Um som pesado, dançante, com letras que falam da realidade das quebradas. O RKT, novo gênero musical nascido nas periferias do Conurbano Bonaerense, na Argentina, já acumula milhões de reproduções nas plataformas digitais — mas ainda enfrenta o olhar atravessado da crítica e de setores mais conservadores da sociedade. Fruto da fusão entre cumbia e reggaeton, o RKT cresce como expressão popular urbana e atrai o interesse da indústria musical, que enxerga no gênero uma potência comercial.
Uma criação das ruas
O RKT é parte da chamada “música urbana” argentina, ao lado de subgêneros como o “turreo” e a “cumbia 420”. Para compreendê-lo, é preciso olhar ao mesmo tempo para as ruas da Grande Buenos Aires e para as batidas da América Central. O estilo começou a se formar em 2011 no lendário “Rescate Bailable”, uma casa noturna em San Martín, zona norte da capital argentina. Lá, DJs como Pirata, KBZ@ e Toty Style iniciaram a remixagem de cumbias com batidas mais densas, inaugurando um som que ainda não tinha nome, mas já agitava as pistas.
Mesmo com o fechamento do Rescate em 2014, o movimento seguiu vivo com os frequentadores do local, muitos dos quais hoje são protagonistas da cena. Durante a pandemia, o gênero explodiu em festas clandestinas. Hits como “El Golozo”, de Mambo DJ, e “Esa nalga brinca”, de Thomy DJ, antecederam o lançamento de “L-Gante RKT”, música que consolidou o nome do gênero e marcou a virada de DJs para produtores de batidas com vocais originais.
Voz do bairro
As letras do RKT falam da realidade crua da vida nos bairros populares: drogas, festas, desejo, violência policial e identidade periférica. Trazem uma rebeldia semelhante à da cumbia villera e do reggaeton das antigas. As músicas também exaltam a lealdade entre amigos — os “ñerys” — e o sentimento de comunidade. DJ Alan Gómez, um dos nomes mais populares da cena, chegou a inserir trechos icônicos do reggaeton clássico, como uma frase de Don Omar, em produções do novo gênero, resgatando a memória coletiva do som urbano latino.
Um gênero em expansão
Apesar de ainda não ter alcançado a internacionalização do trap argentino — que se promove como “for export” — o RKT já faz barulho em outras periferias do continente, como nas favelas de Santiago, no Chile, onde começam a surgir artistas locais inspirados no estilo. Na Argentina, é raro o RKT tocar em bairros de elite como a Recoleta, mas seu domínio nos bailes e nas caixas de som dos carros nas ruas é inegável.
Nomes como Callejero Fino, La Joaqui, El Noba, Alejo Isaak, Kaleb Di Masi e Lauty Gram são alguns dos artistas mais conhecidos. Entre os DJs, Alan Gómez, Gusty DJ e DJ Alex lideram as pistas. Em 2023, o gênero lançou seu primeiro álbum oficial, “Hagan Caso”, de Callejero Fino, acompanhado de um documentário sobre a gravação — um marco na consolidação do RKT como um movimento cultural em ascensão.
Entre o estigma social e o interesse da indústria, o RKT segue seu caminho como uma das manifestações mais autênticas da juventude das periferias argentinas. Seu futuro, como seu som, é impossível de ignorar.
