Massacre de El Mozote: o evento esquecido de El Salvador

Você já ouviu falar em El Mozote, massacre que aconteceu em dezembro de 1981, em El Salvador? 

A primeira vez que me deparei com a história desse massacre foi lendo “O Vento Sabe Meu Nome”, livro de Isabel Allende, onde essa tragédia é citada na narrativa. E foi a partir disso que precisei trazer esse artigo para o Exclamación para que você, caro leitor, saiba o que aconteceu no país centro-americano.

O que foi o El Mozote? 

Antes de saber o que foi o massacre, é preciso conhecer o contexto histórico da época no país salvadorenho: em 1981, vários grupos guerrilheiros de esquerda uniram-se à Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) — partido socialista de El Salvador — para combater o governo de direita que governava à epoca, devido à corrupção generalizada e às atrocidades cometidas contra os direitos humanos. 

Quando aconteceu o massacre, ocorria no país uma guerra civil no qual as Forças Armadas de El Salvador (FAES) enfrentaram as forças insurgentes da FMLN. O conflito armado nunca foi oficialmente declarado, mas considera-se que se desenvolveu entre 1979 e 1992, em meio a uma crise política e social que o país vivia durante a década de 1970.

E foi durante essa guerra civil que entre os dias 9 e 13 de dezembro a pequena aldeia de El Mozote, situada no departamento de Morazán, testemunhou um dos episódios mais sombrios da história contemporânea da América Latina. 

O que começou como uma operação militar para erradicar a guerrilha esquerdista — aqui vale fazer um adendo que durante esse período as forças armadas do  governo eram apoiadas pelos Estados Unidos e tinham como objetivo combater guerrilheiros de esquerda —, rapidamente se transformou em uma das piores atrocidades do século XX. 

O evento começou em El Mozote, mas se estendeu por La Joya, Ranchería, Los Toriles, Jocote Amarillo, Cerro Pando e Cerro Ortiz.

No início de dezembro, unidades do Batalhão Atlacatl do exército salvadorenho chegaram à remota aldeia de El Mozote após um confronto com guerrilheiros nas proximidades. 

A chamada Operação Resgate tinha como objetivo eliminar as presenças rebeldes em uma pequena região do norte de Morazán, onde a FMLN tinha dois campos e um centro de treinamento.

Soldados do Batalhão Atlacatl ordenaram que os moradores deixassem suas casas e formassem filas na praça, pedindo-lhes informações sobre as atividades da guerrilha, ordenando-lhes que regressassem às suas casas e permanecessem trancados até o dia seguinte, ameaçando em atirar em quem saísse. Os soldados permaneceram na aldeia durante toda a noite do dia 10.

Na madrugada de 11 de dezembro de 1981, os militares reuniram novamente toda a população na praça da cidade, separando homens e idosos das mulheres e crianças, trancando-os em diferentes lugares. O primeiro grupo na igreja e o segundo em uma casa. 

Durante toda a manhã seguinte os moradores foram interrogados por meio de tortura. Ao final do martírio, todos os interrogados — homens, mulheres e crianças — foram executados. Além disso, antes de serem mortas, as mulheres e meninas foram estupradas pelos homens do exército. Nos dois dias seguintes, o mesmo ato cruel foi repetido nas cidades vizinhas. 

Os civis foram acusados de colaborar com a guerrilha esquerdista que havia se estabelecido na região. 

Estimativas de um censo do governo, realizado em 2017, estabeleceu que ao menos 988 pessoas, entre elas 558 crianças, foram assassinadas em El Mozote e nas comunidades adjacentes. 

Outras 712 pessoas que sobreviveram ao ataque abandonaram a região e se juntaram aos milhares de deslocados da guerra civil, que deixou mais de 75 mil mortos e ao menos 7 mil desaparecidos.

O pós massacre

Apenas um mês e meio depois, em 27 de janeiro, a notícia do massacre apareceu na mídia mundial, em relatórios do New York Times e The Washington Post. Raymond Bonner escreveu no Times sobre “os crânios carbonizados e ossos de dezenas de corpos enterrados sob telhados queimados, vigas e telhas despedaçadas”.

Os dois jornais também citaram Rufina Amaya, uma das únicas sobreviventes que se escondeu em uma árvore durante o ataque. Ela disse aos repórteres que o exército havia matado o marido e seus quatro filhos, o mais novo deles com oito meses de idade, e que queimaram os corpos. Rufina morreu em 2007 sem ver justiça para sua família. 

Rufina Amaya

O governo, por seu lado, passou anos negando o acontecimento e seu envolvimento no caso. Os presidentes da Junta Revolucionária, Álvaro Magaña e José Napoleón Duarte, negaram categoricamente os rumores de um massacre em El Mozote e atribuíram-nos a jornalistas de tendência comunista, ansiosos por prejudicar a imagem de El Salvador.

Em 26 de outubro de 1990, uma queixa criminal foi apresentada por Pedro Chicas Romero, de La Joya, sobrevivente do massacre, que se escondeu em uma caverna acima da cidade, contra o Batalhão Atlacatl. 

No mesmo ano, como parte do acordo de paz estabelecido pelos Acordos de Paz de Chapultepec, assinados na Cidade do México em 16 de janeiro, a Comissão sobre a Verdade de El Salvador, sancionada pela ONU, investigou abusos de direitos humanos cometidos durante a guerra, supervisionando as exumações de El Mozote por uma equipe argentina de especialistas forenses a partir de 17 de novembro. 

A escavação confirmou os relatórios anteriores de Bonner e Guillermoprieto de que centenas de civis foram mortos no local. A Comissão da Verdade declarou em seu relatório final: 

“Há prova completa de que, em 11 de dezembro de 1981, na aldeia de El Mozote, unidades do Batalhão Atlacatl mataram deliberada e sistematicamente um grupo de mais de 200 homens, mulheres e crianças, constituindo toda a população civil que haviam encontrado lá no dia anterior e mantidos como prisioneiros desde então… há [também] evidência suficiente de que nos dias anteriores e posteriores ao massacre de El Mozote, as tropas participantes da “Operação Resgate” massacraram a população civil não-combatente no cantão de La Joya, nas aldeias de La Rancheria, Jocote Amatillo e Los Toriles e no cantão Cerro Pando”.

O massacre se manteve impune por uma lei de anistia que em 1993 perdoou todas as atrocidades cometidas na guerra, mas esse regulamento foi revogado pelo Supremo Tribunal de Justiça em 13 de julho de 2016. Anteriormente, em 2012, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte-IDH) condenou o Estado salvadorenho pelo massacre e ordenou medidas de reparação.

Hoje, El Mozote permanece como um símbolo sombrio do sofrimento humano e da brutalidade da guerra civil em El Salvador. As feridas do massacre ainda não cicatrizaram completamente, e as comunidades locais continuam a buscar justiça e reparação para as vítimas. 

O legado de El Mozote serve como um lembrete crucial da importância de defender os direitos humanos e evitar que atrocidades semelhantes ocorram no futuro.

Para ler mais textos sobre países que falam em espanhol, continue no Exclamación.

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