A Operação Condor: repressão e terror no Cone Sul

A Operação Condor foi uma campanha de repressão política e terror de Estado implementada por ditaduras militares de direita na América do Sul, com apoio dos Estados Unidos. Criada formalmente em novembro de 1975, a operação envolveu a coordenação entre serviços de inteligência para capturar, torturar e assassinar opositores políticos, especialmente exilados em outros países, que eram alinhados com ideologias de esquerda.

A ideia de cooperação entre serviços de inteligência para reprimir movimentos considerados subversivos surgiu antes da formalização da Operação Condor, assim como o apoio secreto da CIA à queda de governos opositores também iniciou décadas antes. Em setembro de 1973, durante uma conferência militar em Caracas, o general brasileiro Breno Borges Fortes sugeriu a troca de informações entre países para combater a subversão.

Em 1974, reuniões entre policiais e militares de países do Cone Sul — Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia — reforçaram a colaboração na repressão a opositores. A formalização da Operação ocorreu em 25 de novembro de 1975, em Santiago do Chile, com a presença de Manuel Contreras, chefe da DINA, e representantes dos serviços de inteligência de vários países.

O Plano recebeu esse nome devido ao condor, ave andina considerada a maior do mundo.

Fases da Operação Condor

A Operação Condor foi conduzida em três fases:

  1. Compartilhamento de informações: Os países envolvidos criaram uma base de dados compartilhada sobre opositores políticos, incluindo guerrilheiros, ativistas de esquerda, intelectuais e sindicalistas.
  2. Repressão transnacional: As forças de segurança passaram a realizar prisões, torturas e execuções de alvos identificados.
  3. Execuções internacionais: Equipes especiais eram enviadas a outros continentes para eliminar dissidentes exilados.

Apoio dos Estados Unidos

Os Estados Unidos deram suporte direto e indireto à Operação Condor, fornecendo treinamento em técnicas de tortura, apoio logístico e militar, além de conhecimento estratégico. O apoio foi garantido através da CIA e de administrações como as de Johnson, Nixon, Ford, Carter e Reagan.

Documentos desclassificados revelam que Washington não apenas tinha conhecimento das operações clandestinas coordenadas entre as ditaduras sul-americanas, mas também facilitou sua execução. Relatórios indicam que agentes da CIA e militares norte-americanos ofereceram instrução em interrogatórios coercitivos, desaparecimento forçado e outras formas de repressão.

Além disso, os Estados Unidos auxiliaram financeiramente algumas dessas ditaduras e compartilharam informações de inteligência para rastrear opositores. Apesar das evidências de conivência e incentivo, não há comprovação documental de uma participação direta e ativa dos EUA na execução dos assassinatos e desaparecimentos promovidos pela Operação Condor.

Casos notáveis da Operação Condor

Argentina: Assassinato de Carlos Prats Carlos Prats, general chileno e aliado de Salvador Allende, foi assassinado com sua esposa em Buenos Aires, em 30 de setembro de 1974. A explosão de um carro-bomba foi organizada pela DINA, com envolvimento do agente da CIA Michael Townley.

Brasil: O sequestro dos uruguaios Em novembro de 1978, militares uruguaios sequestraram os militantes Universindo Rodríguez Díaz e Lilian Celiberti, junto com seus filhos, em Porto Alegre. A ação foi descoberta por jornalistas, revelando a participação brasileira na Operação Condor. Os envolvidos foram condenados pela Justiça brasileira em 1980.

Brasil: A morte de João Goulart O ex-presidente João Goulart morreu na Argentina em 1976, oficialmente por ataque cardíaco. Entretanto, investigações indicam que ele pode ter sido envenenado em uma operação ligada à Operação Condor. Testemunhas relataram que seus medicamentos foram adulterados por agentes do serviço de inteligência uruguaio.

Uruguai: O assassinato de Zelmar Michelini e Héctor Gutiérrez Ruiz Em maio de 1976, os políticos uruguaios Zelmar Michelini e Héctor Gutiérrez Ruiz foram sequestrados e assassinados em Buenos Aires. O crime fez parte de uma ampla operação repressiva contra exilados uruguaios, com envolvimento das ditaduras argentina e uruguaia.

Chile: O atentado contra Orlando Letelier Orlando Letelier, ex-ministro do governo Allende, foi assassinado em Washington D.C., em setembro de 1976. Um carro-bomba explodiu no centro da cidade, matando Letelier e sua assistente, Ronni Moffitt. A operação foi planejada pela DINA com apoio do agente Michael Townley.

Ditaduras na América Latina

No Chile, a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) começou com um golpe militar que derrubou o presidente socialista Salvador Allende. O regime foi marcado por perseguições políticas, desaparecimentos forçados e assassinatos de opositores. Além disso, implementou um modelo econômico neoliberal que aprofundou desigualdades sociais.

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Na Argentina, a ditadura militar (1976-1983) instalou um regime repressivo que perseguiu, torturou e assassinou milhares de opositores, especialmente durante a Guerra Suja. O governo também implementou políticas econômicas desastrosas e envolveu o país na Guerra das Malvinas em 1982. A queda do regime foi impulsionada pelo fracasso na guerra e pela pressão popular por justiça e pela recuperação de desaparecidos.

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O Uruguai viveu uma ditadura militar entre 1973 e 1985, caracterizada pela censura, prisões arbitrárias e torturas, com um número elevado de presos políticos em relação à população. O regime fortaleceu o controle sobre a sociedade e reprimiu fortemente movimentos de esquerda, como os Tupamaros. O retorno à democracia foi conquistado através de mobilização popular e negociações políticas.

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O Paraguai viveu a ditadura de Alfredo Stroessner entre 1954 e 1989, o regime mais longo da América do Sul. Stroessner usou repressão, tortura e censura para manter o controle, além de perseguir opositores políticos. Seu governo também foi marcado pela corrupção e pelo apoio a regimes autoritários vizinhos. A ditadura caiu após uma crise interna e pressão popular.

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Desdobramentos da Operação Condor

A Operação Condor resultou em um número estimado de 50 mil mortes, 30 mil desaparecidos e 400 mil prisioneiros. Além dos assassinatos, a operação destruiu famílias, forçou milhares ao exílio e consolidou regimes autoritários no Cone Sul. A recente desclassificação de documentos tem permitido avanços em processos judiciais e busca por justiça, trazendo à tona novas evidências sobre a extensão da colaboração entre os regimes militares.

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