Com Tropicoqueta, Karol G mostra que é capaz de ir além, mas se perde um pouco em meio ao excesso

Em Tropicoqueta, novo álbum de estúdio de Karol G, a artista colombiana demonstra que está disposta a expandir seus limites criativos e sonoros, ainda que a execução ainda se mostre um desafio. 

Ao longo de 20 faixas que passeiam por diversos ritmos, a cantora traz colaborações marcantes — como a participação da lenda mexicana Marco Antonio Solís — e ainda recebe uma espécie de bênção simbólica de Thalía, que abre o disco com um interlúdio. Nesse projeto musical, Karol G se propõe a sintetizar a diversidade rítmica da América Latina, entregando canções que falam sobre empoderamento, paixão, orgulho e vingança.

A faixa de abertura é Ivonny Bonita. Nela, Karol canta sobre uma personagem feminina cheia de atitude e sensualidade: Ivonny. Com interpolação de Be My Lover do grupo alemão La Bouche, a faixa é uma espécie de R&B latino, que mistura elementos do reggaeton com uma pegada tropical, dando o tom de um disco que pretende celebrar, entre tantas coisas, as múltiplas facetas da mulher latina. Ivonny não pede permissão; ela comanda a narrativa com firmeza e desejo, tornando-se símbolo de uma mulher que domina sua própria história.

Com produção de Ovy on the Drums, parceiro de longa data de Karol G, Papasito — que parece ser a grande aposta da cantora para conquistar os charts internacionais — acaba se destacando pelos motivos errados. A música aposta em uma sonoridade dançante, com base em tecno-merengue e uma letra em spanglish que alterna entre frases de flerte e declarações rasas. Ao tentar dialogar com diferentes públicos, Papasito acaba perdendo força e clareza, deixando a impressão de uma artista dividida entre o desejo de experimentar e a pressão de emplacar um hit global. 

Na sequência, LATINA FOREVA e Dile Luna (esta última em colaboração com Eddy Lover) mantêm o ritmo, mas não acrescentam muito ao que já conhecemos de Karol G. Embora LATINA FOREVA apresente interpolações interessantes de “Dile” (Don Omar) e “Oye Mi Canto” (N.O.R.E com Nina Sky, Daddy Yankee e Gem Star), as faixas acabam soando como variações de fórmulas já exploradas em trabalhos anteriores da artista. A sensação é de déjà vu: refrões fáceis, beats familiares e narrativas que orbitam os mesmos assuntos de sempre — amor, orgulho latino e independência feminina — mas sem a mesma força ou inovação que marcaram hits anteriores. 

Cuando Me Muera Te Olvido é a primeira faixa de Tropicoqueta que realmente chama a atenção. Com um sample de um clássico de George Michael, a música combina elementos de cumbia com batidas eletrônicas, criando uma atmosfera que se aproxima do que Karol G já havia feito em Amargura, de seu projeto anterior Mañana Será Bonito. Embora tampouco traga grandes inovações, é uma canção muito bem construída dentro da proposta do álbum.

Então, chegamos a Coleccionando Heridas, uma balada envolvente e melancólica com o mexicano Marco Antonio Solís — conhecido pelo clássico ¿A Dónde Vamos a Parar?, parte da trilha sonora da novela Teresa (Televisa, 2010). Com uma letra marcada por desilusões amorosas e uma pegada romântica clássica, a faixa ganha força na combinação das vozes, se mostrando uma parceria soa natural e bem equilibrada, sem exageros. É uma das faixas mais bem resolvidas do disco, e se destaca justamente por apostar na simplicidade e no carisma dos dois artistas. 

Infelizmente, o mesmo não pode ser dito de Un Gatito Me Llamó, que vem logo em seguida. Nesse ponto do álbum, começa a ficar evidente um padrão cansativo: para cada duas faixas interessantes, surge uma que soa como puro filler — sem função clara dentro do conceito do disco e sem relevância musical na trajetória de Karol G. Repetitiva e pouco inspirada, a música transmite uma sensação de descuido, como se tivesse sido incluída apenas para preencher espaço. Com letra fraca e produção genérica, Un Gatito Me Llamó é um dos momentos mais esquecíveis do projeto.

Amiga Mía, parceria com a colombiana (e adorada por mim) Greeicy, é uma das boas surpresas do álbum. Assim como Coleccionando Heridas, a faixa se destaca pelo equilíbrio entre letra, produção e a harmonia entre as vozes das duas artistas. O dueto funciona com naturalidade, transmitindo cumplicidade e emoção. Em determinado momento, no refrão, a estrutura da música remete sutilmente à clássica Amiga Mía de Alejandro Sanz — talvez um guiño intencional, ou apenas coincidência. De todas as formas, é uma das faixas mais bem construídas do disco e certamente figura entre seus pontos altos. 

Bandida Entrenada, um funk em português, é outro dos grandes trunfos de Tropicoqueta. Escrita por Karol G ao lado de vários colaboradores — entre eles WIU, jovem rapper de Fortaleza — e produzida pelo duo Tropkillaz, a faixa se destaca pela batida envolvente, pela letra ousada e pela forma como Karol transita com certa naturalidade e fluídez pelo ritmo e pelo idioma. Ainda não se sabe se a música integra o projeto de álbum de funk que Karol chegou a mencionar em 2023, durante a promoção do remix latino de Tá OK, onde ela teve um verso próprio e chegou a performar no VMA. Mesmo assim, Bandida Entrenada se impõe como uma das faixas mais divertidas e autênticas do disco, funcionando como um respiro rítmico e uma ponte interessante entre a música pop latina e a cena brasileira.

