Brasileiros não se interessam por shows de artistas de música em espanhol?

Em maio de 2023, a cantora mexicana Julieta Venegas desembarcou no Brasil pela quinta vez para realizar shows nos dias 18 e 19, em São Paulo e Porto Alegre, respectivamente. A artista já havia vindo nos anos de 2008, 2011, 2013, 2014 e 2017 com suas turnês, sempre muito querida não apenas pelo público brasileiro, mas também por outros cantores nacionais — ela possui duetos com Marisa Monte, Otto, Lenine, Fernanda Takai, Emicida, Criolo, Tulipa Ruiz e, agora, neste ano, convidou Roberta Campos para o seu show.

Julieta, que é uma das maiores lendas da música mexicana — inclusive, é dona da canção latina feminina solista mais vendida dos anos 2000: “Me Voy” (2006) —, acabou passando quase despercebida até mesmo pelos próprios seguidores, já que muitos nem ficaram sabendo sobre suas apresentações.

Pelo menos cinco mil pessoas curtiram o show da artista no Brasil. Em contrapartida, acompanhando os tópicos mais comentados do Twitter, não é incomum chegar na discussão sobre a difusão da música em espanhol no nosso país. 

Alguma vez, você já viu alguém dizendo que os brasileiros não consomem música hispânica por conta do idioma e pelo Brasil ser muito fechado — inclusive, tentando argumentar que o contrário também ocorre, já que nossos vizinhos também supostamente não escutam música brasileira?

Esse argumento cai em um senso comum e parece lógico quando vemos que artistas como o Bad Bunny atinge recordes de reprodução em plataformas de streaming, mas, quando comparamos com as listas de charts no Brasil, vemos que ele é muito pouco expressivo.

Mas, será que o argumento faz jus à realidade e as coisas são assim tão simples? Se o brasileiro não consome música em espanhol, como se explica a turnê de 1997 da Shakira que passou por mais de 30 cidades no nosso país — a lista é muito interessante e teve datas em Mogi das Cruzes, Taubaté, Pelotas, Capão da Canoa, Uruguaiana… —? Ou, ainda, será que a relação com os números e o que se consome em massa no Brasil não tem a ver com o investimento pesado que o agronegócio faz para colocar artistas de sertanejo no topo (não vamos entrar nesse tópico)?

Buscar explicações assim, básicas, é muito mais fácil do que enxergar que o Brasil não tem exatamente um problema com a música em espanhol. A questão não é o consumidor final, que muitas vezes apenas não fica nem sabendo da existência de grandes fenômenos nos países vizinhos, mas sim quem está ali no meio: a indústria. 

Em algum momento, a indústria brasileira decidiu que era interessante divulgar artistas hispânicos no Brasil — mais precisamente, nos anos 1990, quando ocorreu o chamado boom latino, que deixou a música em espanhol em evidência em todas as partes do mundo — e isso fez com que Shakira viesse com sua longa turnê e aparecesse nos principais programas de vários canais de televisão em uma época em que nem ela própria sabia muito falar inglês. A mesma coisa ocorreu com Ricky Martin, Thalía, Alejandro Sanz, Julio Iglesias e seu filho, Enrique Iglesias, entre outros grandes nomes. Estes cantores apareceram inúmeras vezes em trilhas sonoras de novelas famosas da Rede Globo, como Torre de Babel, Páginas da Vida, entre outras.

Esse interesse perdurou até meados dos anos 2000, com o grande fenômeno causado pelo RBD que chegou ao nosso país. Apesar do indiscutível sucesso da banda, estádios lotados e milhões de cópias de disco vendidas, com a dissolução do grupo foi possível perceber a queda no “interesse” do público para músicas em espanhol, o que, na verdade, pode ser traduzido como falta de divulgação da indústria. Até então, todos os grandes públicos tinham sido formado por audiências de televisão. Uma vez que ela voltou a se fechar, novamente o Brasil se isolou em sua bolha — o que está longe de ser necessariamente um problema, já que aqui se consome muita música nacional.

A questão é que é inegável que o Brasil também sempre gostou de seguir os passos bem de perto do que é produzido nos países anglo-saxônicos — tanto que, nos anos 1990, quando a música em espanhol ficou famosa nos Estados Unidos, nós também demos uma chance —, porém, na nova onda da “latinidade”, parece que não estamos conseguindo acompanhar.

