O trabalho de Eva Perón e seu impacto na história argentina

Para entender o âmbito social e político da Argentina atual, é necessário aprender sua história, que foi seguramente marcada por um antes e depois de Eva Perón: uma mulher que lutou pelo povo até seu último momento de vida e causou aversão em seus inimigos mesmo depois de morta.

Com seus discursos marcantes e uma força (quase) inabalável, Evita transformou a narrativa argentina por meio de suas obras sociais e conquistou milhões de admiradores mundo afora, vivendo para sempre na memória do povo através dos tempos.

Quem foi Eva Perón?

Nascida em Los Toldos, localizada na província argentina de Buenos Aires, em 1919, foi fruto de um caso entre Juana Ibarguren e Juan Duarte. María Eva Duarte de Perón, também conhecida simplesmente por Evita, viveu seus primeiros anos de vida na pobreza. 

Sem pai legítimo, Eva amadureceu muito jovem, impulsionada pela realidade de sua família dentro da sociedade argentina do início do século, onde mulheres não tinham relevância alguma sem a aprovação de um homem e marido.

Desperta em Eva um desejo de conquista e a necessidade de se provar, que faz com que ela mude para Buenos Aires com 15 anos de idade para perseguir a carreira de atriz. A escolha da carreira foi motivada pelos luxos que sonhava algum dia dispor.

Eva Duarte triunfa como atriz. O cinema não foi uma conquista fácil – depois do primeiro filme em 1937, a artista tarda a conseguir outro papel. O trabalho glorifica e Eva aparece em diversas capas de revista. No final, acaba se dedicando a radionovelas.

Eva e Perón

Na capital argentina, em 1944, a atriz Eva Duarte conhece o político Juan Domingo Perón, com quem inicia um romance. Ele era vice-presidente e fazia parte do Grupo de Oficiais Unidos, que reunia militares ultraconservadores que tomaram o poder através do golpe de 1943.

Perón foi ganhando popularidade entre ao povo argentino por defender os direitos dos trabalhadores, concedendo aos operários benefícios como salário mínimo, aposentadoria e férias remuneradas.

Sua notoriedade não contentou os militares, que o mandaram prender no ano seguinte. A admiração de Evita por Perón e seu discurso fez com que a atriz organizasse comícios populares que obrigavam o governo a soltar Perón. 

Com o vice-presidente solto, o romance dos dois se intensifica. A atriz Eva Duarte é vista acompanhando Perón por todos os lados, em eventos políticos oficiais, e atraindo a atenção de todos. 

Pouco depois disso, os dois se casam, marcando essa série de acontecimentos como o momento em que Eva Duarte se transforma em Eva Perón.

O peronismo

Em 1946, Perón se elege presidente e estabelece o peronismo, governo marcado pelo populismo e o autoritarismo, onde os discursos baseavam-se em que os grandes favorecidos seriam o povo e que a única solução para os problemas do povo era Perón.

Na tentativa de expansão do peronismo, Evita se converte na verdadeira líder e voz do povo. Intermedia os operários e o governo, sendo assim, na visão do povo e através de seus impactantes discursos, representante da classe trabalhadora, aqueles que chamava carinhosamente de seus ‘descamisados’.

O presidente e a primeira-dama criam o Partido das Mulheres Peronistas (Partido Peronista Femenino, PPF). Através do partido, Evita, na companhia de Perón, participa de comícios discursando sobre a atuação da mulher na luta democrática e as mudanças necessárias a serem feitas, apoiando o movimento feminista que reivindicava o direito de igualdade política desde 1919. A lei é aprovada e sancionada por Perón no ano seguinte.

“A mulher do Presidente da República, que vos fala, é – neste sentido – nada mais que mais uma argentina, a companheira Evita, que luta pela reivindicação de milhões de mulheres injustamente adiadas no que há de mais valioso em toda consciência: vontade de escolher, vontade de assistir, desde o espaço sagrado do lar, o maravilhoso progresso de seu próprio país. Este deve ser o nosso objetivo.”

– ‘Mensaje a la mujer argentina’: discurso sobre o sufrágio feminino feito por Eva Perón em 27 de janeiro de 1947.

