A cidade é para quem? Gentrificação, deslocamento e disputa por espaço na Cidade do México

A Cidade do México se tornou um palco de contrastes: de um lado, parques revitalizados, ciclovias e cafés artesanais instalados onde antes havia apenas moradias populares; de outro, o desaparecimento gradual — e muitas vezes forçado — dos antigos moradores desses territórios. A gentrificação, longe de ser apenas uma palavra da moda nas redes ou nas ciências sociais, representa uma reorganização do espaço urbano, de seus habitantes e de suas práticas cotidianas.

Nas últimas duas décadas, bairros como Roma, Condesa, Polanco, Xoco, La Merced e Alameda Sul passaram por transformações intensas, marcadas por investimentos imobiliários massivos, revalorização do solo urbano e o crescimento da presença de estrangeiros com alto poder aquisitivo — os chamados “nômades digitais”. Segundo cifras oficiais, de janeiro a novembro de 2022, o volume de estrangeiros com residência temporária ou permanente na Cidade do México aumentou 23,8%, alcançando um total de 43.868. Inclusive, atualmente, o México é o país com o maior número de nômades digitais da América Latina. Ao querer aproveitar essa dinâmica, o governo da capital chegou a firmar um acordo com a Airbnb para capitalizar o boom econômico que os nômades digitais geram, estimado em mais de 3 bilhões de dólares por ano.

Embora muitas vezes esses processos sejam apresentados sob o discurso da sustentabilidade, da recuperação de espaços públicos ou da proteção do patrimônio histórico, o que se vê é uma lógica excludente: o embelezamento dos bairros vem acompanhado da expulsão sistemática de moradores de baixa renda e do apagamento de práticas populares como o comércio ambulante ou a ocupação informal. O convênio com a Airbnb gerou uma série de inconformidades, pois além das mudanças na convivência social, outras consequências esperadas são o aumento ainda maior no valor da habitação e o deslocamento dos moradores locais.

De acordo com o portal Inmuebles24, o preço de aluguel de apartamentos na Colonia Condesa passou de uma média mensal de 16.043 pesos em maio de 2021 para 26.740 pesos em maio de 2023 — um aumento de 66%. Projetos como o megacomplexo Mitikah, no bairro de Xoco, são exemplos concretos de como a cidade vem sendo redesenhada para atender a interesses empresariais. A resistência dos moradores, preocupados com o aumento do trânsito, da demanda por serviços e da especulação imobiliária, mostra que o conflito não é apenas sobre infraestrutura — mas sobre o direito de permanecer, de existir e de ser reconhecido.

Por sua vez, iniciativas como o “Bajo Puentes”, que buscavam transformar áreas sob viadutos em espaços comerciais e recreativos, ilustram as ambiguidades desse tipo de política urbana: ao mesmo tempo em que “dignificam” o trabalho informal, também operam uma higienização dos espaços, expulsando moradores de rua e outras presenças consideradas indesejáveis.

Frente ao desagrado da população local da capital, o Congresso da Cidade do México aprovou um projeto para regulamentar o serviço de estadia turística eventual oferecido por plataformas digitais, como o Airbnb. Essa reforma estabelece um coeficiente de ocupação máxima anual de 50% para unidades de alojamento registradas nessas plataformas, buscando frear a competição desleal com o setor hoteleiro tradicional e conter os efeitos da gentrificação agravados pelo turismo digital.

Vale lembrar que a maioria dos nômades vêm dos Estados Unidos e da Europa e trabalham remotamente para países que oferecem salários superiores aos níveis mexicanos. Com isso, os estrangeiros possuem um poder aquisitivo muito mais alto, o que faz com que as plataformas elevem os preços de aluguel por temporada, pois, para os viajantes, o valor aumentado ainda é vantajoso para eles, se comparados com o custo de vida em seus países natais.

Além disso, a legislação proíbe expressamente o registro e a oferta por meio dessas plataformas de imóveis destinados à habitação social e àqueles reconstruídos após o sismo de 2017, reforçando a proteção de moradias com finalidade social. Essa medida busca evitar que propriedades essenciais para moradores de baixa renda sejam convertidas em alojamentos turísticos, o que intensificaria o deslocamento e a escassez de moradia acessível.

Porém, a reforma é alvo de controvérsias: deputados da oposição alertam que ela pode ir contra a liberdade individual de uso da propriedade e questionam a efetividade da fiscalização, além de temerem que restrições possam fomentar mercados paralelos.

A gentrificação não é um processo neutro, nem inevitável. Ela carrega consigo vencedores e perdedores. E embora existam benefícios visíveis — como a recuperação de áreas degradadas —, é preciso perguntar: a quem serve essa transformação? A cidade, afinal, é para quem?

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