Entre guitarras, sintetizadores e letras que cutucam, a argentina Lali assina um disco que olha para o futuro sem esquecer o passado: um tributo ao rock argentino e à música dos anos 80 — ácido, teatral e cheio de identidade.
Ao longo de No Vayas a Atender Cuando El Demonio Llama, Lali constrói uma narrativa que parte da caricatura midiática da “popstar perfeita” e chega a um lugar de afirmação pessoal e crítica cultural, usando as linguagens do pop e do rock argentino com grande habilidade intertextual. Ela se apropria de referências da infância, do futebol, da televisão, do rock nacional e até da própria discografia para desmontar arquétipos e recuperar o controle de sua imagem.
A logo do disco, uma estrela faltando a união de duas pontas, pode ser, ao meu ver, o que simboliza esse desconformismo com os moldes midiáticos, ou até mesmo uma referência à tentativa de censura: ela não chegou a finalizar o seu símbolo porque foi impedida.

O álbum abre com uma faixa que soa como saída diretamente de Chiquititas — e não por acaso. A cantora, que participou da novela infantil no passado, parece retomar esse universo com ironia. A letra de “POPSTAR” apresenta uma figura quase messiânica, querida pelas famílias e temida pelos “maus”, em uma narrativa simplificada típica da infância. Inclusive, no coro de vozes infantilizadas que a cantam, podemos perceber que Lali está ali, forçando um tom infantil-irônico. Mas a energia exagerada e a estética nostálgica funcionam aqui como sátira: ela recupera a imagem da estrela infantil para caricaturá-la, expondo os clichês da fama midiática e abrindo espaço para uma desconstrução mais madura ao longo do álbum.
O videoclipe da introdução reforça essa leitura com uma estética de animação que remete diretamente ao universo gráfico de Chiquititas 2006, além de mostrar uma garota vestida com um figurino quase idêntico ao que a própria cantora usava quando fazia parte da banda adolescente TeenAngels.
Em meio ao tom aparentemente infantil da faixa, surge um verso que destoa com ironia: “Ella sabe cómo hacerte bien / y a tu papá también”. A frase, com seu duplo sentido malicioso, quebra a inocência da narrativa e antecipa o jogo de ambiguidade que marcará o resto do disco com uma encenação crítica da imagem pública entre a admiração e o desejo projetado sobre a popstar.
A sátira midiática de “POPSTAR” se dissolve de forma orgânica em “LOKURA”, a segunda faixa, que inaugura o tom mais roqueiro do álbum, com distorções bem colocadas. A cantora narra com intensidade quase mítica a história de Pablo Lokura, um barrabrava (como são chamados os torcedores organizados do futebol argentino, conhecidos por sua paixão extrema e comportamento muitas vezes violento) que era seu vizinho de infância e torcedor do Huracán, um clube tradicional de Buenos Aires com forte identidade de bairro.
A transição entre as faixas é quase cinematográfica: saímos da popstar reluzente da televisão para uma menina anônima, fascinada pelo caos e pela violência convertidos em desejo. A letra constrói um retrato do “terror del barrio”, um bad boy elevado à condição de divindade suburbana: ele é chamado de “Hijo del Pecado”, carrega cicatrizes, tem uma aura de perigo e conquista a admiração de todas, mas escolhe a narradora como sua “preferida”. Tudo no campo das ideias, é claro. Com frases como “mi sueño mojado es tenerlo encerrado en mi casa”, a canção expõe uma fantasia platônica, exagerada e teatral, brincando com o arquétipo da “chica mala” apaixonada pelo cara errado.
Lançada antes do álbum completo, “NO ME IMPORTA” funciona como uma espécie de declaração de princípios da cantora, tanto em conteúdo quanto em forma. A faixa tem um refrão cuja força contagiante que parece feita para ser cantada em coro, como se tivesse sido composta para ecoar em uma cancha de futebol, além de uma sonoridade marcadamente inspirada no rock argentino dos anos 80 — mais especificamente, nas batidas e progressões harmônicas que rememoram Clics Modernos (1983), o álbum que consagrou Charly García como o cronista elétrico de uma juventude em transformação. Ao mesmo tempo, a faixa também flerta com o pop e o punk, numa combinação que amplia seu poder de alcance e afirma o caráter híbrido da proposta de Lali O espírito é o mesmo: desabafo, orgulho da marginalidade — não no sentido pejorativo, mas de estar à margem, fora da curva —, e uma recusa frontal em se dobrar às expectativas dos outros.