O novo “boom” latino veio forte em meados de 2010 e vem mostrando que a indústria da música em espanhol é cada vez mais forte, muito por conta da mais recente geração de artistas de reggaeton. No ano passado, o já mencionado Bad Bunny fez uma turnê imensa pelos Estados Unidos e pelos nossos vizinhos. Para este ano, a colombiana Karol G também já tem alguns estádios confirmados nos EUA, além dos shows que passam pela América Latina.

O fato dessas turnês quase nunca passarem pelo Brasil nada tem a ver com falta de interesse do público brasileiro. Os grandes nomes atuais hispânicos têm fã-base consolidada no Brasil o suficiente, a ponto de que muitos viajam para fora do país para curtir o show de seus ídolos. A situação recai, então, sobre o problema já apresentado: falta de divulgação de quem realmente pode investir nesses artistas.

Conversando sobre a trajetória de Julieta Venegas no Brasil com uma das administradoras do fã-clube oficial da cantora em nosso país, ela destaca o mesmo ponto. “É interessante que ela tenha feito grandes turnês que passaram pelo nordeste, por Minas Gerais e tenham saído desse eixo Rio-São Paulo. Ela sempre faz shows nas cidades do Sul, como Curitiba e Porto Alegre. Apesar disso, percebemos que o público não cresce e continua sendo um público relativamente restrito. Isso se deve, em grande parte, à falta de divulgação dos próprios shows”, diz Camila Ramos (29).

A pouca cobertura de mídia implica não apenas na dificuldade de alcance de determinados artistas, mas também na criação de uma identificação com o público brasileiro e no entendimento real das motivações desses cantores. “Lá fora, as entrevistas têm uma profundidade maior e abordam mais aspectos da carreira dela e o que motiva suas composições. […] No caso de Julieta, isso fica evidente na forma como o feminismo cresceu na América Latina, especialmente na Argentina e no México, e como isso se reflete na percepção dela. Desde o início de sua carreira, ela já era feminista, mas após testemunhar a Onda Verde e os movimentos sociais que ocorreram lá, isso se refletiu em algumas de suas composições. Quando essas músicas chegam aqui, elas ficam sem um contexto”, explica a administradora do Julieta Venegas Brasil.

A mexicana, inclusive, uma vez entrevistada por Serginho Groisman no programa da Rede Globo “Altas Horas”, teve que explicar que estava lançando o seu terceiro disco solista, mas que era o primeiro editado e vendido no Brasil. O apresentador, na hora de falar sobre ela, acabou dizendo que aquele era seu primeiro CD — sendo que ela já tinha seus quase dez anos de carreira solo.

Mais do que isso, também é possível notar um grande receio dos produtores brasileiros em apostar em artistas que falam espanhol. Falta também investimento por parte da indústria e do mercado, pois sempre consideram o orçamento para coisas em espanhol como algo insignificante. “Um exemplo disso é a Julieta, que é uma artista que vem com certa frequência ao Brasil, mas mesmo assim, quando ela vem, percebemos que a estrutura é limitada. No show dela do disco novo, em alguns lugares, ela toca com uma orquestra de cordas, além dos músicos da banda fixa. Isso é algo que só vemos lá fora e não temos no Brasil”, comenta Camila.

Além disso, grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro recebem quase diariamente músicos de todo o mundo para shows pequenos ou para compor festivais. Entretanto, até mesmo nos grandes eventos que ocorrem, também, nos nossos vizinhos — como é o caso do Lollapalooza e Primavera Sound, que acontecem em datas próximas em Buenos Aires (Argentina) e Santiago (Chile) —, não vemos esse interesse: o line-up é compartilhado quase exclusivamente para artistas que falam inglês. Trazer para o Brasil um artista relativamente conhecido hispânico que estará no festival aqui ao lado parece quase impossível.

Por exemplo, em 2018 a chilena Mon Laferte, que estava despontando de maneira exponencial na América Latina, foi confirmada para o Lollapalooza Chile e Argentina e caberia perfeitamente na proposta brasileira, colocando-a para cantar durante a tarde, antes dos artistas principais — afinal, a proposta do festival é, justamente, trazer artistas mais alternativos, muitas vezes até independentes. Mas isso não ocorreu.

Até mesmo a própria Rosalía só foi trazida depois de muita insistência e provas de que era uma artista de nível global. A artista se apresentou no Lollapalooza Chile e Argentina de 2019, mas não havíamos tido nem sinal de um show dela por aqui até então, mesmo que ela já tivesse furado a bolha naquele momento. O curioso é que nessa mesma edição, no Chile e na Argentina, teve Caetano Veloso e seus filhos, MC Kevinho e Los Hermanos… Ah, viram como a questão não é recíproca? 