A força argentina através do peronismo teve seu reconhecimento mundial, pois se estabeleceu no final da 2ª Guerra Mundial, no qual a maioria dos países, ao contrário da Argentina que se manteve sólida economicamente, ainda sofriam com as marcas deixadas pela guerra.

Em sua visita à Espanha no lugar de Perón, Evita atrai a atenção do povo espanhol, que acreditava que ela era capaz de compreender a realidade do país – que estava isolado internacionalmente por simpatizar com o nazismo -, selando um acordo de colaboração que fortaleceria as duas partes.

Com a força de seus discursos, a multidão clama por Evita, e sua notoriedade incomoda Franco, ditador e líder político da Espanha em 1947. A atenção destinada a seu regime fascista se converte em admiração pelo peronismo, e, em sincronia com a constante desaprovação e críticas de Eva, faz com que Franco se sinta afrontado e tema pela estabilidade de seu mandato.

Apesar de que ambas partes ocultem suas opiniões em público, se tornam claras as desavenças entre a primeira-dama argentina e o ditador espanhol. Na sua volta à Argentina, suas frustrações com a estadia na Espanha se mesclam com a emoção de estar em casa e a recepção de sua nação; um novo passo para Evita e para o país. 

A admiração do povo

O trabalho social por parte de Evita, uma das maiores conquistas do governo de Perón, tinha como objetivo investir na educação e saúde da Argentina. Sua insaciável vontade de ajudar o povo, motivada pela opressão que sofreu por ser criada sem pai, brota em forma de construções públicas, direcionada aos paupérrimos – aqueles que enfrentavam os mesmos problemas que ela teve na infância.

Em 1948, surge a Fundação Eva Perón, instituto do governo que realizou diversos tipos de investimentos e doações à parte carente da população, notável pela participação direta de Evita. Uma de suas ferramentas da Fundação foi a Escola de Enfermeiras, ensino superior público para mulheres.

Após a criação do Partido das Mulheres Peronistas e a lei do voto feminino sancionada, Eva Perón continua a dar voz para as mulheres com ensino e trabalho. O superior reuniu diversas moças de toda Argentina na capital, com internato para as que vinham do interior, formando trabalho para mais de 13 mil delas, de acordo com os dados do Arquivo Geral da Nação (Archivo General de la Nación; AGN).

A primeira-dama atendia pessoalmente os pedidos do povo na sede da Fundação, em Buenos Aires. Durante várias horas ininterruptas, assinava cheques e doava alimentos, roupas, brinquedos e livros à famílias carentes, que dormiam durante horas na porta do estabelecimento, sendo, em grande parte, moradores de outras províncias.

O instituto atuou em todo território argentino de 1948 a 1955, com investimentos na construção de escolas, hospitais e campos esportivos, além de oferecer assistência a países da América Latina, Europa e Ásia.

A Fundação cria também inúmeras moradas, conhecidas como “hogares” (lares, em português). Casas de repouso, lares para mães solteiras e orfanatos, como também escolas internatos para crianças em situação de extrema pobreza, se espalham massa por todas províncias do país.

Moradas únicas do peronismo, como Hogar de la Empleada (Lar da Empregada), que abrigava mulheres do interior que trabalhavam na capital, e Hogar de Tránsito (Lar de Trânsito), lar temporário para pessoas pobres, caracterizam a potência da inversão do governo em trabalhos sociais, considerando-o como modelo, e, consequentemente, estabelecem a reputação do nome Perón.

A ameaça militar

Com a chegada das eleições em 1951, a enorme popularidade do peronismo se destaca entre todo período de campanha política. A Confederação Geral de Trabalhadores (Confederación General de Trabajadores; CGT), que havia impulsionado Perón a uma reeleição, manifesta seu desejo de ver Evita como vice presidenta.

Apesar do sucesso com suas obras sociais, numa reunião aberta na cidade de Buenos Aires, a primeira-dama pede para seu público “que não peçam a ela fazer o que não quer”. A multidão não desiste em seu pedido, e Evita solicita ao seu povo que lhe deem algumas horas mais. Através de uma estação de rádio, Eva Perón recusa o convite para a vice presidência.