Essa recusa, aliás, dá continuidade a um tema que já vinha sendo delineado desde as faixas anteriores. Se em “POPSTAR” ela satiriza a imagem da estrela adorada pelas massas e em “LOKURA” encarna uma figura desejada, quase mitificada, no imaginário do bairro, em “NO ME IMPORTA” ela finalmente rompe com essas construções. A imagem projetada, o desejo alheio, a cultuação: tudo é posto em xeque. Aqui, ela se afirma como sujeito — e não mais como personagem.
Antes ela brincava com as fantasias alheias, e agora acelera rumo à própria verdade e a transforma num refrão que não se explica, apenas se impõe.
A sonoridade do rock argentino dos anos 80 continua viva em “PLÁSTICO”, parceria com Duki, que parece expandir o universo sonoro e temático de “NO ME IMPORTA”. A bateria marcada, remete mais uma vez ao espírito de Clics Modernos, em especial à faixa “No Me Dejan Salir”, tanto pela estrutura rítmica das baterias e os gritos “ah” ao fundo, quanto pela sensação de paranoia urbana. Ao mesmo tempo, há uma construção ao fundo que vem do synth pop e new wave, com sintetizadores que tornam a faixa uma perfeita mistura do pop e do rock.
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Nesse cenário, ela alerta: “no vayas a atender cuando el demonio llama”. A frase — que também nomeia o álbum — funciona como um aviso, uma regra de sobrevivência num mundo de aparências, conveniências e gente “de plástico”. Em tom de ironia, ela parece brincar com a ideia de que, para alcançar a fama, é preciso atender ao chamado do diabo (ou fazer aquele pacto sombrio com o sucesso a qualquer custo). Mas, ao contrário de ceder, a cantora escancara o teatro e escapa pela tangente, reafirmando sua autonomia e desafiando o sistema que tenta seduzi-la.
É também mais uma etapa na narrativa do disco: depois de se libertar da imagem de popstar e se afirmar como dona de sua própria história, ela agora confronta diretamente o jogo da indústria e os personagens que tentam cercá-la. Há ironia, mas também agressividade e lucidez.
“TU NOVIA II” brinca com a continuidade e a memória pop ao resgatar e reconfigurar elementos de diferentes universos musicais. A começar pelo título, que aponta diretamente para uma música anterior da própria Lali, “Tu novia”, e se desdobra ainda mais com a frase “ahora creo que mejor que dos no son 3”, uma inversão irônica do verso de outra faixa sua, onde dizia justamente o contrário.
A música também faz uma interpolação direta do clássico “¿Y qué?” dos Babasónicos, retomando o refrão provocador e desafiador com novos sentidos e camadas. As letras das duas canções dialogam abertamente, mas Lali desloca o foco da provocação masculina para um desejo feminino mais direto. Com isso, ela constrói uma espécie de remix narrativo da cultura pop argentina, onde sua própria trajetória e o cancioneiro nacional se entrelaçam em tom de desafio.
É curioso observar que, embora o álbum tenha uma proposta declaradamente rockeira, esta faixa específica mergulha no synth pop com força — evidenciando uma forte influência estética dos anos 80. Isso não soa como uma contradição, mas como parte da proposta de Lali, que se afirma como uma grande artista pop no sentido mais amplo da palavra. Ela entende que o pop não se resume a uma sonoridade dançante ou fórmula pronta, mas sim à habilidade de transitar entre estilos, misturar referências e assumir diferentes formas — como um verdadeiro camaleão musical.
Embora “TU NOVIA II” não seja das minhas favoritas, reconheço que, do ponto de vista sonoro, ela sintetiza bem esse conceito que Lali buscou explorar ao longo do disco: o pop como linguagem aberta, com um som mais carregado vindo da essência roqueira, plural e em constante transformação.
A sonoridade de “MORIR DE AMOR” abandona um pouco o rock argentino oitentista e mergulha no funk dos anos 70 e no r&b. É uma faixa lenta, mas guiada por um piano ágil e bem marcado ao fundo, acompanhada por coros intensos — assinados pela banda Bersuit Vergarabat, um dos nomes mais importantes do rock argentino dos anos 90, conhecida por mesclar gêneros como murga, candombe e cumbia com crítica social e política.
Na letra, Lali faz uma citação direta a Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota, outra banda icônica do rock argentino. Ao cantar “nunca fui fan de los payasos ni de la pasta de campeón”, ela espelha quase literalmente um verso de “El pibe de los astilleros” — “las minitas aman los payasos y la pasta de campeón”. Enquanto a canção dos Redondos constrói um retrato trágico de um personagem desiludido e marginal, com uma crítica sutil aos estereótipos da virilidade e do sucesso, Lali retoma essa imagem para se posicionar contra o jogo amoroso que romantiza o sofrimento. Ela inverte o gesto: onde os “payasos” e a “pasta de campeón” eram parte do universo que fascinava as “minitas”, ela declara não ser fã desse imaginário, numa recusa que também reforça sua própria autonomia afetiva.
