A maturidade de viajar por gêneros além do pop/rock— Como Belinda ainda se reinventa e se torna cada vez mais Indómita

Nesta última sexta-feira (6), a cantora e atriz mexicana Belinda lançou oficialmente “Indómita“, seu aguardado novo álbum de estúdio. O projeto marca o primeiro disco completo da artista em 12 anos, desde Catarsis (2013), e simboliza um renascimento artístico repleto de força, liberdade criativa e principalmente resgate das suas origens. 

Com 17 faixas, Indómita é uma obra multifacetada que transita com ousadia entre o pop, o regional mexicano, o trap latino, o reggaeton e o rock. O título — que significa “indomável” — sintetiza com precisão a essência do projeto: uma celebração da força emocional, da liberdade criativa e da jornada pessoal vivida pela artista nos últimos anos.

“Cada música representa um processo de cura. Este álbum é muito meu, muito íntimo, fala sobre o que eu vivi”, disse a cantora para Rolling Stones México, nesse retorno triunfal ao mundo da música.

Belinda passa por um amadurecimento, saindo de faixas que eram Pop/Rock para sua reconexão com novos gêneros, explorando e desenhando diversos em seu novo álbum. 

Entre os grandes destaques do álbum estão as colaborações com alguns dos nomes mais influentes da música latina contemporânea. Natanael Cano, Tito Double P, Kenia OS, Xavi, Alemán, Tokischa, Mala Rodríguez e até a banda norte-americana Thirty Seconds to Mars unem forças com Belinda em faixas que ampliam o alcance do projeto e reforçam sua ambição global.

Primeiro bloco do disco, que abre com “Cursi D+”, demonstra vocais intactos e uma viagem pelo interior do México , e tem apenas uma síntese de guitarras, violões e sintetizadores de fundo, além de pequenas inserções de trombetas mexicanas, criando um ambiente para que Belinda entregue a emoção em seu vocal para uma triste canção de amor.

300 Noches com Natanael Cano traz o famoso “corrido tumbado” (O gênero “corrido” é uma forma de música tradicional mexicana que, no essencial, é uma balada narrada, frequentemente em versos e métrica, que conta histórias de heroísmo, luta e aventura) que o próprio álbum tinha prometido, o visual intacto remete a dor da letra a resolução final da história contada, uma proposta ambiciosa de juntar duas vozes de gêneros diferentes a uma gostosa música para escutar em um luau com mezcal.

A escrita de “Aries” é muito bela, fazendo referência ao deus da guerra que dá o nome à faixa — que é belo e imponente mas morre em pouco tempo por conta da sua ira, assim como a vida de popstar. A voz da cantora é fenomenal em toda a canção e emociona por si só.

A faixa também explora as tentativas da protagonista de lidar com a dor da separação por meio de festas e distrações efêmeras. Em sua narrativa, ela menciona o consumo de álcool e os momentos de dança como formas de amenizar o sofrimento causado pelo término, embora admita que tais esforços se mostram ineficazes. A referência a músicas de outros artistas, como o Grupo Frontera e a faixa Soltera, indica uma busca por identificação e consolo em composições que retratam vivências semelhantes de amor e perda.

Já em “Mírame Feliz (Part Xavi)”, ela conseguiu abusar do alcance mais emocionantes, seu tom soprano sobre notas soltas de Guitarrón —  violão baixo de seis cordas, sem trastes, que fornece a base harmônica e rítmica da música mariachi) —, além de, novamente, trazer as trombetas mexicanas para o instrumental. Xavi com sua voz mais jovial, atinge seu pico mais emotivo, e nos entrega esse presente!

“Never Not Love You (Part Thirty Seconds to Mars)” relembrou e até me deixou saudades das suas eras “Utopía” ”Carpe Diem”. e algo que parecia tão complicado, e difícil de dar certo, a parceria pelas referências religiosas e espirituais que são utilizadas, como fusão de tradições indígenas, catolicismo e práticas de cura modernas, com forte influência de xamanismo e práticas de conexão com a natureza e também a frase “O amor é a energia que flui entre as almas, unindo-as em uma dança eterna de luz e sabedoria” do tarô de Osho.

Sempre fui fã do trap que o Alemán entregava antes de fazer um dueto com Belinda, e agora eu estou completamente apaixonada, rezando para que eles se encontrem mais e mais vezes! “Rayo Mcqueen” é uma faixa que traz mais uma bela mistura de ideias e sonoridades, como trap latino e o pop.

Quem acompanha a cena regional com toda certeza sabe que Tito Double P é como se fosse o Enrique Iglesias da geração quando se fala de números de ouvintes e reproduções. “La Cuadrada” funciona muito melhor do que se pode imaginar, ainda mais por Gloria Trevi ser uma clara influência no disco pela mistura de sonoridades dissonantes, segundo a mesma relatou na entrevista para a Rolling Stone México.