Perón mantém a chapa da campanha passada, com Quijano como seu vice. O presidente recebe apoio para sua reeleição de quase todos os meios de comunicação, fazendo com que o seu opositor, Ricardo Balbín da União Cívica Radical, arrisque numa tour de comícios por todas as províncias argentinas na tentativa de expansão de popularidade.

Mas a reeleição de Perón era inevitável, que venceu no primeiro turno com 64%. A presença das mulheres nas urnas faz com que as eleições de 1951 tenham 4,7 milhões de votos a mais quando comparadas com as de 1946, sendo 3,8 milhões destes votos femininos, segundo o AGN. 

A oposição radicalista se rebela publicamente contra o peronismo e uma conspiração sobre um levante militar vem à tona. Naquele que seria seu último discurso, Evita alerta o povo:

“Companheiros, quero dar a vocês um recado: fiquem atentos. O inimigo está à espreita. Não perdoa jamais que […] um homem bom como general Perón esteja trabalhando pelo bem-estar de seu povo […] Os ‘vendedores da pátria’ de dentro, que se vendem por quatro moedas, estão também à espreita para dar o golpe em qualquer momento. Mas nós somos o povo. E eu sei que com o povo alerta, somos invencíveis, porque somos a própria pátria.”

O câncer

Durante a campanha política em 1951, Evita adoece. A primeira-dama negligencia o tratamento e repouso, alegando que Perón e o povo precisam de sua força mais do que nunca. Por sua fadiga constante e uma tensão enorme entre ela e Perón, Evita nega o convite a vice presidência.

A doença se agrava. Evita é diagnosticada com câncer – um tumor maligno no útero. Durante esta época, este tipo de informação não era passada ao paciente se mantendo somente entre a equipe médica responsável pelo caso e, algumas vezes, a família. Os médicos e enfermeiras ocultavam a gravidade de sua doença e afirmavam à ela que tinha uma anemia.

Pela falta de avanços em sua melhora, ela confirma suas suspeitas de que sua doença era algo mais grave. A partir deste momento, os melhores profissionais são encaminhados para o caso. A  primeira-dama argentina passa por uma cirurgia para retirar o tumor, sem saber que o seu cirurgião seria o norte-americano especializado em câncer, acreditando que o responsável seria um médico local.

Independentemente de sua debilidade, Eva Perón, em uma tentativa de mostrar sua força, faz questão de participar de eventos em nome de seu povo. Na cerimônia de posse da presidência de Perón, Evita aparece deslumbrante aos olhos do público, com um casaco de pele que representa seu glamour. Sedada e com um colete de gesso para se manter em pé, sua vulnerabilidade, porém, não passa despercebida.

O desenvolvimento de sua doença não impede Evita de se manter como um pilar forte dentro da política argentina. Os peronistas, que se mantém fiel à sua admiração ao governo de Perón e o trabalho social de sua mulher, a homenageiam com palavras como “Dios salve Evita” (Deus salve Evita).

María Eugenia Álvarez, regente da Escola de Enfermeiras da Fundação Eva Perón e a enfermeira designada a cuidar de Evita no estágio final de sua doença, relembra o último momento da primeira-dama no documentário musical “Las Enfermeras de Evita” (2015).

“Já era dia 26. […] Quando a levei no banheiro ela queria ficar sozinha, mas tentei ficar por perto porque sabia que ela não podia estar desacompanhada. […] Havia um espelho grande, ela estava lavando as mãos e se olhou – seu rosto eu me lembro até hoje. Enquanto se olhava, ela falou: “Falta pouco.” E eu respondi: “Sim senhora, falta pouco para voltar para cama.” E ela me disse: “Não, querida María Eugenia, falta pouco para mim.””

Em 26 de Julho de 1952, aos 33 anos de idade, Evita falece.

A despedida à tão amada mãe dos pobres reuniu 2 milhões de pessoas em frente à Casa Rosada, palácio presidencial argentino, estendendo-se a 10 quarteirões. Evita foi embalsamada e seu corpo permaneceu 17 dias no Ministério do Trabalho e Previsão Social (Ministério de Trabajo y Previsión Social), dos quais 14 dias foram destinados ao seu velório.

Eva Perón se despede do seu povo e de sua amada terra, mas não descansa em paz.