“MEJOR QUE VOS”, parceria com os ícones do pop argentino Miranda!, mergulha de cabeça no universo do pop oitentista, tanto na sonoridade quanto na estética. A batida vai crescendo até retomar força — e é nesse momento que a música traz referências claras a Pet Shop Boys, Erasure, The Human League, entre outros, com uma levada de teclados synthpop e electropop marcada, e também a grupos como o espanhol Locomía, pelo ritmo dançante com toques de exagero kitsch e vocais bem harmonizados. Essa é a grande marca do produtor musical Ale Sergi, que faz parte do dueto Miranda!. Algo que chama a atenção, também, é a linha de baixo eletrônico que acompanha a música — algo similar ao que costuma ser bastante evidente em gêneros que foram derivados da era disco setentista — as variantes do pop, o house, a eletrônica, entre outros. O saxofone mais ao final traz, por fim, um toque de funk.
O refrão é guiado por uma sequência de sintetizadores que imprimem um clima completamente anos 80, enquanto o saxofone que entra no final confere grandiosidade e reforça a aura vintage. Já o videoclipe acompanha essa proposta nostálgica e performática ao homenagear diretamente o programa de TV da Cher nos anos 70, trazendo figurinos brilhantes, coreografias e enquadramentos que dialogam com o glam e a teatralidade daquela era.
“NO HAY HÉROES” é a balada mais crua e introspectiva do disco, mostrando nuances da perda da ilusão. Composta em parceria com Julieta Venegas e BB ASUL, a faixa aposta em uma sonoridade minimalista: apenas um violão acompanha a voz de Lali, destacando a vulnerabilidade da mensagem e deixando de lado a teatralidade performática que vimos nas faixas anteriores. A presença de Julieta é sentida não só na composição, mas também no tom melódico extremamente realista, que remete a suas próprias baladas confessionais e com sentimentos extremamente específicos.
“SENSACIONAL ÉXITO” faz uma paródia sarcástica que envolve a construção de uma personagem exagerada, quase como uma figura de resistência no imaginário popular. Ao nomear Lali como “la heroína definitiva que demanda la época” e “la mayor delincuente de la que se tenga memoria”, a música parece brincar com a maneira como a mídia e a sociedade podem transformar atitudes de resistência em algo radical e transgressor, especialmente quando essas atitudes questionam o status quo.
Sonoramente, a faixa também amplifica esse tom sarcástico, com uma produção que brinca com o excesso e a construção de “sucesso televisivo”, subvertendo a expectativa de algo glorioso para algo mais irônico. Esse jogo de imagens se amarra com as faixas anteriores do álbum, nas quais Lali explora a dicotomia entre a verdadeira identidade e a imagem fabricada pela indústria do entretenimento.
Assim como muitas outras faixas do disco, “SEXY” joga com a superfície e o subtexto, explorando a imagem da mulher “sensual” e a relação com a exposição nas redes sociais. O que chama atenção, aqui, é como o refrão é construído para que o protagonismo seja dividido entre a voz e o instrumental da canção. Lali, que possui uma voz mais grave, sustenta um tom mais baixo, o que faz com que o que é cantado seja um pouco confundido com a guitarra que a está acompanhando.
Como não poderia faltar uma referência como vimos nas faixas anteriores, a pequena surpresa para quem tem ouvidos bons é encontrar o “uh-uh” similar ao de Fito Páez, lenda do rock argentino, na faixa “Circo Beat”.
“FANÁTICO”, primeiro single do álbum, é a porta de entrada perfeita para a era roqueira de Lali — uma era marcada por ironia, rebeldia e enfrentamento. A canção mistura elementos de pop rock com letras carregadas de sarcasmo, onde a figura do “fanático” é construída como alguém que finge desprezo, mas vive obcecado. É uma crítica afiada, mas embalada por um ritmo potente.
A referência sutil, porém evidente, ao presidente argentino Javier Milei dá à faixa um tom ainda mais político. Quando ele afirmou não saber quem era Lali e disse só ouvir Rolling Stones, ela respondeu com humor e criatividade: o videoclipe transforma essa frase em imagem, com a releitura da camiseta “Who the fuck is Mick Jagger” para “Who the fuck is Lali?”, e com um personagem claramente inspirado em Milei, que repete gestos e falas dele. O vídeo se passa num depósito, possivelmente como resposta ao apelido pejorativo “Lali Depósito”, usado pelo presidente para atacá-la — em alusão ao seu sobrenome Espósito. Lali transforma esse insulto em cenário, e o insulto se dissolve diante da sua força simbólica.
