Entrevista com Sebastianismos: “A cúmbia é latino-americana e também é brasileira”

No dia 4 de julho, durante a segunda edição do Festival de Cúmbia Sol y Sombra, em São Paulo, o Exclamación conversou com Sebastianismos, projeto solo do músico chileno-mexicano radicado no Brasil e ex-integrante da Francisco, el Hombre. Em meio a essa nova fase da carreira, o artista refletiu sobre identidade latino-americana, coletividade, experimentação musical e o momento da cena independente no Brasil.

Isabela Guiaro: Você carrega uma bagagem da Francisco, el Hombre e agora está com seu projeto solo. Como tem sido redefinir essa identidade brasil-latino-americana?

Sebastianismos: Tem sido um processo muito intenso. Passei a vida inteira trabalhando em coletivos, sempre em bandas, e agora estou descobrindo o que significa desenvolver um projeto solo. Faz um ano que a Francisco, el Hombre encerrou as atividades e sinto que ainda estou entendendo esse novo momento.

Sou apaixonado por experimentação. Cada show traz uma proposta diferente e ainda não sei exatamente onde isso vai chegar. Mas a Francisco também nasceu assim: fazendo shows, testando ideias, até entendermos o que aquele projeto representava. Agora estou vivendo novamente esse processo de descoberta.

Isabela Guiaro: Seu som mistura punk, ska e ritmos latino-americanos. De que forma sua origem mexicana e a vivência construída no Brasil ajudaram a criar essa sonoridade?

Sebastianismos: Meu som reflete completamente a minha trajetória. Carrego a herança da minha família, do México e do Chile, mas também cresci no Brasil e dentro da contracultura, especialmente na cena punk.

Com a Francisco, el Hombre, conseguimos construir uma mistura muito autêntica entre ritmos latino-americanos e a atitude do punk rock. Agora estou numa espécie de fase 2.0, tentando entender como essa pesquisa se traduz no meu trabalho solo. É uma sonoridade que mistura muitas referências da América Latina e que, para mim, faz todo sentido.

Isabela Guiaro: Como você analisa o papel de São Paulo como esse laboratório de artistas que experimentam fazer uma música brasileira, mas conectada à América Latina?

Sebastianismos: São Paulo é um universo. É uma cidade que recebe pessoas de muitos países e de todas as regiões do Brasil, o que cria um ambiente de troca muito raro na América Latina.

Essa diversidade impulsiona um nível de experimentação muito grande. Não é por acaso que tantos artistas latino-americanos passam por São Paulo e acabam ficando mais tempo para entender como essa cidade funciona. Apesar do caos, ela consegue criar uma identidade muito própria e fortalecer artistas do Brasil e de toda a região.

Isabela Guiaro: O punk e a cúmbia parecem caminhar juntos em muitos contextos culturais. Por que esses dois universos conversam tão bem?

Sebastianismos: A cúmbia é um ritmo ancestral e profundamente popular. O punk nasceu como um movimento contracultural. Apesar das origens diferentes, os dois acabam se encontrando porque representam formas de resistência diante da hegemonia cultural do mainstream.

São linguagens que oferecem outras possibilidades de expressão e, justamente por isso, dialogam muito bem entre si.

Isabela Guiaro: Na transição para a carreira solo, o que você trouxe de mais valioso da estrada com a Francisco, el Hombre? E o que fez questão de deixar para trás?

Sebastianismos: Acho que não deixei nada para trás. Talvez apenas a bateria, que foi o instrumento que mais me acompanhou durante muitos anos.

A Francisco, el Hombre foi um laboratório de aprendizado extraordinário. Começamos tocando em praças e ruas, passando o chapéu, e construímos uma banda independente capaz de sustentar muitas pessoas por quase quinze anos.

Tudo o que faço hoje nasce dessa experiência. Aprendi que projetos sólidos são construídos coletivamente. Estar sozinho agora é um desafio justamente porque sempre vivi em grupo.

Talvez o maior aprendizado desse primeiro ano seja entender que continuo acreditando na coletividade. Ninguém constrói uma carreira sozinho. Se você quer desenvolver um projeto artístico, encontre pessoas que compartilhem dos mesmos valores. É assim que as coisas acontecem.

Isabela Guiaro: Como você enxerga a saúde da cena independente latino-americana no Brasil atualmente?

Sebastianismos: Essa é uma pergunta complexa. A cultura vive em transformação constante e hoje enfrentamos mudanças tecnológicas muito rápidas, além dos impactos deixados pela pandemia.

Vejo muitos artistas talentosos querendo se conectar novamente. Festivais como o Sol y Sombra existem justamente para fortalecer esses encontros.

A cena já esteve mais articulada, especialmente antes do desmonte de políticas culturais e dos impactos da pandemia. Mas também vejo muitos coletivos trabalhando para reconstruir essa rede.

Se tivesse que definir esse momento, diria que estamos vivendo uma fase de reconstrução. Ainda é cedo para saber onde isso vai nos levar, mas tenho esperança e fico feliz por fazer parte desse processo.

Isabela Guiaro: E, por fim, a cúmbia tem futuro no Brasil?

Sebastianismos: A cúmbia é latino-americana e também é brasileira.

Ela está presente há muito tempo em diferentes regiões do país, como o Norte e as áreas de fronteira no Sul. O que vemos agora é um novo interesse pela cúmbia dentro de uma perspectiva contracultural.

Mas ela nunca deixou de existir. Se atravessou tantas gerações, é porque continuará viva. Nosso papel é fortalecer e apoiar esse movimento.

Isabela Guiaro: Muito obrigada! Gostaria de deixar uma mensagem final?

Sebastianismos: Sigam a Exclamación e valorizem os veículos independentes que divulgam e celebram a cultura latino-americana no Brasil. Eles são fundamentais para fortalecer essa cena.

Leia também sobre o 2º Festival de Cumbia a Sol y Sombra e entrevistas com outros artistas.

Foto por @lumachiararuiz

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *