A influência do árabe no espanhol e os muçulmanos na Península Ibérica

O espanhol é o segundo idioma mais falado no mundo por nativos — são cerca de 500 milhões em todo o mundo, ficando atrás apenas do Mandarim. Somando-se aqueles que são hispânicos como segunda língua, temos cerca de mais 100 milhões de pessoas. 

Para chegar nas formas que são faladas hoje — e são muitas! — houve um processo evolutivo linguístico de séculos, que fez com que o latim se modificasse a ponto de chegar no espanhol que conhecemos. 

Porém, essa mudança não ocorreu somente como uma evolução simples e natural, senão que também sofreu várias alterações por conta do contato com idiomas de outros troncos linguísticos. Por exemplo: você conhece a influência do árabe no espanhol? Apesar de parecerem tão distantes, os muçulmanos tiveram um papel essencial para os hispanos.

É difícil mapear, mas alguns estudiosos estimam que 8% das palavras do idioma hispânico tenham procedência árabe. Isso significaria mais de 7 mil, pensando nas 88 mil palavras reconhecidas pela Real Academia Española (RAE). Outros estudiosos acreditam que esse número esteja em torno de 1500.

A conquista muçulmana na Espanha e Península Ibérica

Afinal, qual a relação do árabem com o espanhol e por que existe uma influência do idioma? Primeiramente, é preciso entender um período histórico crucial para essa mudança linguística: a conquista muçulmana na Espanha — e em todo o sul da Península Ibérica.

No século VIII, os muçulmanos do Califato de Damasco — ou Omeya — começaram a expandir territórios da região do Oriente Médio ao norte da África, até que, em 670, fizeram assentamentos na região que, hoje, é Marrocos. 

O plano do exército era cruzar o Mar Vermelho e conquistar a terra que, até então, era conhecida como Hispania ou Reino Visigodo. Porém, com algumas revoltas no norte da África, tiveram que adiar para conseguir manter o poder na região.

Por outro lado, o rei Witiza dos visigodos morre em 710, deixando o reino dividido entre dois sucessores: Rodrigo, em Toledo, e Agila II, na Catalunha. Rodrigo subiu ao trono, mas os povos da Hispania permaneceram em conflitos civis.

Início da invasão árabe na Espanha

O general Musa ibn Nusayr, sabendo da fragilidade do Reino Visigodo, ordenou que Táriq ibn Ziyad comandasse tropas para iniciar o processo de invasão. Em 711, chegou com uma tropa de 7000 soldados, a maioria deles berberes, na cidade onde hoje se chama Algeciras, na província de Cádiz. 

Instalou-se, também, no estreito de Gibraltar, onde esperava chegar novas embarcações com mais soldados. Depois, começaram a saquear toda a região ao sul da Andaluzia. Nesse meio tempo, o rei Rodrigo se encontrava em batalhas pela conquista de terras ao norte da Península Ibérica.

Em julho de 711, as tropas visigodas e as berberes se enfrentaram pela primeira vez. A chamada Batalha de Guadalete foi marcada pela destruição do exército rodriguista, assim como da oposição que ainda lutava pelo nome de Witiza, uma vez que os árabes já contavam com a adição de mais cinco mil homens.

O rei foi morto e os nobres indicaram Oppas, que também sofreu forte rechaço por parte dos witizianos e os apoiadores de Agila. De qualquer forma, Musa ibn Nusayr chega com mais 18 mil soldados muçulmanos e eles marcham para conquistar Sevilla, que passou a ser a principal base de operativos.

Com isso, partiram para a conquista de Córdoba, Mérida, Málaga e Granada, que já eram cidades administrativas importantes para os visigodos. Além disso, Musa queria avançar nos territórios e avançar o quanto antes a conquista para chegar a Toledo, capital do Reino Visigodo.

No caminho, conquistaram mais cidades quase sem resistência. Salvo a região da Catalunha, comandada por Agila II, quase todos os povos não conseguiram se organizar para combater. Mérida, por outro lado, mesmo conquistada tinha uma resistência do povo local — aliás, muitas cidades, por exemplo, não reconheciam o governo muçulmano, mesmo sem forças para batalhar. 

Por conta da dificuldade em se defender, a tomada de Toledo no final de 711 foi bastante fácil. O rei Oppa desapareceu e muitos nobres fugiram, deixando um vácuo político enorme no reino.

As tropas de Musa e Tariq se juntaram e, depois, se dividiram novamente para conquistar novas terras. Musa seguiu para o norte, enquanto Tariq ao nordeste, passando por cidades onde hoje fica Portugal.

Abd el-Aziz ibn Musa, filho do general Musa, governou a Península Ibérica em nome do Califato de Omeya e se casou com a viúva do rei Rodrigo, que se converteu ao Islam. Com isso, outros nobres visigodos decidiram fazer a conversão, mesmo que de aparência, para não serem perseguidos. Muitas igrejas católicas foram derrubadas para que mesquitas fossem construídas no lugar.

O processo de conquista durou até aproximadamente 726, quando os muçulmanos foram expulsos da região das Asturias — originando um reino independente cristão na região. Com isso, surgiram várias rebeliões que expulsaram os governantes de diversas cidades.

O Califato de Omeya começou a perder terras em Hispania, mas, ainda assim, permaneceu com o domínio da região até aproximadamente 1492, também se chamando de Emirado de Córdoba, Califato de Córdoba e tendo dois reinos taifas depois da Revolução Cordobesa. 

Ou seja, foram 781 anos de domínio muçulmano na área que foi batizada de al-Ándaluz. O governo chegou ao fim quando os reis Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela conseguiram expulsar os muçulmanos e reestabelecer um reino católico. 

De qualquer forma, os muçulmanos permaneceram na região, até que o rei Felipe III, em 1609, promoveu a expulsão dos árabes da Península Ibérica.

Dialetos que mesclam o árabe e o espanhol

Conhecer a história da conquista muçulmana da Península Ibérica é essencial para entender a influência do árabe no espanhol. Afinal, além das contribuições relacionadas à introdução agrária, que foi importante para a formação da culinária espanhola de hoje — arroz, alcachofras, berinjela, azeite… —, arte, arquitetura, literatura, entre outros aspectos, o idioma também foi altamente modificado.

O primeiro dialeto a aparecer foi o mozárabe/romance andalusí, que misturava aspectos das línguas românticas — em especial as formas rústicas do que conhecemos do espanhol de hoje — com o árabe. 

Com a conquista, as línguas latinas eram proibidas em comunicações oficiais, mas isso não impediu que gerações hispanas continuassem praticando o idioma. Aos poucos, ambos começaram a se misturar até formar um novo estilo de falar. Porém, com a pressão da elite muçulmana, muitos falantes mozárabes acabaram migrando para o norte.

Apesar da estrutura latina presente, o mozárabe era escrito com alfabeto árabe. Assim, foi criado o aljamiado andalusí, um alfabeto adaptado árabe com o vocabulário proveniente das línguas românticas.

Confira a comparação de uma transcrição ao alfabeto latino de algumas jarchas — composições dos poemas andaluzes chamados moaxajas — e sua comparação com o espanhol:

baid-še mieu corachón de mib. Enfermo yed ¿qánd šanarad?

‘Mi corazón se va de mí. Enfermo está, ¿cuándo sanará?’

¿Qe farey mama? mieu al-habib yed ad yana

‘¿Qué haré madre? mi amigo está en la puerta’

Alba que eštá de bel folgor, qand vened vad l’amor

‘Alba que está con bello fulgor, cuando viene se va el amor’

Outro dialeto que surgiu é o árabe andaluz, que sofreu influência tanto do mozárabe quanto dos idiomas latinos. Era bastante falado não apenas em Hispania, como também acabou influenciando os dialetos do norte da África.

Atualmente, nem o árabe andaluz e nem o mozárabe são falados.

Influência do árabe no espanhol: conheça os arabismos

Apesar do desaparecimento dos dois dialetos, a influência do árabe no espanhol se perpetuou para sempre. Afinal, o vocabulário adquirido e introduzido durante séculos já fazia sentido para as novas gerações que surgiram a partir de 1613, quando o processo de expulsão dos muçulmanos foi finalizado.

A maioria das palavras derivadas do árabe no espanhol têm relação com agricultura, toponímia, localizações, construções e termos bélicos. É fácil de identificá-las pelo uso do prefixo a- e al-, que são extremamente comuns no idioma. Alguns exemplos de arabismos são:

  • aceite;
  • aceituna;
  • aceña;
  • aduana;
  • ajedrez;
  • ajonjolí;
  • alazán; 
  • alambique; 
  • albañil;
  • albóndiga;
  • alcachofa;
  • alcalde;
  • alcohol; 
  • aldea;
  • alfombra;
  • álgebra;
  • algodón; 
  • algorismo;
  • alicate;
  • almacén;
  • almanaque;
  • almohada;
  • alpargatas;
  • alquimia;
  • arsenal;
  • arroba;
  • arroz;
  • ataúd;
  • atún;
  • azafrán;
  • azar;
  • azogue;
  • azúcar;
  • azucena;
  • azud;
  • azulejo.

Outro marcador é o sufixo -í, em palavras como:

  • ajonjolí;
  • andalusí;
  • baladí;
  • carmesí;
  • jabalí;
  • marroquí.

Mais um marcador do idioma árabe usado no espanhol é o prefixo guad-, que vem do termo wad-, que significa vale ou rio. Ele é comum, principalmente, em nomes de lugares:

  • Guadalajara;
  • Guadalete;
  • guadamacil;
  • Guadarrama.

Porém, há muitas palavras sem uma conexão a uma regra específica. Alguns exemplos de arabismos são:

  • asesino;
  • badén
  • balde;
  • barrio;
  • berenjena;
  • café;
  • calafate;
  • calibre;
  • cero;
  • cifra;
  • dado;
  • diván;
  • elixir;
  • gazpacho;
  • guitarra;
  • fulano;
  • halagar;
  • jarabe;
  • jarra;
  • jazmín;
  • jirafa;
  • limón;
  • mazmorra;
  • medina; 
  • mezquino;
  • naranja;
  • quiliate;
  • raqueta;
  • rehén;
  • rincón;
  • sandía;
  • tabaco;
  • tambor;
  • tarea;
  • tarifa;
  • taza;
  • zanahoria;
  • zafar.

Um caso bem específico que faz muito parte do vocabulário hispânico é o “Ojalá”, que significa algo como “tomara” ou “que Deus queira” em português. Ele vem do árabe “in šā’ Allāh (Insha’Allah).

Algumas dessas mesmas palavras também entraram no vocabulário português porque a conquista muçulmana também abarcou a região onde fica Portugal.

Agora que já sabe a influência do árabe no espanhol, saiba como surgiu a letra ñ no idioma!

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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