Argentinas da banda Fin del Mundo encantam o público na Virada Cultural com rock e paisagens sonoras da Patagônia

No domingo, 25 de maio, a banda argentina Fin del Mundo subiu ao palco da Virada Cultural de São Paulo, levando ao público paulistano um show repleto de intensidade instrumental, sensibilidade poética e paisagens sonoras inspiradas na Patagônia, terra natal de duas das integrantes. Esta foi a sexta vez que o grupo formado por Julieta Heredia, Lucía Masnatta, Julieta Limia e Yanina Silva se apresentou no Brasil, e a conexão com o país já virou parte essencial da trajetória delas.

“Estamos muito felizes, porque esta já é a sexta vez que tocamos em cidades diferentes: São Paulo, São José dos Campos, Brasília, Goiânia… Cada vez que voltamos é uma festa”, disseram as integrantes, animadas com a receptividade brasileira. Para um grupo independente vindo da Argentina, conquistar espaço em território brasileiro não é tarefa simples. Mesmo assim, elas vêm ampliando o alcance da sua música a cada visita.

A participação na Virada Cultural também teve um sabor especial. Pela primeira vez, o grupo tocou em um festival aberto no nosso país. “É maravilhoso que cedam espaços públicos para que as pessoas possam vir de graça. Ontem estivemos numa praça lotada, todos cantando e dançando. Sentimos muito essa energia brasileira”.

Com influências do post-rock e do shoegaze, o som do Fin del Mundo é também reflexo direto do ambiente onde nasceram e cresceram: o extremo sul da Argentina. “Nos inspira muito a paisagem. Muita gente nos fala que se lembra desses lugares quando nos escuta, porque são espaços isolados, com ambientes grandes e desolados”, comentaram. “É uma região costeira, fria, e isso molda muito a forma como criamos. Passamos a adolescência em cidades pequenas, com muita introspecção.”

Mesmo com um som mais contemplativo, elas não se afastam da cena alternativa latina. A cada visita ao Brasil, encontram novas bandas e fortalecem conexões. “O bom de vir ao Brasil é que conhecemos muitas bandas estando aqui. Às vezes é difícil o intercâmbio com a Argentina, talvez pela questão do idioma. Mas adoramos descobrir bandas que se conectam conosco”, disseram, citando desde a banda punk Dominatrix até o clássico Jorge Ben. “Quando escuto Jorge Ben, meu humor muda na hora”.

Outro aspecto que marca a trajetória do grupo é o fato de serem uma banda composta exclusivamente por mulheres que já passaram dos 30 anos — algo ainda incomum em certos nichos do rock. “Mesmo não sendo tão jovens, estamos fazendo isso há muitos anos, em vários espaços, e estar aqui, nessa idade, é muito legal. É como um farol — mostra que é possível”, afirmou uma das integrantes. “Eu aprendi a tocar bateria aos 31. Nunca é tarde.”

Para as integrantes de Fin del Mundo, a representatividade feminina no rock é um impulso necessário para transformar a cena musical. Elas lembram que, quando começaram, era raro ver mulheres tocando instrumentos no palco. A ausência de referências dificultava o caminho, mas também reforçava a importância de persistir. “Se você quer mesmo formar uma banda só de mulheres, tem que insistir nesse desejo e não desistir. Digo isso como alguém que, desde os 14 anos, queria isso e só aos 30 encontrou as pessoas certas para tornar real”, contou uma delas. Hoje, observam com alegria que, na Argentina, já é possível encontrar bandas femininas das mais diversas formações, estilos e faixas etárias — um cenário que começa a se tornar natural, embora ainda desigual.

Essa mudança tem sido impulsionada, em grande parte, pelos coletivos formados por mulheres e meninas no rock. Em suas viagens por diferentes países da América Latina, o grupo tem visto iniciativas que vão muito além da música. “Conhecemos muitos coletivos de rock para meninas nos países que visitamos. Isso é muito importante, porque no futuro haverá milhares de bandas a mais”, relataram.

A banda mostra que o fim do mundo pode, na verdade, ser o começo de uma nova forma de fazer música — uma que rompe fronteiras, desafia padrões e transforma silêncio em presença. Do sul da Argentina ao coração de São Paulo, elas provam que é possível criar algo potente a partir do que parece desolado.

Ouça Fin del Mundo:

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