Em “LA MALA” temos um trap com trombetas mexicanas mais graves para entregar um hit de um pouco mais de 2 minutos. Com certeza, top 5 músicas que eu mais gostei da carreira de Belinda Peregrín.

“DEATH NOTE” faz referências aos animes japoneses, como Belinda, que frequentemente expressa sensualidade pelo tom de voz. Além disso, o show de visuais disponibilizados em streamings de música, conseguem deixar a música tão bem melhor, principalmente se tratando da mistura de pop com o corrido. Nos visuais das plataformas de streaming, ela faz uma referência ao quadro de Frida Kahlo “Las Dos Fridas”, que é um autorretrato que simboliza a dualidade da identidade da artista e a dor da sua separação de Diego Rivera. 

Já em “Silvana”, vemos a sua influência europeia — Belinda é espanhola, e a relação que ela estabelece com o velho continente através dessa letra forte, com muita também ao folclore nos seus visuais de música, significamente representativo, com uma poderosa declaração de independência e superação emocional. A letra retrata a libertação de um relacionamento tóxico, no qual a protagonista finalmente rompe as correntes que a mantinham presa. O sentimento de alívio e empoderamento transborda quando ela revela que se sente bem ao ignorar quem a feriu, deixando claro que não é mais a mesma — agora, mais forte e consciente do seu próprio valor.

“+ Perra + Bitch (Part Neton Vega)” talvez seja a faixa seja o único reggaeton mais próximo do padrão que escutamos como Karol G, Ivy Queen e até mesmo Bad Bunny, e ainda assim é uma das tracks mais divertidas de todo o disco. Essa dualidade simboliza a complexidade das personalidades humanas, especialmente em contextos sociais nos quais as pessoas se sentem livres para revelar diferentes facetas de si mesmas. A música, nesse sentido, torna-se uma ode à liberdade de ser — sem medo de julgamentos. 

Para mim o grande acerto e real beleza do presente álbum sobrevive na imperfeição dos elementos. “Wet Dreams (Part Tokischa)” traz fragmentos de vozes, principalmente da Tokischa, ícone feminino do gênero urbano, principalmente a força de rima que as duas se encaixam, batidas inexatas e atravessamentos que pintam com incerteza a experiência do ouvinte. 


Com uma letra e uma dura crítica ao sistema cisgenero e a masculinidade tóxica, “Heterocromía” — termo usado para explicar a condição em que os olhos de uma pessoa têm cores diferentes, seja um olho de uma cor e o outro de outra cor, ou então, um mesmo olho com distintas tonalidades. Na nova faixa, Belinda rompe com o ex-parceiro e a imagem idealizada que ele tentou impor, reafirmando sua autonomia e autenticidade. A letra traz um recado claro: as aparências podem ser enganosas, e o verdadeiro valor está na essência. Com vocais marcantes e composição contundente, a cantora propõe uma reflexão sobre a superficialidade nas relações e reforça a importância de viver de forma genuína.

Impressionante como a Kenia OS consegue destoar todas as colaborações que ela participa e tornar tudo em um som genérico e batido. “JACKPOT” única faixa do álbum que, para mim, deixou a desejar, e não consigo extrair algo positivo da colaboração das duas. Mesmo sendo um pop latino que poderia entregar bastante qualidade, ainda faltou algo para ser realmente boa. 

Sou suspeita para falar da vida e obra de Mala Rodriguez, porque, no último ano, tive o prazer de entrevistá-la e estar presente no seu show no Brasil. Em “Van Gogh”, as duas vozes que se casaram e se complementam de uma forma doce, leve e amena. Uma típica música para dedicar a alguém. Mala Rodriguez que é conhecida por ser uma figura muito simbólica no Hip-Hop latino, a música também soa ao Flamenco Cigano – O flamenco é uma manifestação artística que combina música, canto e dança, com a música e o canto sendo particularmente influenciados pelos ciganos. 

Encerramos com “Cactus”, o lead single. Belinda, apresenta uma composição pessoal, com uma dedicação especial a um relacionamento famoso do passado. Contudo, não é só isso. Sonoramente, a artista mostra uma faixa bastante alinhada com as tendências musicais atuais se formos comparar com o que o México consome atualmente nas listas de Grandes Sucessos, provando que consegue tramitar no famoso Regional Méxicano e no Pop/Rock.

Indómita, é um show de composição que preserva traços da identidade criativa da cantora, porém, partindo de uma abordagem totalmente reformulada, explorando gêneros, cores, com uma proposta audiovisual que deixa ainda mais interessante.

Disponível em todas as plataformas digitais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *