Cancionera: o teatro sonoro da alma de Natalia Lafourcade

Em Cancionera (2025), Natalia Lafourcade mergulha ainda mais fundo em sua busca pelas raízes da canção latino-americana. Mas ela, que é uma intérprete que entende a música como ritual, cena e memória viva, está longe de repetir fórmulas. A sofisticação melódica e a coesão emocional de De Todas las Flores (2022), seu disco anterior, ficou para trás e Lafourcade opta agora por uma estética deliberadamente imperfeita, guiada pelo improviso, pela teatralidade e por um simbolismo místico. Trata-se menos de um álbum no sentido convencional e mais de uma travessia sonora encenada, onde cada faixa é uma aparição — ora delicada, ora perturbadora — da figura multifacetada da cancionera.

Gravado em fita analógica e com todos os músicos reunidos no estúdio, o disco assume a imperfeição como linguagem. Lafourcade e o produtor Adan Jodorowsky constroem uma sonoridade que remete aos estúdios antigos e aos musicais em película, com intervenções cênicas que simulam a vivência de um espetáculo ao vivo. Risos, falas, ruídos de festa e palmas invadem faixas como “El Paloma y La Negra” e “El Coconito”, rompendo a ilusão do áudio polido para trazer a presença física da performance. O ouvinte não apenas escuta, ele presencia. A maior virtude do álbum está justamente aí: em seu som orgânico, que nos transporta diretamente para dentro de um teatro, como se estivéssemos diante de uma peça encenada em tempo real, compartilhando o mesmo espaço da artista e dos músicos.

A própria figura da cancionera funciona como um alter ego de Lafourcade: uma mulher que canta pelo mundo como quem lança feitiços. Não à toa, a artista associa essa persona à figura da bruxa — não a mulher perseguida e silenciada dos contos antigos, mas uma curadora, uma chamana que conjura emoções, memórias e libertações por meio da arte. Essa dimensão aparece com força em “La Bruja” e “Luna Creciente”, faixas que operam em um clima cerimonial, com letras simbólicas e arranjos densos, assumidamente conectados ao misticismo do son jarocho, gênero musical de Veracruz, terra natal da cantora.

E, aliás, falando nesse estilo musical, a faixa “El Coconito” é uma regravação de um clássico de son jarocho veracruzano escrito por Lorenzo Barcelata, e lançado por Guty Cárdena em 1928 — há quase 100 anos!

A faixa-título, “Cancionera”, impacta pela duração, mas também pela intensidade teatral dos arranjos que desafiam a lógica efêmera do consumo musical contemporâneo. Já “Mascaritas de Cristal” revela uma Natalia irônica, quase sarcástica, que desmonta egos com versos mordazes e atuação vocal afiada, enquanto “Cocos en la Playa” traz leveza e bom humor, celebrando o descanso e o cotidiano popular como também parte da poesia da vida, em uma tentativa de se aproximar à realidade do ouvinte comum.

Apesar da força simbólica e performática, o disco sofre com certa desorganização emocional. O contraste entre momentos festivos e dançantes e de letras entre uma faixa e outra dá ao conjunto uma sensação de desconexão, que pode confundir quem busca uma linha narrativa mais clara. Isso se torna algo a pontuar porque Cancionera, como já mencionado, soa, em muitos momentos, como uma peça teatral em áudio — com direito a falas, aplausos, risos e ruídos de bastidor. A atmosfera de teatro ao vivo, construída com tanto cuidado técnico e artístico, clama por uma coesão dramatúrgica que não se concretiza. Como em qualquer boa encenação, a ordem dos atos — ou, neste caso, das faixas — poderia guiar o ouvinte por uma jornada emocional mais precisa, em que os diferentes estados de espírito da intérprete se encadeassem com propósito. Teria sido ideal reorganizar o disco para criar uma progressão emocional mais coerente, reforçando o caráter narrativo da obra. Ainda assim, essa falta de unidade estrutural não compromete a beleza das performances individuais: Lafourcade segue impecável em timbre, emoção e domínio técnico, sustentando cada canção como um quadro isolado de alta expressividade.

No fim das contas, Cancionera não busca inovação sonora, mas presença — é nesse território entre o feitiço e a performance, entre o rádio-teatro e a praça popular, que Natalia Lafourcade se revela como uma voz que vai além do simples ato de cantar: ela interpreta, sente, provoca e transforma em sua forma mais inteira. A cantora mostra, mais uma vez, que é dona do posto de “cancionera” da América Latina, papel que vem desempenhando com maestria há quase uma década, com o resgate da memória musical folclórica do continente.























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