Encerrando a primeira metade do álbum — e, verdade seja dita, poderia muito bem servir como um desfecho definitivo para o projeto —, Ese Hombre es Malo surge como o ponto mais emotivo do projeto e, talvez, uma das interpretações mais intensas da carreira de Karol G. A grandiosidade de Ese Hombre es Malo não está apenas em sua interpretação intensa, mas também em sua construção musical meticulosa e ambiciosa. Gravada em Guadalajara, a faixa contou com a participação de 57 músicos — uma impressionante união entre mariachi tradicional e orquestra sinfônica — que resulta em uma sonoridade poderosa, quase cinematográfica.

Em entrevista à Billboard, Karol G revelou que Ese Hombre es Malo é uma das faixas mais fortes do álbum não só pela carga emocional que transmite, mas inclusive pela complexidade e cuidado envolvidos em sua criação. A cantora buscou inspiração na trajetória de Rocío Dúrcal, que, apesar de espanhola, foi amplamente celebrada como um ícone da cultura mexicana, e, sobretudo, em Juan Gabriel, especialmente em sua lendária apresentação no Palácio de Bellas Artes — um verdadeiro marco da música latino-americana. Como boa admiradora do cantor, Karol quis alcançar, com essa canção, um patamar semelhante de sofisticação e impacto artístico. E, nesse aspecto, a colombiana entrega exatamente o que se propôs.

Entretanto, após mais uma interlude, retornamos ao impasse já apontado anteriormente: para cada momento de brilho e inventividade no álbum, surge um outro que carece de propósito claro dentro do conceito proposto. Esse é o caso de uma sequência de faixas como Verano Rosa (com Feid), Tu Perfume, FKN Movie (com Mariah Angeliq) e Se Puso Linda. Todas mergulham no reggaeton, estilo no qual Karol é referência, mas que aqui aparecem novamente de forma previsível, repetindo estruturas, temáticas e sonoridades já exaustivamente exploradas por ela em trabalhos anteriores.

Apesar de pequenas variações entre si — seja em ritmo, com a junção de urbano com dembow em faixas como ‘Se Puso Linda’, colaborações ou atmosfera —, essas músicas acabam soando como mais do mesmo. As letras continuam orbitando os temas habituais de desejo, relacionamentos e empoderamento feminino, mas sem trazer novas perspectivas ou abordagens. A produção, ainda que tecnicamente bem-feita, não se destaca nem renova a estética do reggaeton que Karol já domina. O resultado é uma sensação de estagnação criativa no miolo do disco, onde faixas inteiras parecem preencher espaço mais do que construir narrativa.


Nesse mar de repetições, há um breve respiro: No Puedo Vivir Sin Él, um vallenato envolvente que resgata um dos gêneros mais tradicionais da música colombiana. A faixa celebra as raízes culturais de Karol G e adiciona identidade ao álbum, oferecendo um raro momento de autenticidade em meio à previsibilidade das faixas urbanas que a cercam. Ainda assim, acaba ofuscada e quase perdida entre essas músicas. Isoladamente, tem potencial para ser um dos destaques do disco, mas, dentro desse trecho pouco coeso, corre o risco de passar despercebida.

Seguindo para as faixas que encerram o disco, Viajando por el Mundo, parceria com o músico franco-espanhol Manu Chao, traz uma estrutura melódica e uma sonoridade praticamente idênticas às de Me Gustas Tú, grande hit do cantor que voltou a circular com força nas redes sociais recentemente. A faixa aposta na repetição leve e na vibe descompromissada, mas, sinceramente, não acrescenta muito ao conjunto da obra. Ainda assim, é o tipo de som que deve funcionar bem como trilha sonora para vídeos de viagem no Instagram e virais turísticos no TikTok.

Si Antes Te Hubiera Conocido, faixa mais popular do disco até agora, foi também a primeira amostra do projeto revelada ao público. O hit foi especificamente feito para o verão de 2024 e, desde esse primeiro momento, Karol mostrou que vinha com tudo. O merengue caiu no gosto do público de forma instantânea e ainda ocupa posições altas nos charts ao redor do mundo, com destaque especial para a América Latina.

Tropicoqueta, que dá nome ao disco, aparece como a última faixa da tracklist e sintetiza bem a proposta do álbum: uma fusão de ritmos tropicais, identidade latina e atitude pop contemporânea. Com um sample de Mambo No. 5, de Pérez Prado, a música encerra o disco de maneira eficaz, embora, pessoalmente, pareça mais adequada como faixa de abertura — tem energia e personalidade para isso.

No geral, Tropicoqueta é o trabalho mais coeso e conceitualmente bem construído da carreira de Karol G. A artista entrega um álbum que sabe onde quer chegar e, na maior parte do tempo, acerta o caminho. O que impede o disco de brilhar por completo é justamente o excesso: são 20 faixas que, embora consistentes, poderiam ter mais impacto se houvesse mais espaço para a pausa, para o respiro. Os momentos mais marcantes são aqueles em que Karol aposta na simplicidade e na sinceridade — é ali que sua força artística realmente aparece.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *