Em junho de 2025, a banda chilena Chico Trujillo retornou ao Brasil para se apresentar no festival de cumbia Sol y Sombra, em São Paulo. Com mais de duas décadas de trajetória, o grupo é um dos nomes centrais da chamada “nova cumbia chilena”, conhecida por romper com a estética tradicional do gênero no país. Em entrevista ao nosso site, os músicos falaram sobre a mistura de estilos, o processo criativo e sua relação com a cultura latino-americana e o público brasileiro.

A sonoridade particular da banda nasceu de forma natural, sem grandes planejamentos ou conceitos. “Acho que essa coisa da identidade e da mistura de estilos acontece porque desde o começo estamos tocando, tocando, estou falando de mais de 20 anos atrás, e tentando experimentar com temas originais, com temas tradicionais, mas que sejam fáceis de tocar para nós. Que não sejam uma luta, que a gente sinta que saem naturalmente.”, afirmou el “Zorra” (Sebastián Cabezas), trompetista da banda, em entrevista para o Exclamación.
As músicas autorais são, em grande parte, compostas por Macha e Tuto, mas passam pelas mãos de todos. “Fazemos um trabalho coletivo, tentando contribuir, e vamos vendo o que funciona e o que não. Mas acho que sempre tentamos manter a simplicidade porque assim tudo sai de forma mais natural e melhor.”
Segundo os músicos, a diversidade de referências também faz parte do DNA da banda. “Antes de tocar cumbia, tocávamos desde crianças punk rock, ou reggae, ou ska, alguns inclusive com música do mundo, e gostamos muito do estilo, e também fazemos outros tipos de música. Então, a mistura também é algo super natural.”
O papel na nova cumbia chilena
Nos anos 2000, o Chico Trujillo passou a ser identificado como um dos principais nomes de um movimento de renovação da cumbia no Chile. “O que acontece é que antes de nós já havia muitas bandas de cumbia, desde antes dos anos 60. Mas havia uma forma de tocar, e uma forma até estética de se vestir, de sonoridade, que é muito bonita, que é a tradição chilena.”
Para quem não conhece, o movimento conhecido como a Nova Cumbia Chilena surgiu no início dos anos 2000, quando jovens músicos começaram a reinterpretar a tradicional, que até então seguia padrões formais de big band e figurinos alinhados. Além do grupo, La Mano Ajena e Santa Feria passaram a valorizar arranjos mais simples e diretos, sem abrir mão da energia das trompetes e dos teclados que marcam a tradição local.
A banda propôs uma forma mais livre de apresentar a cumbia. “Começamos a fazer simplesmente como queríamos fazer. Não demos tanta importância à vestimenta e tocamos a coisa de forma simples, do jeito que sai bem pra nós. E acho que fomos a primeira banda de músicos jovens a fazer isso.”
Uma banda latino-americana
Mesmo reconhecendo uma certa distância histórica do Chile em relação ao restante do continente, os músicos se veem como parte de uma identidade latino-americana ampla. “Somos uma banda latino-americana e fazemos folclore latino-americano. E esperamos, com humildade, que estejamos contribuindo também para o folclore latino-americano, e nos sentimos completamente latino-americanos.”
Eles observam que esse sentimento se intensifica fora do país. “Acho que o chileno não é muito latino-americanista, talvez. Se vê um pouco distante, talvez por conta da cordilheira, do deserto. […] Mas quando você sai do Chile, viaja e conhece outros lugares, percebe que somos muito latino-americanos também. E principalmente na música.”
Além do aspecto artístico, o Chico Trujillo vê no fazer musical uma forma de resistência aos padrões de consumo e isolamento que se intensificaram com a pandemia. “As pessoas ficaram muito cômodas com a ideia de controle pandêmico, de pedir tudo em casa e nem ir a um restaurante comer algo, um sanduíche”. Para el Zorra, isso não é natural para o ser humano e nem para a mínima dignidade humana porque os indivíduos deveriam poder se encontrar com os outros, conversar sobre o que está acontecendo, celebrar.
Relação com o Brasil
Apesar das diferenças linguísticas e culturais, o Brasil ocupa um lugar especial na trajetória da banda. “A gente adora, adora. No começo era algo muito distante. Mesmo estando muito perto, é muito distante porque é uma cultura muito regionalista, muito Brasil é Brasil e só com Brasil.”
A conexão musical, no entanto, sempre esteve presente. El Zorra menciona a banda Paralamas do Sucesso, o samba e a bossa nova como referências de respeito para o grupo, além da admiração pela forma que o Brasil consome música. E concluem: “Isso é algo muito respeitável, algo que deveríamos — não sei se copiar ou imitar — mas é claro que há um espírito muito livre, muito aberto. E isso a gente adora.”
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