Tex-Mex não é México: o dia em que o burrito frito te enganou

Taco em forma de canoa, chilli com carne e feijão, burrito frito, nachos cobertos com queijo amarelo derretido e uma dose generosa de sour cream. Se você acha que tudo isso veio direto da abuelita mexicana… é melhor repensar. Esses pratos são tão mexicanos quanto um rodeio texano: têm DNA do sul dos Estados Unidos e um tempero de confusão cultural.

A mistura faz sentido (e tem história). O Texas foi território mexicano até 1836, e só em 1845 foi anexado aos EUA. De lá pra cá, a influência da cultura estadunidense sobre os Tejanos (texanos de origem mexicana) passou também pelo fogão. O resultado? Uma culinária híbrida, picante, reconfortante, e cheia de queijo, que foi batizada de “Tex-Mex”.

O nome, aliás, não nasceu como elogio. Foi a escritora britânica Diana Kennedy quem cunhou o termo nos anos 1970, ao publicar o livro The Cuisine of Mexico. Para ela, os pratos texanos eram “inautênticos”. Mas o que era pra ser crítica virou marketing: a Tex-Mex ganhou o mundo com redes como Taco Bell e Chipotle — e convenceu uma geração inteira de que tacos sempre vêm em formato de barquinho crocante.

Mas e a verdadeira comida mexicana? Essa sim, tem pedigree milenar.

Estamos falando de uma cozinha que nasceu muito antes dos Estados Unidos existirem no mapa. O milho é o grande protagonista, cultivado desde 8.000 a.C. e tratado com a tradicional técnica de nixtamalização — um processo ancestral que transforma o grão em tortillas macias, base dos autênticos tacos e quesadillas. O abacate (alô, guacamole!), as pimentas secas ou frescas, e o coentro também têm presença marcante, compondo uma paleta de sabores complexa, mas equilibrada.

E o queijo? Enquanto a Tex-Mex se derrete em cheddar e afins, o México prefere os brancos e suaves: panela, Oaxaca, ricota e queijo de rancho. Já o cominho, estrela da Tex-Mex, é quase figurante na cozinha mexicana, que prioriza os chiles variados e cozimentos longos e perfumados.

Na proteína, a influência europeia aparece: o consumo de carne bovina cresceu após a colonização espanhola, mas em boa parte do país predominam o porco e os pescados. Um exemplo clássico é o querido taco al pastor — suculento, barato e vendido nas esquinas, com carne de porco marinada e abacaxi.

No fim das contas, a Tex-Mex não é uma farsa — é só outra história. Uma que nasceu da fusão cultural, da adaptação, da sobrevivência e, claro, do gosto americano por queijo em excesso.

Se não é México? Não. Mas que é gostoso, é. Então, entre um totopo artesanal e um nacho com cheddar radioativo, que tal celebrar as diferenças com o estômago — e o senso crítico — bem abertos?

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