Terceiro golpe argentino

Após o velório, o corpo embalsamado de Evita volta a Confederação Geral do Trabalho (CGT) para retoques. O trabalho constituía em construir um mausoléu em sua homenagem mais alto que a Estátua da Liberdade.

Durante o governo de Perón, a ameaça militar dá as caras. Após uma tentativa falha de ataque de bomba na Plaza de Mayo em um discurso do presidente em 1953, o atentado se repete em 1955, desta vez contra a Casa Rosada, que levou a morte de 300 pessoas que estavam na região.

É instalado um golpe de estado, e Perón se exila. Os militares destroem todo o trabalho no nome de Eva Perón, incluindo sua Fundação e diversas vertentes. Numa tentativa de apagar o peronismo e por temer que Evita se torne um mártir, um comando militar invade a sede da CGT em Buenos Aires e sequestram o seu corpo.

Durante anos de translado incessante de seu corpo a lugares provisórios dentro da república argentina, a incógnita da localização de seus restos mortais, em junção com a memória do peronismo, se transforma em um símbolo de resistência contra a ditadura. Os militares, que temiam um ataque peronista, decidem transportar o corpo de Evita para a Europa.

O plano era afirmar que o cadáver era de uma mulher italiana morta no território argentino em 1951 e, para despistar, disseminar que o corpo de Evita havia sido destruído. Sob o nome falso de María Maggi de Magistris, Eva Perón foi sepultada na Itália.

Em 1971, o então presidente da Argentina, coronel Alejandro Lanusse, decide fazer uma negociação com Perón, que está exilado na Espanha: devolveria o corpo de sua ex-mulher. No processo de restauração, afirmam que o corpo chegou com diversas mutilações.

Dois anos depois, Perón voltaria à terra natal e se elegeria presidente novamente, acompanhado de Isabelita Perón, sua mulher, como vice. No ano seguinte, em 1º de Julho de 1974, Juan Domingo Perón morre aos 78 anos de idade. Isabel assume a presidência e fica responsável pelo translado do cadáver de Evita de Madri à Buenos Aires.

Finalmente, o corpo de Evita pode ser sepultado em Los Olivos, Buenos Aires, juntamente com o falecido presidente e aí ficou durante dois anos. Em 1976, com a chegada do maior golpe da história argentina, o cadáver de Evita foi levado para suas irmãs, que a enterraram no mausoléu da família, no bairro de Recoleta, Buenos Aires, onde descansa até hoje.

“Volveré y seré millones” 

O impacto de seu trabalho, mesmo que em parte destruído pelo golpe, permanece vivo na história argentina: a política e o povo não esquecem o trabalho de Eva Perón.

Em homenagem aos 50 anos desde o falecimento de Evita, inaugura-se o Museu Evita (Museo Evita) em 2002. Localizado em Palermo na capital argentina, o museu conta com vários artigos pessoais e lembranças familiares; quadros, vestuário e móveis, que reconstroem a vida da mãe dos pobres desde o momento de sua chegada em Buenos Aires.

Outros tributos a ex-primeira-dama são encontrados pela cidade de Buenos Aires. O Monumento a Eva Perón pode ser encontrado na Praça Evita Perón no bairro da Recoleta. A memória de Evita pode ser encontrada até mesmo em lugares inesperados: a cédula de cem pesos argentinos tem sua imagem.

Sua influência torna-a uma inspiração com reconhecimento internacional. O sucesso da Broadway, Evita, conta a sua história através das músicas compostas pelo grande musicista britânico Andrew Lloyd Webber e teve sua primeira versão na Inglaterra. A adaptação do musical para o cinema contou com a participação de Antonio Banderas e Madonna no papel principal.

A menção de Eva Perón ainda causa muita inquietação na Argentina e no mundo. Muitos respeitam sua memória e suas obras sociais, outros questionam seu caráter com base em seu temperamento radical. Mas há um legado que nunca poderá ser apagado: seu nome vive, e com ele tudo pelo que lutou e acreditou.

Gostou de conhecer a história de Eva Perón? Continue lendo o Exclamación para saber mais de cultura e política de países que falam espanhol!

Autor: Amanda Clepf

Analista de mídias sociais e entusiasta da cultura e política hispânica. Gosto de debater e iniciar conversas. Simplemente enamorada por la história de Argentina.

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