. Fábio Vázquez fugiu para Cuba e o ELN permaneceu desmantelado por cerca de 10 anos.

Enquanto isso, surgiu um novo grupo: o M-19. Vindo de universitários que contestavam as eleições presidenciais ocorridas em 19 de abril de 1970, foi a primeira guerrilha urbana, já que as demais circulavam majoritariamente em zonas rurais.

O primeiro grande ato da M-19 ficou marcado para sempre na história da Colômbia: em 17 de janeiro de 1974, o grupo entrou na Casa-Museo Quinta de Bolívar, em Bogotá, e roubou a espada de Simón de Bolívar.

Bonanza Marimbera e o Narcotráfico

A chamada bonança marimbeira foi a etapa da ascensão das plantações de maconha na costa caribenha do país. Estima-se que 80% das famílias das regiões La Guajira e Serra Nevada de Santa Marta cultivavam maconha, que serviria, principalmente, para a exportação para Nova York e Miami.

Por conta do narcotráfico, houve um enriquecimento econômico por conta da massiva entrada de dólares. Nessa época, o Banco da República permitia a troca de notas sem pedir uma procedência legal do dinheiro, permitindo a lavagem de dinheiro. Essa prática foi chamada de “janela sinistra”, legalizada pelo governo de  Alfonso López Michelsen (1974-1978).

Os Estados Unidos chegaram a começar uma ação contra as plantações, descobrindo até um campo de 40 mil hectares. Porém, o declínio em meados dos anos 80 ocorreu não pelos conflitos, mas sim pela substituição pela cocaína.

Antigos contrabandistas entraram no negócio da cocaína, beneficiando-se da grande diáspora no exterior causada pela violência para estabelecer redes de contato. Pablo Escobar, Gustavo Gaviria, Gonzalo Rodríguez Gacha e os irmãos Ochoa foram alguns dos principais nomes da época.

Com a grande ausência do Estado no sul do país, foram criadas estradas clandestinas e laboratórios de coca. Logo, começaram a surgir enormes plantações, reduzindo a necessidade de importar as folhas que vinham da Bolívia e do Peru.

Com isso, foram criados os cartéis de Medellín, Cali, Amazonas e da Costa.

Reorganização das guerrilhas, repressão do exército e remodelação do paramilitarismo

Alfonso López chegou a tentar negociar com guerrilheiros de diversos grupos, prometendo anistia, mas fracassou. Aliás, muito pelo contrário, essas mobilizações começaram a se fortalecer ainda mais. Foi criada uma nova organização, a Autodefensa Obrera (ADO) em 1976.

Com o declínio da economia e do poder aquisitivo de trabalhadores da zona rural, o grupo M-19 organizou um atentado e assassinou José Raquel Mercado, dirigente da Confederação de Trabalhadores da Colômbia (CTC), por ter “traído” a classe popular, em abril de 1976.

Por outro lado, 14 de setembro de 1977 ocorre uma greve geral, considerada até hoje a principal mobilização cívica do país. Com medo de uma possível revolução, o presidente enviou as forças armadas, causando 33 mortes e 3 mil feridos. Com isso, as guerrilhas se fortaleceram em zonas urbanas, conseguindo melhorar sua imagem frente à população.

Quando o liberal Julio César Turbay Ayala ganha a presidência (1978-1982) em meio a uma abstenção de 45% dos eleitores, a crise se agrava. A violência e repressão segue crescente, assim como a popularidade dos guerrilheiros e a violação dos direitos humanos. Entre elas, o Estatuto de Segurança, que limitava protestos e mobilizações, além de aumentar prisões por insurgências. 

Entre as principais ações das guerrilhas nessa época estão:

  • ADO: assassinato do ex ministro Rafael Pardo Buelvas;
  • M-19: roubo de 5 mil armas de uma unidade do Exército e sequestro de diplomatas na embaixada dominicana;
  • FARC: expansão de seis para 27 frentes e ataque a uma unidade das Forças Armadas;
  • ELN e EPL: reorganização e reativação de suas frentes;

Em 1981, o M-19 sequestrou Martha Nieves Ochoa, irmã dos participantes do Cartel de Medellín. Em resposta a isso, foi criado o grupo Muerte A Secuestradores (MAS), que foi o ponto de partida para a reformulação do paramilitarismo.

Agora, com dinheiro do narcotráfico e armamento providenciado pelos cartéis, foram mortas mais de 200 pessoas até a liberação da sequestrada, em 1982. Nesse mesmo ano, foi formada a ACDEGAM (Asociación Campesina de Ganaderos y Agricultores del Magdalena Medio), que fazia patrulhas para caçar atividades insurgentes.

Já a Alianza Americana Anticomunista (AAA), um grupo formado por agentes do exército, foi protagonista da guerra suja dentro da Colômbia. Essa aliança atuou nas Covas de Sacramonte, local conhecido como centro de torturas e experimentos, além de serem importantes para a Operação Condor, dos EUA, que buscava realizar ações anticomunistas na América Latina.

Por uma disputa e desentendimentos das FARC com os narcotraficantes, Gonzalo Rodríguez Gacha, do cartel de Medellín, entrou na guerra contra as guerrilhas e passou a financiar o paramilitarismo.

Tentativa de diálogo com a guerrilha

Belisario Betancur (1982-1986) foi o primeiro presidente a reconhecer o caráter ideológico e político que vinha por trás do guerrilheiro. Durante esse governo, foi aprovada a Lei da Anistia para tentar desmobilizar a insurgência. De fato, até 1984 conseguiram alguns acordos de trégua com as FARC, EPL e ADO. 

Por outro lado, muitos líderes revolucionários não aceitavam as conversas, enquanto estudantes universitários seguiam protestando contra a repressão. Apesar da trégua, houve perseguição de guerrilheiros anistiados, chegando a haver atentados. Por outro lado, as FARC conseguiram dialogar com o partido Unión Patriótica.

O M-19 rompeu a trégua em 20 de junho de 1985 e, a partir de então, a violência se intensificou. Alguns meses depois, organizaram a tomada do Palácio de Justiça, mantendo mais de 300 reféns. A operação teve confronto direto com o exército e, depois de 28 horas, deixou um saldo de 94 mortos.

Nessa mesma época, o EPL e as FARC também romperam os acordos de paz. Até o ano seguinte, vários dirigentes de ambos os grupos foram assassinados.

Os cartéis de drogas e a política

Em meados dos anos 80, os grandes barões da coca se tornam cada vez mais influentes. Nesse auge do tráfico para os Estados Unidos, os narcos milionários usavam seus dólares para construir luxuosas fazendas e empresas fantasma para lavar dinheiro. 

Houve a tentativa da legalização das drogas para, então, criar uma reforma tributária que permitisse que esses milhões pudessem ser direcionados ao governo. 

Não houve sucesso, mas as frentes Movimiento Latino Nacional e o Civismo en Marcha buscavam aumentar a participação política dos maiores nomes do tráfico. É nesse contexto que Pablo Escobar participou da Câmara de Representantes. Porém, durou pouco tempo, pois os membros mais tradicionais não aceitavam sua presença.

O governo, então, criou o Tratado de Extradición com os Estados Unidos e ampliou o Estado de Sítio.. Esse foi o primeiro grande marco da guerra contra o narcotráfico. Com isso, as grandes cabeças dos cartéis tentaram fugir para o Panamá, enquanto seus capangas seguiram causando o terror no país. 

Desta forma, a violência chegou de forma alarmante em centros urbanos da Colômbia, especialmente em áreas periféricas, principalmente com o crescimento dos assassinos de aluguel. A partir de 1988, as taxas de homicídio do país aumentaram drasticamente, chegando a 20 mil por ano. Em resposta a essa situação, a repressão policial também aumentou.

É importante mencionar, também, que os dirigentes do cartel de Cali conseguiram infiltrar alguns membros na política colombiana.

Acordos de paz, perseguição contra a esquerda e guerra contra narcotraficantes

Quando Virgilio Barco (1986-1990) chegou à presidência, foi criada a primeira eleição de prefeitos, em 1988. Até então, nunca havia ocorrido votação popular para esse tipo de cargo.

Um ponto importante para destacar dessa época é que as forças militares colombianas passaram de 150 mil pessoas a 210 mil, de 1988 a 1989. Com isso, foram mobilizados 14 batalhões contra guerrilha.

Depois de sequestrar o político Álvaro Gómez Hurtado, o M-19 acatou as conversas e tratados de paz com o governo e decidiu se desmobilizar. Em 9 de março foi assinado o acordo definitivo, com mais de mil membros retornando à sociedade civil. Outro grupo que entrou em desmobilização na mesma época foi o EPL, que acabou se tornando partido político Esperanza, Paz y Libertad.

Por outro lado, foi criada a Coordinadora Guerrillera Simón Bolívar para centralizar e organizar as guerrilhas, de modo que elas poderiam coordenar ações contra o Estado e os paramilitares.

Nesse mesmo período, também aumentou a perseguição contra políticos que se enquadravam na esquerda, assim como líderes sociais e defensores dos direitos humanos. 

Durante o período presidencial de Virgilio Barco, apenas entre membros do partido Unión Patriótica foram perseguidos dois candidatos à presidências, oito membros do congresso, 13 deputados, 70 conselheiros municipais, 11 prefeitos, além de mais de 4 mil pessoas envolvidas que foram assassinadas, desaparecidas ou sequestradas.

Também ocorreu o endurecimento de medidas contra narcotraficantes. Com a expulsão e desmobilização de guerrilhas em algumas áreas, o que passou a dominar foram os grupos de “justiceiros particulares” financiados pelos narcotraficantes, mais uma vez estabelecendo o terror entre os colombianos que habitavam essas regiões. Além disso, a guerra entre cartéis ficou cada vez mais pesada.

Em agosto de 1989, o magistrado do Tribunal Superior de Cundinamarca, Carlos Ernesto Valencia, o coronel Valdemar Franklin Quintero e o pré-candidato presidencial liberal Luis Carlos Galán foram assassinados. 

Isso fez com que o Estado tomasse medidas em busca dos chefes dos cartéis, principalmente os que faziam parte do grupo Los Extraditables — Pablo Emilio Escobar Gaviria, Gustavo Gaviria, Gonzalo Rodríguez Gacha, Carlos Enrique Lehder Rivas, Juan David Ochoa, Jorge Luis Ochoa e Fabio Ochoa Vásquez. Por meio de decretos, foi autorizado o confisco de bens e imóveis de narcos, assim como a busca para levá-los a julgamento.

Os traficantes, por outro lado, também declararam guerra ao Estado, intensificando o terrorismo em diversas partes do país. Atentados, explosões e sequestros deixaram milhares de vítimas entre policiais e civis. Com o fim do mandato de Barco, os narcotraficantes fizeram uma trégua.

Assim termina o final do segundo período de violência na Colômbia. Em breve, a terceira e última parte! Para ler mais sobre o país, acesse a categoria Colômbia aqui no Exclamación!

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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