El Güegüense: o primeiro teatro da América e patrimônio cultural

A cultura nicaraguense é rica em tradições que refletem sua história e diversidade. Entre essas manifestações, há uma obra teatral que transcendeu séculos, misturando dança, música e humor para retratar de forma única a relação entre povos indígenas e colonizadores espanhóis. É nesse contexto que surge El Güegüense, um símbolo da identidade cultural da Nicarágua e um dos maiores legados artísticos da América Latina.

El Güegüense é um drama satírico e foi a primeira obra teatral da literatura nicaraguense, além de ser considerada a primeira obra teatral da América. Reconhecida como Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2005, é uma síntese da fusão das culturas espanholas e indígenas, combinando teatro, dança e música. Essa peça é uma das expressões folclóricas e literárias mais representativas da era colonial na América Latina e Europa.

A obra é encenada durante as festas patronais de San Sebastián na cidade de Diriamba, no departamento de Carazo, em meados de janeiro. Ela incorpora texto, dança, gestos e música, acompanhada de instrumentos como o atabal e o pito. Além disso, originalmente, ela era apresentada em náhuat e espanhol como teatro de rua, muitas vezes de forma irreverente, nas costas das autoridades coloniais espanholas.

Ao longo do tempo, a história foi passada principalmente de forma verbal, o que garantiu sua preservação e difusão entre os povos nicaraguenses via tradição oral, especialmente nas regiões onde a obra era encenada. Com o passar dos anos, três manuscritos principais foram encontrados, cada um trazendo uma versão da obra.

O primeiro deles, intitulado Baile de El Güegüense o Macho Ratón, foi descoberto entre os papéis de Juan Eligio de la Rocha no século XIX e atualmente está guardado na Universidade de Tulane. Este manuscrito é um dos mais importantes, pois representa uma das primeiras versões documentadas da obra.

O segundo, conhecido como Original del baile del Macho Ratón, foi transcrito em 1908 pelo etnólogo Walter Lehmann, durante suas pesquisas na região da América Central. Essa versão foi preservada no Instituto de Estudos Latino-americanos de Berlim, e se destaca por apresentar algumas variações em relação à versão anterior, enriquecendo a compreensão da obra.

O terceiro manuscrito, atribuído ao século XVIII e de autoria de Emilio Álvarez Lejarza, foi encontrado em Catarina, na Nicarágua. Este é considerado o mais antigo dos três e carrega uma grande importância histórica, pois sua transcrição é uma das mais antigas que se tem registro, permitindo estudar a evolução da obra ao longo do tempo.

Esses manuscritos têm sido fundamentais para a preservação de El Güegüense, garantindo que a obra, inicialmente transmitida oralmente, fosse registrada e estudada, proporcionando uma compreensão mais profunda de sua importância cultural e histórica.

Os personagens principais são:

El Güegüense

É o protagonista e figura central da obra. Representa um homem astuto, sagaz e crítico, que utiliza sua inteligência e humor para enganar as autoridades coloniais espanholas. Ele personifica a resistência cultural e a esperteza do povo nicaraguense frente à opressão.

Don Forsico

Filho de El Güegüense. É um jovem que simboliza a nova geração e acompanha seu pai na interação com as autoridades. Ele também reflete a esperteza e o desejo de se adaptar às circunstâncias.

Don Ambrosio

Outro filho de El Güegüense, também participa das tramas do pai. Representa o mesmo espírito de adaptação e sobrevivência diante das dificuldades.

Governador Tastuanes

Autoridade colonial espanhola que representa o poder opressor. Ele é alvo das críticas e artimanhas de El Güegüense, mostrando a corrupção e a ganância das lideranças da época.

Capitão Alguacil Prefeito

Outro representante do governo colonial. Sua posição hierárquica e suas ações evidenciam a burocracia e a estrutura rígida da administração espanhola.

Escriba Real

É responsável pela documentação oficial e pela escrita dos decretos e decisões do governo. Representa o controle administrativo colonial e o uso da palavra escrita como instrumento de poder.

Regidor Real

Outra figura ligada ao governo, que ajuda na administração das ordens e regulações coloniais. Sua presença reforça a autoridade e a estrutura hierárquica espanhola.

Ou seja, cada personagem reflete um aspecto da sociedade colonial nicaraguense. 

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