A prisão de Nicolás Maduro em território norte-americano, no sábado, 3 de janeiro de 2026, marcou uma inflexão decisiva na crise venezuelana e ajuda a explicar por que Washington optou por negociar diretamente com Delcy Rodríguez. Diferentemente de um colapso abrupto do regime ou de uma ruptura institucional visível, os acontecimentos indicam uma operação cuidadosamente administrada, baseada em cálculo político e negociação de poder.
A ausência de caos imediato, de confrontos militares ou de colapso da cadeia de comando sugere que a retirada de Maduro do poder ocorreu dentro de um arranjo previamente assimilado pelas principais estruturas do Estado venezuelano.
A reconfiguração do poder após a saída de Maduro
Até o dia 3 de janeiro, a estrutura de poder na Venezuela estava organizada em quatro grandes polos: Nicolás Maduro e seu entorno familiar, Diosdado Cabello, o ministro da Defesa Vladimir Padrino López e o eixo político formado por Delcy e Jorge Rodríguez. Com a retirada de Maduro do cenário, a partir de 4 de janeiro, esse arranjo foi reduzido a três polos reais de poder: os irmãos Rodríguez, Cabello e Padrino López.
A saída do presidente não provocou uma implosão do sistema, mas sim um enxugamento do núcleo decisório, concentrando ainda mais o poder nos atores que já controlavam as principais engrenagens políticas, institucionais e militares do país.
Com Maduro preso, seu núcleo familiar passou a atuar em posição defensiva. Seu filho, Nicolás Maduro Guerra, e parentes de Cilia Flores tentam agora articular um polo próprio para evitar um destino semelhante ao de Tareck El Aissami, ex-ministro do Petróleo afastado e politicamente neutralizado.

Sem o respaldo direto do antigo chefe do regime, essa tentativa enfrenta enormes dificuldades. A história recente do chavismo mostra que, uma vez isolado o líder central, seus aliados mais próximos tornam-se rapidamente descartáveis dentro da lógica interna do poder.
A leitura estratégica dos Estados Unidos
Do ponto de vista dos Estados Unidos, a prioridade nunca foi uma transição caótica. A administração de Donald Trump, com Marco Rubio à frente do Departamento de Estado, avaliou que qualquer transição minimamente viável exigiria negociação com um dos centros reais de poder do chavismo.
Negociar com o regime não era desejável do ponto de vista retórico, mas foi considerado inevitável do ponto de vista estratégico. O objetivo era evitar um vácuo de poder, garantir controle institucional e preservar capacidade de pressão política após a saída de Maduro.
Washington tentou, por anos, articular um acordo com Vladimir Padrino López. Enviados de Trump, tanto no primeiro quanto no segundo mandato, ofereceram a ele um papel central em um governo de transição após a saída de Maduro, em um modelo semelhante ao acordo costurado no Chile ao fim da ditadura de Augusto Pinochet.
Padrino, no entanto, não cumpriu os compromissos assumidos e acabou descartado como interlocutor confiável. O mesmo ocorreu com tentativas indiretas envolvendo Tareck El Aissami, que buscou se apresentar como alternativa por meio de seu principal operador financeiro, Samark López Bello. O governo norte-americano recusou a aproximação, considerando El Aissami excessivamente comprometido com o Irã e o Hezbollah, além de politicamente fragilizado.
Durante o interinato de Juan Guaidó, o cenário estrutural pouco diferia do atual. Apesar de planos avançados para forçar a saída de Maduro, os Estados Unidos não conseguiram convencer nenhum dos polos de poder do chavismo a liderar uma transição.
A oposição, por sua vez, não exercia controle sobre a Força Armada Nacional Bolivariana, o que inviabilizou qualquer mudança sustentada exclusivamente fora do regime.
O plano dos irmãos Rodríguez e a aceitação de Washington
O quadro começou a mudar no fim de 2025. Com mediação do Catar, Delcy e Jorge Rodríguez apresentaram a Washington um plano de transição que acabou sendo aceito. A proposta previa Delcy Rodríguez assumindo o Executivo como presidente encarregada, com Jorge Rodríguez na presidência da Assembleia Nacional como alternativa constitucional.
Com Maduro fora do jogo, Donald Trump tinha apenas três opções concretas: retomar negociações com Padrino López, dialogar com Diosdado Cabello ou fechar um acordo com os irmãos Rodríguez. As duas primeiras alternativas foram descartadas. A terceira foi considerada a única capaz de garantir controle, previsibilidade e continuidade institucional mínima.
A escolha não foi confortável. Delcy e Jorge Rodríguez são figuras centrais do chavismo e amplamente rejeitadas por setores da oposição. Ainda assim, para Washington, a questão central não era legitimidade moral, mas viabilidade política.
A prisão de Maduro representa um golpe estratégico. Embora a estrutura do regime permaneça intacta, o chavismo passa a operar sob ameaça direta, ciente de que os Estados Unidos demonstraram disposição para agir novamente.
Delcy Rodríguez governa sob dupla pressão. Internamente, é observada com desconfiança por Diosdado Cabello e Vladimir Padrino López, que sabem que a entrega de Maduro cria precedentes perigosos. Externamente, precisa cumprir compromissos firmados com Washington sob vigilância constante.

Esse equilíbrio instável ajuda a explicar o tom cauteloso de seus movimentos e discursos desde a prisão de Maduro.
Reações políticas e disputa de narrativas: qual o real interesse dos EUA na Venezuela?
No domingo, 4 de janeiro, o partido Vente Venezuela, liderado por María Corina Machado, convocou manifestações em diversos países da América Latina em defesa da “soberania popular e nacional”. Paralelamente, a TeleSUR denunciou ataques norte-americanos em Caracas e danos a infraestruturas de saúde, reforçando a disputa de narrativas em torno dos acontecimentos.

No mesmo período, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ironizou a possibilidade de eleições em curto prazo e afirmou que Washington negociaria com o chavismo, e não com a oposição. A declaração reforçou a percepção de que o foco da Casa Branca não é uma substituição imediata do regime, mas a gestão controlada do poder após a prisão de Nicolás Maduro.
No debate internacional, voltaram à tona comparações com a captura de Manuel Noriega, no Panamá, em 1990, e críticas às acusações de narcotráfico usadas contra Maduro. Durante anos, a principal imputação contra o ex-presidente venezuelano foi a de liderar o suposto “Cartel de los Soles”, apresentado como uma organização criminosa transnacional. No entanto, o próprio Departamento de Justiça dos EUA teria reconhecido que o cartel não existe como estrutura organizada, esvaziando a base narrativa da acusação que sustentou o enquadramento de Maduro como “narcoestado”.
A ausência de caos, de ruptura militar ou de convulsão social — muito embora o bombardeio tenha resultado em 80 mortos — e a manutenção do governo chavista após a prisão de Nicolás Maduro é, para muitos observadores, o indício mais claro de que se trata de uma transição pactuada. Não há épica nem libertação repentina, mas um rearranjo silencioso do poder, conduzido por negociações de bastidor e interesses estratégicos.
Esse reposicionamento mostra que o conflito esteve menos ligado à luta legítima contra o suposto narcotráfico e a uma possível oposição ao que eles consideram um regime ditatorial e mais à geopolítica regional. Parte dessa lógica envolve o controle do petróleo venezuelano, um dos maiores do mundo, e sua integração ao sistema de comércio global dominado pelo dólar. Talvez o objetivo imediato dos Estados Unidos não seria apenas o petróleo em si, mas a reincorporação da economia venezuelana aos circuitos financeiros dolarizados, enfraquecendo acordos com China e Rússia e preservando a centralidade do dólar no comércio internacional de energia.
Após a captura de Maduro, autoridades norte-americanas anunciaram planos para controlar indefinidamente as vendas de petróleo venezuelano, canalizando receitas por meio de contas e estruturas que favoreçam interesses comerciais e empresas norte-americanas, além de incentivar investimentos de grandes grupos petrolíferos nos campos venezuelanos degradados. Essa estratégia insere o país de volta nos circuitos financeiros dolarizados, reforçando a centralidade do dólar no comércio de energia e enfraquecendo possíveis acordos bilaterais de pagamento em outras moedas com China e Rússia, que haviam sido explorados por Caracas nos últimos anos.
No fim, os EUA só querem negociar o petrodólar sem empecilhos, mas isso abre um precedente perigoso para países da região: pela primeira vez, desde Salvador Allende, no Chile, em 1973, uma nação latino-americana tem o seu presidente removido do poder de forma violenta e escancarada pelos interesses estadunidenses. A soberania dos estados democráticos de direito pode estar abalada, dependendo das próximas ações de Donald Trump.
