Totó la Momposina era a voz do rio Magdalena

Quando se fala sobre Totó la Momposina, precisamos considerar que sua obra nasceu de uma rede de memórias, deslocamentos, discriminações, festas, viagens, pesquisas e convivências. Ela foi alguém que compreendeu que a música popular só permanece viva quando continua circulando entre as pessoas, atravessando cidades, rios, mercados, cozinhas, velórios, celebrações e conflitos.

Em suas interpretações conviviam heranças africanas, indígenas e camponesas, mas também a experiência do deslocamento forçado, do preconceito racial em Bogotá, da modernização desigual da Colômbia e da transformação da música tradicional em produto global. Sua obra dava centralidade às vozes femininas negras, indígenas e mestiças das margens do Magdalena, mulheres cuja produção artística raramente era registrada institucionalmente.

Não por acaso, Gabriel García Márquez via em Totó algo extremamente próximo de sua própria literatura. Ambos entendiam o Caribe colombiano como um território onde memória, oralidade e cotidiano coexistem sem fronteiras rígidas entre o real e a fantasia. Totó parecia cantar exatamente o universo humano que García Márquez escrevia.

Sua partida hoje encerra uma presença física, mas também obriga a olhar com mais atenção para aquilo que ela realmente construiu ao longo de mais de seis décadas.

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