Em 2022, o uruguaio Jorge Drexler fez duas datas em Porto Alegre, uma em São Paulo, uma em Curitiba e outra no Rio de Janeiro. O cantor, que tem uma ótima relação com Paulinho Moska, Caetano Veloso, Tiago Iorc, entre outros nomes brasileiros, mostra que é possível fazer uma turnê por várias cidades brasileiras mesmo não sendo um artista considerado mainstream e cantando puramente em espanhol. 

Em São Paulo, também vemos iniciativas interessantes como o Festival Mucho, que há vários anos se compromete a trazer mais latinidade para a cidade por meio de eventos acessíveis. Mais recentemente, em maio, houve o show do No Te Va Gustar, grupo uruguaio, em uma unidade do SESC. Na Virada Cultural 2023, eles foram os responsáveis por trazer os chilenos Moral Distraida. Mas, o projeto ainda não tem a visibilidade que deveria.

Às vezes só falta divulgação para o brasileiro demonstrar interesse na música em espanhol

Apesar da confirmação e início das vendas do show da Julieta Venegas terem ocorrido em abril, apenas um mês antes das apresentações, e da quase nula divulgação (algumas pessoas receberam, no máximo, uma publicidade no Instagram), ambas as datas venderam quase a capacidade total, ficando poucos lugares vagos.

É preciso considerar que o concerto ocorreu no mesmo dia que a apresentação da banda uruguaia No Te Va Gustar, outra raridade no país e que tem uma audiência relativamente similar — sim, mal temos shows de artistas hispanos aqui e, quando temos, eles acontecem juntos. O mesmo ocorreu com a argentina Tini e o colombiano J Balvin, que disputaram vendas de ingresso para a mesma data em outubro de 2022.

Mas, o que impressionou de verdade foi a participação surpresa de Julieta na Noite dos Museus, um evento promovido pela prefeitura de Porto Alegre com o intuito de levar as pessoas para o centro da cidade, visitar museus e assistir concertos em locais públicos.

Anunciada no próprio dia do evento (sábado, 20), com algumas horas de antecedência, apenas, Julieta foi capaz de atrair uma multidão e milhares de pessoas (o número não foi confirmado pela prefeitura) passaram pela Praça da Alfândega, local onde ela se apresentou.

Bernardo Petrucci (22), viajou de Pelotas para Porto Alegre para curtir o show de uma de suas cantoras favoritas, e foi agraciado pela apresentação extra de surpresa. “Tinha muitos fãs e também muitas pessoas que não a conheciam, mas curtiram muito o show, aplaudiram e se empolgaram com a apresentação. […] E o pior de tudo é que depois, acompanhando pelo Twitter, várias pessoas que estavam passando pela Noite dos Museus e conheciam a Julieta, disseram que ouviram lá do palco, porque estava muito difícil de chegar no palco de tanta gente que tinha na praça da Alfândega, em Porto Alegre. Ouviram as músicas e dançavam, até acharam que era um cover”, relatou o jovem.

Sua passagem pelo Brasil foi quase silenciosa, praticamente sem nenhuma cobertura ou resenha sobre o show — o mesmo ocorre com outros artistas que não têm a pegada mainstream do universo hispânico. Jorge Drexler, Andrés Calamaro e Fito Páez, por exemplo, quase nunca deixam de fazer shows por aqui, mas dificilmente alguém de fora da bolha fica sabendo.

Sobre a cobertura de imprensa sobre os shows no Brasil, Camila ainda complementa: “Os fãs não ficam satisfeitos e a informação transmitida sobre os artistas não surpreende. O que a imprensa nos traz é sempre a mesma coisa genérica. Acredito que falte alguém especializado, que conheça os artistas, o contexto na América Latina e a história da música. É importante não achar que algum artista está trazendo a música latina para o Brasil agora, pois isso já acontece historicamente há muitos anos. Apenas não está tão documentado, registrado ou conhecido”. 

Considerando o fato de que Julieta Venegas foi uma atração surpresa na Noite dos Museus e que foge do que é o hype atual da música latina (reggaeton) — apesar de ser bastante famosa e ter uma carreira exitosa de quase 30 anos como solista —, sua recepção pelo público de Porto Alegre foi extremamente calorosa. Será que o que falta, mesmo, não é uma boa divulgação e trazer cada vez mais artistas de música em espanhol para ver o interesse do brasileiro novamente surgindo? 

Podcast: como o Brasil começou a escutar música em espanhol?

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