Leia sobre a perseguição de Milei contra Lali
“PERDEDOR” é uma balada pop rock melancólica e reflexiva que mergulha no desamor e no fim de uma relação com honestidade emocional e delicadeza. Lali canta sobre o fracasso amoroso como quem reconhece um padrão — sempre apostando no “cavalo perdedor”. A escolha dessa imagem confere à faixa uma vulnerabilidade sincera e resignada, mas também uma certa raiva contida, que vai crescendo ao longo da música.
O arranjo reforça esse clima: começa suave, com tons confessionais, e vai se intensificando até chegar a um clímax instrumental com cordas dramáticas — especialmente os violinos ao final, que deixam no ar uma tensão, um respiro suspenso, que prepara a passagem para a faixa que vem depois. Esse momento de transição é marcante, pois mostra a ruptura entre a vulnerabilidade e a retomada do controle na faixa seguinte.
O videoclipe traz ainda mais camadas ao escolher como protagonista Susy Shock — escritora, artista e ativista trans argentina.
A canção também carrega uma sensibilidade que remete, ainda que de maneira difusa, ao universo emocional de Gustavo Cerati — pelas melodias nostálgicas, pelas letras introspectivas, pelo equilíbrio entre suavidade e explosão. Lali se aproxima dessa tradição do rock argentino que sabe ser sentimental sem ser frágil, e com “Perdedor” ela entrega um dos momentos mais emocionais do disco.
Após o fim melancólico e suspenso de “PERDEDOR”, “33” irrompe com força e atitude, marcada por guitarras intensas que evocam a estética do punk — trazendo uma nova nuance dentro da proposta rockeira do álbum. Apesar de que pequenos elementos do punk tenham sido parte do disco em outros momentos, é aqui onde ele, de fato, se torna protagonista: com guitarras agressivas, aceleradas, um som denso, mas com certa simplicidade de estrutura e com um grau de inconformidade nas letras. No final, notamos um arranjo de cordas novamente.
Ao lado de Dillom — outro nome forte da cena argentina atual — Lali constrói um retrato de maturidade pop que sabe dialogar com a dor e com a memória, sem deixar de soar feroz. É um dos momentos mais potentes do disco, onde o rock serve como linguagem para declarar independência artística e emocional.
“PENDEJA” continua a estética sonora roqueira dos anos 90, mergulhando no hard rock com riffs agressivos e atitude provocadora. Mas a grande protagonista ta música é a bateria. Mas quem realmente conduz a faixa é a bateria. Com batidas marcantes e cheias de peso, ela dita o ritmo da raiva, sustenta a tensão e amplifica a intensidade da performance vocal. A música tem ares de rebeldia juvenil — mas feita com a ironia de quem já ouviu inúmeras vezes que “já está grande demais pra isso”. É justamente aí que mora a força da faixa: na provocação e na inversão das expectativas.
Lali abraça o insulto e o transforma em identidade. Ser chamada de pendeja (algo como “moleca” ou “pirralha” com tom pejorativo) não a incomoda — ao contrário, excita. Ela ironiza os julgamentos, os conselhos não pedidos e os rótulos que tentam enquadrá-la.
Com “FIN DE TRANSMISIÓN”, Lali encerra o projeto musical. Ao chamar o álbum de “pseudo rockero”, Lali assume com humor e autoconsciência a hibridização do projeto: ela não está tentando ser uma roqueira tradicional, mas sim brincar com o imaginário do rock a partir da sua própria identidade pop.
O som de TV fora do ar que interrompe a última frase “Y recuerden…” pode ser lido como uma paródia das transmissões televisivas que são abruptamente cortadas quando algo “indevido” vai ser dito. Esse gesto, embora cômico, traz um gesto político sutil: o silenciamento das vozes incômodas, principalmente as femininas e dissidentes, que falam demais, que desafiam estruturas, que não se encaixam. E que avisam: não atendam quando o demônio ligar.
No Vayas a Atender Cuando El Demonio Llama prova que Lali é uma artista pop em sua forma mais completa e sofisticada. E não porque ela entrega batidas dançantes ou letras fáceis de cantar — mas justamente porque entende que o pop vai além da fórmula. Ser pop, para ela, é saber transitar entre estilos, usar as linguagens culturais à sua volta com inteligência e ironia, assumir múltiplas identidades e desmontá-las quando quiser. Com domínio técnico, bagagem referencial e liberdade criativa, Lali usa a inteligência artística como arma para recuperar o controle de sua imagem e desafiar o sistema que tentou engessá-la. Ela não atendeu quando o demônio chamou — e, com isso, reafirmou seu lugar como uma das vozes mais potentes e ousadas do pop latino contemporâneo.
