A expansão da música em espanhol nos Estados Unidos

Na era do streaming, os artistas latinos vêm se mostrando cada vez mais fortes, conseguindo marcas como 100 milhões de visualizações muitas vezes mais rápido que músicas cantadas em inglês. Eles começam a ser integrados em premiações e também dominam charts e reproduções em rádios, além de levarem suas turnês para várias partes de todo o mundo. 

Mas você já parou pra pensar como se deu o crescimento da música em espanhol, mesmo havendo um monopólio da música em inglês? 

A alta exposição, a cobertura massiva das mídias e o grande investimento das gravadoras para exportar, principalmente, a música urbana, criou uma curiosidade e abertura para conquista de novos públicos. Porém, a expansão latina começou muitas décadas antes.

O crescimento da música em espanhol em um cenário monopolizado em inglês

A popularidade da música em espanhol voltou a entrar em pauta desde que a nova onda de artistas começou a dar o que falar. Enquanto “Despacito” do Luis Fonsi é considerada um marco para esse movimento — entre outros recordes, se tornou o primeiro vídeo com 5 bilhões de visualizações no Youtube —, o Superbowl de 2020, com Shakira e Jennifer Lopez fez história ao receber 100 milhões de visitas na plataforma em apenas cinco dias.

A produção cultural em espanhol é extremamente diversificada, uma vez que existem mais de 20 países que usam esse idioma como oficial. A língua é, inclusive, a segunda maior em número de falantes nativos no mundo, perdendo apenas para o mandarim — segundo o Instituto Cervantes, em 2017 havia cerca de 480 milhões de hispânicos no mundo e, se somados com os que têm o espanhol como segundo idioma, o número sobe para 570 milhões.

A imigração e proximidade dos países da América Latina aos Estados Unidos, que detém a maior parte da indústria musical, são fatores muito importantes. Com um grande fluxo migratório de, principalmente, mexicanos, cubanos, porto-riquenhos e dominicanos para o país, formou-se uma grande comunidade com uma bagagem cultural que facilitou a inserção dos latino-americanos na música. 

Este fenômeno gerou não só diversos artistas que, ainda que às vezes cantassem em inglês, utilizavam em seus instrumentais sons inspirados em ritmos latinos, mas também um grande público para consumir fenômenos latino-americanos que surgiram no século passado.

A música em espanhol da Costa Oeste

Entre os anos 1940 e 1950, os imigrantes mexicanos que moravam na Califórnia — trazidos como mão de obra rural por meio do Programa Bracero — começaram a reivindicar seu pertencimento à sociedade. Os bairros latinos de Los Angeles eram caracterizados pela precariedade e violência, já que qualquer demonstração de identidade contrária à estética do sonho americano era vista como um afronte.

Por conta disso, muitos músicos de família mexicana eram coagidos a reprimir suas origens para que as rádios tocassem sua música. É o caso de Ritchie Valens — cujo nome real é Richard Valenzuela. Ficou popular com a canção em inglês “Donna”, mas o que o elevou ao status de lenda foi “La Bamba”, lançada em 1958.

A releitura de uma música folclórica de son jarocho chegou a várias camadas da sociedade estadunidense, apesar de ser em espanhol. Na principal parada do país, Billboard Hot 100, chegou à posição #22, enquanto o single ganhou disco de ouro certificado pela RIAA, por um milhão de cópias vendidas. Chegou a #13, #32 e #49 nos charts da Bélgica, França e Reino Unido, respectivamente.

O sucesso astronômico de Ritchie Valens, porém, foi interrompido por um acidente de avião que o matou em 2 de fevereiro de 1959 — data que ficou conhecida como o Dia Em Que a Música Morreu. Apesar de sua partida precoce, ele ficou marcado como o precursor da popularidade de artistas latinos e abrir as portas para que a música em espanhol tivesse seu espaço fora de países hispânicos. 

Inclusive, a banda mexicana-americana Los Lobos gravou “La Bamba” em 1987 para a trilha sonora do filme de mesmo título, sobre a vida de Ritchie Valens. Essa nova versão se tornou a primeira música em espanhol a atingir a primeira posição na Hot 100 da Billboard, além de ter chegado ao #1 em outros países como Austrália, França, Itália, Canadá, Irlanda, Nova Zelândia, Espanha, Suíça e Reino Unido.

Outro grande exemplo que surgiu nessa região é a banda Santana, criada em São Francisco em 1967. O guitarrista e fundador, Carlos Santana, é mexicano e foi morar nos EUA, onde começou sua carreira musical nos anos 60. Em 1969, o grupo tocou no festival de Woodstock, ganhando popularidade com “Soul Sacrifice”, que contava com 11 minutos de instrumental. 

Seguindo o sucesso da apresentação, o grupo lançou seu primeiro disco auto-intitulado, que chegou a #4 no chart da Billboard. Já em 1970, Santana conseguiu ficar seis semanas em #1 com seu segundo disco, “Abraxas”, que contava com um de seus maiores hits, “Oye Como Va”, regravação de um famoso jazz latino do início dos anos 60. 

O fenômeno da salsa em Nova York

Do outro lado do país, um novo tipo de movimento surgia. Dessa vez, ao invés de protagonizado por mexicanos, os responsáveis por uma verdadeira revolução musical em uma das cidades mais importantes do mundo se deu com a contribuição de porto-riquenhos, cubanos e dominicanos.

Ocupando o bairro conhecido até hoje como Spanish Harlem, ou “El Barrio”, os salões de dança da região viraram uma válvula de escape para a juventude que se sentia discriminada em outros ambientes. 

O primeiro grande sucesso musical da região foi “El Manisero”, uma rumba do cubano Antonio Machín. O jazz afro-cubano, termo popularizado nos Estados Unidos por Machito e sua banda, era uma fusão com o mambo, que foi criado em Cuba. Em Nova York, o estadunidense filho de porto-riquenhos Tito Puente se tornou a maior voz do estilo com “Oye Como Va”, em 1962.

A progressão desse gênero e sua popularidade entre os habitantes de Harlem levou ao surgimento de mais um estilo cubano, no início dos anos 1950: o cha-cha-cha. Acompanhando esse fenômeno, o surgimento do salão de danças Palladium se tornou um ponto essencial para tornar essa música ainda mais famosa.

Os bailes começaram a atrair jovens de diferentes camadas sociais — latinos, brancos, judeus e negros, por exemplo —, principalmente porque, na época, aquele estilo de dança era libertador por permitir a aproximação dos corpos. Enquanto, antigamente, ser de East Harlem era vergonhoso e estigmatizado, os fanáticos de música voltaram os seus olhos para a música produzida por latinos em Nova York. 

Entretanto, o interesse pela latinidade foi desaparecendo aos poucos na década de 1960, uma vez que, com a Revolução Cubana (1969), tudo o que era em idioma espanhol foi associado ao comunismo. Além disso, o surgimento do rock e da beatlemania levou os jovens — incluindo a nova geração de latinos nascidos nos Estados Unidos — a trocar os salões de dança das big bands de Harlem por concertos em estádios. 

East Harlem voltou a ser o bairro latino e perigoso, mas, ainda assim, os músicos locais não deixaram de produzir: nesse período de transição, surgiu o boogaloo latino, com uma mescla de ritmos caribenhos com elementos do rock. Para se adequar, inclusive, alguns latinos começaram a usar imagens que eram populares na mídia comum. 

O músico Willie Colón, por exemplo, utilizou a estética dos gângsters e começou a usar trajes parecidos a esses personagens. Também investiu em fotografias que imitavam cenas de filmes, como “O Bom, O Mau e o Feio” e “Os Intocáveis”.

Enquanto os estilos anteriores eram originários da América Latina e adaptados com referências encontradas em Nova York, os anos 1970 deu à luz o primeiro movimento criado nos Estados Unidos: a salsa. Os moradores de El Barrio utilizaram elementos de ritmos como o son de Cuba, a plena de Porto Rico, o soul e o jazz. 

O sucesso repentino levou os artistas de salsa da gravadora Fania a oferecer um show gigantesco no Estádio Yankee, em 1971. Quatro anos depois, o programa dominical da rádio WRBR dedicado à salsa “Sunday Salsa Show” alcançou picos de audiência de 200 mil ouvintes.

O nascimento da salsa foi um marco para a expansão da música latina em todo o mundo, uma vez que os artistas começaram a fazer turnês por diversos países do globo. A cubana Celia Cruz, por exemplo, chegou a levar seu show à República Democrática do Congo, na África, local que, na época, era conhecido como Zaire.

A conga em Miami

Abraçando um pouco mais estilos de música latinos, o grupo de cubanos Miami Latin Boys, que tinha como integrante Emilio Estefan, começava a fazer sucesso nas casas noturnas da Flórida em meados dos anos 70. Em 1977, Emilio conheceu Gloria Fajardo, hoje conhecida como Gloria Estefan, e a convidou para fazer parte da banda, que foi renomeada como Miami Sound Machine. 

Em 1985, foi lançado o álbum “Primitive Love”, que estourou nos Estados Unidos com as músicas “Conga” e “Words Get In The Way”, chegando às posições #10 e #5 na Billboard Hot 100, respectivamente. 

Depois da saída de dois membros, em 1987, e de Emílio ter migrado para a parte de produção, o grupo passou a se chamar Gloria Estefan and The Miami Sound Machine e lançou o disco “Let It Loose”, que vendeu cerca de 3 milhões de cópias nos Estados Unidos e teve como lead single “Anything for You”, garantindo o #1 na Billboard Hot 100. 

Porém, com a saída de todos os membros originais no final dos anos 80, a banda terminou se desfazendo e Gloria Estefan investiu em sua carreira solo, obtendo sucesso cantando tanto em inglês, com seu disco “Into the Light” (1991) quanto em espanhol, com “Mi Tierra” (1992), que ganhou o Grammy de Melhor Álbum Latino Tropical. 

Já Emilio Estefan se tornou um dos mais importantes produtores de música em espanhol da América Latina, tendo influenciado na carreira de diversos artistas latinos quando eles ainda se encontravam dando seus primeiros passos, além de ter criado o Grammy Latino. 

A revolução do Tex-Mex

Nas fronteiras entre Estados Unidos e México também surgiram movimentos musicais híbridos entre os imigrantes. Inspirados pelos ritmos norteño, mariachi e corrido, além das influências das polcas europeias trazidas por imigrantes que chegaram após a Revolução Mexicana, nos anos 1910, o estilo tejano é um dos mais tradicionais movimentos norte-americanos.

Entre as décadas de 1960 e 1970, o gênero alcançou popularidade quando a chamada La Onda Tejana trouxe artistas como Los Relampagos del Norte, La Mafia, Little Joe Hernández e Flaco Jimenez. O crescente número de músicos desse estilo no Texas ocasionou na criação do Tejano Music Awards, em 1980.

Inclusive, o tejano também foi impulsionado pelo Chicanismo — movimento social iniciado nos anos 1960, inspirado pelos negros do Black Power, que reivindicava o pertencimento de mexicanos-americanos na sociedade dos Estados Unidos, pedindo direitos, integração e fim da xenofobia.

Apesar de muito importante na região, era considerado um estilo ainda muito local. Entretanto, esse cenário mudou com o surgimento de Selena, considerada até hoje a rainha do tejano. A jovem começou a ser notada pelo mainstream, chegando a ganhar o prêmio de Best Mexican/American Album no Grammy de 1994 com seu disco ao vivo. Entre seus maiores sucessos estão “Como la Flor” (1992), “Amor Prohibido” e “Bidi Bidi Bom Bom”, ambas de 1994. 

Também chamada de “a Madonna do tejano” e “próxima Gloria Estefan”, a indústria musical dos Estados Unidos gerou uma grande expectativa para o seu projeto de álbum em inglês, em produção em 1995. Entretanto, a cantora foi assassinada antes do lançamento, o que acabou gerando uma comoção nacional e alta procura por sua música. 

Por conta disso, meses após sua morte foi lançado o álbum póstumo “Dreaming Of You”, que debutou na primeira posição na principal parada do país, a Billboard 200. Além disso, se tornou o disco latino mais vendido da história dos Estados Unidos.

A explosão latina dos anos 1990 consolidou a música em espanhol nos anos 2000

Todas as expressões anteriores culminaram na chamada explosão latina dos anos 1990, que nada mais foi do que a ascensão de diversos artistas latinos para o mainstream da indústria musical de todo o mundo.

Enquanto os movimentos já mencionados foram causados por manifestações culturais feitas por imigrantes e gerações nascidas nos Estados Unidos, a principal característica dessa década foi a popularização de artistas que faziam sucesso na América Latina e conseguiram atravessar barreiras.

Os principais expoentes dessa explosão latina foram Ricky Martin e Shakira, apesar de haver nomes fortes das décadas anteriores — como Luis Miguel, ganhador de um Grammy de Melhor Cantor Mundial em 1985 — que foram essenciais para essa expansão.

O porto-riquenho, com o disco “A Medio Vivir”, de 1995, vendeu 3 milhões de cópias e o single “María” chegou ao #1 em toda a América do Sul e em vários países da Europa. “Vuelve” (1998), seu álbum seguinte, ficou 26 semanas em #1 no Billboard Top Latin Albums e, além disso, ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Pop Latino. Naquele mesmo ano, Ricky Martin ainda gravou “La Copa de la Vida”, que serviu de tema para a Copa do Mundo da França.

Já a colombiana ganhou fama com o álbum “Pies Descalzos” (1995), que vendeu cerca de 5 milhões em todo o mundo e ficou em #3 no Latin Pop Albums. Seu seguinte disco, “¿Dónde Están los Ladrones?” (1998), foi produzido por Emilio Estefan e ficou 11 semanas em #1 no Billboard Top Latin Albums. Vendeu mais de 1,5 milhões de discos apenas nos Estados Unidos, com um total mundial de 10 milhões, e gerou sua primeira indicação ao Grammy, com a categoria Melhor Álbum de Rock Latino/Alternativo. Por conta da repercussão, Shakira foi convidada pela MTV para gravar um Unplugged, tornando-a a primeira latina a ter um acústico transmitido nos Estados Unidos.

Outros nomes como Maná, Carlos Vives, Juan Luis Guerra e os latinos nascidos nos EUA Jennifer Lopez e Marc Anthony se destacaram nessa época. A produção de música em espanhol de alta qualidade e com uma grande demanda de público ocasionou na criação do Grammy Latino, já que a premiação convencional não comportava a quantidade de lançamentos que mereciam nomeações.

O final dos anos 1990 e o começo dos anos 2000 trouxe duas tendências que consolidaram de vez os artistas no mercado musical dos Estados Unidos: a era crossovers — quando os cantores passam a cantar em outro idioma, no caso, em inglês — e a popularização da música urbana. 

O crossover mais bem-sucedido da história é o álbum Laundry Service (2001), da Shakira, que vendeu cerca de 20 milhões de cópias em todo o mundo e o single de estreia “Whenever Wherever” se tornou a música mais vendida do ano. Este foi o pontapé inicial para a turnê mundial da colombiana entre 2002 e 2003, passando por mais de 20 países nas Américas e na Europa.

Já a música urbana chegou ao sucesso mundial quando “Gasolina” (2004) de Daddy Yankee alcançou o top 10 em charts nos Estados Unidos e Europa. Inclusive, foi o primeiro reggaeton a ser indicado ao prêmio de Gravação do Ano no Grammy Latino. Além disso, o urbano de “Lat Tortura”, de Shakira com Alejandro Sanz, se tornou a primeira música em espanhol a ser performada no VMA. Outro passo importante para o gênero foi a banda Calle 13, que até hoje detém o recorde de artista com maior número de troféus na premiação.

O sucesso da música em espanhol é resultado de um longo processo

Na próxima vez que escutar um novo hit de J Balvin ou Maluma, não pense que isso é fruto de uma moda que começou por acaso. Apesar de haver momentos de glória e de declínio de popularidade, a música em espanhol está há quase um século lutando para ter um espaço para se expressar dentro do país que detém a maior indústria musical do mundo ocidental.

Gostou de conhecer as fases de entrada da música em espanhol nos Estados Unidos e, consequentemente, no mundo? Continue lendo mais textos aqui no Exclamación!

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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