Energia, atrevimento, transgressão, riffs de guitarra rápidos, vozes agressivas, som cru… Todas essas são características do movimento punk rock, geralmente associado a bandas dos Estados Unidos e Inglaterra do final dos anos 1970. Mas, você sabia que uma banda peruana da década de 1960, Los Saicos, já apresentava tudo isso?
Conhecidos por seu som agitado e rebelde, a formação original de Erwin Flores na guitarra, Rolando Carpio no baixo, César “Papi” Castrillón na bateria e Pancho Guevara nos vocais gerou os ainda desconhecidos pioneiros para o público geral.
Inspirados pelo rock ‘n’ roll e pelo garage rock americano, os Los Saicos desenvolveram um estilo único, mesmo sem intenção. Naquela época, a maioria das bandas de rock hispanas estava ocupada imitando o estilo dos grupos britânicos, como The Beatles, e cantando em inglês — ou versões em espanhol de grandes hits.
Porém, os Los Saicos não se encaixavam nessa tendência, uma vez que decidiram trilhar seu próprio caminho, optando por cantar em espanhol suas próprias composições — com exceção de apenas duas músicas em inglês que aparecem em seu repertório, “Come on” e “Lonely star”. Ao fugir desse padrão de imitação, acabou nascendo o que se chama “protopunk”, ou seja, a fase inicial do movimento.
Eles incorporaram elementos de surf music e garage punk em sua música, criando um som agressivo e enérgico que era completamente diferente da música popular peruana da época.
Em 1965, os Los Saicos lançaram seu primeiro e único álbum de estúdio, intitulado “¡Demolición!”. O álbum continha algumas das suas músicas mais conhecidas, incluindo o hit “Demolición”, que se tornou um hino do movimento punk latino-americano. As letras provocativas e atitude rebelde da banda desafiavam as normas sociais e musicais da época.
Nesse mesmo ano, a imprensa local reconheceu os Los Saicos como uma revelação musical devido às suas marcantes performances nas matinês de cinemas na cidade de Lima, que resultavam em cadeiras destruídas, além das suas aparições em programas de rádio e televisão da capital peruana.
Mas Los Saicos realmente criaram o punk rock?
Embora os Los Saicos não sejam geralmente considerados como parte do movimento punk original que surgiu no final dos anos 1970 no Reino Unido e nos Estados Unidos, com bandas como Ramones, Sex Pistols e The Clash, eles compartilhavam várias características.
Como exemplo, adotaram um som com estruturas musicais simples e letras provocativas. Seu estilo distinto de tocar guitarra, com riffs rápidos e agressivos e vozes dissonantes também tinha semelhanças com o som característico do punk que veio depois. Além disso, eles criaram músicas curtas e impactantes que transbordavam atitude, antecipando a estética e as marcas registradas do punk.
Porém, eles surgiram antes mesmo do termo começar a ser utilizado, já que se lançaram no mundo da música em meados dos anos 1960. Ou seja, embora os Los Saicos possam não ter sido reconhecidos como pioneiros do punk rock durante sua existência, sua música e atitude transgressora estabeleceram uma base sólida para o desenvolvimento posterior do gênero.
“Nunca na vida poderia imaginar que o que fizemos seria punk. Fizemos ‘protopunk’, não totalmente punk. Assim como Lucy era a antecessora da raça humana, nós éramos antecessores do punk”, diz Erwin Flores em entrevista para o Nosey, no especial “Was Punk Rock Born in Peru? – Los Saicos” [O Punk Rock Nasceu no Peru? – Los Saicos].
Don Letts, diretor de cinema britânico e considerado o principal nome na documentação do movimento do punk rock na Inglaterra, ao escutar “Demolición”, diz que “o punk está aqui. Está na atitude, nas letras […], eles têm a energia, a atitude, e algo para dizer. Isso funciona como punk para mim”.
Seu som enérgico, letras provocativas e atitude rebelde durante seus curtos anos de existência (de 1964 a 1966) os colocam entre os primeiros grupos a explorar esse território, deixando um legado duradouro na história da música, em especial para o rock no Peru e na América Latina.
