Rock em espanhol: a importância do gênero na América Latina

Recentemente, a plataforma de streaming Netflix lançou a série documental “Rompan Todo: A História do Rock na América Latina”, trazendo e homenageando os principais pilares do rock em espanhol do nosso continente.

A música foi extremamente importante para a região. Não apenas do ponto artístico, mas também quando se fala de cultura e política: o gênero foi transgressor e deu a voz para diversos artistas que se posicionaram em relação ao que acontecia nos países.

Para contextualizar, grande parte da história de formação do rock na América Latina é atravessada pelas ditaduras militares entre os anos 1960 e 1990. E isso influenciou, inclusive, nas letras.

Os primórdios do rock em espanhol

O rock foi criado nos Estados Unidos, na década de 1950. Sendo um gênero que veio de um país anglo-saxônico e que se popularizou, inicialmente, em países de fala inglesa — já que o Reino Unido também foi um grande produtor de roqueiros —, é impossível falar das músicas latinas do gênero sem fazer essa conexão.

O primeiro grande sucesso de rock em espanhol, inclusive, foi gravado, produzido e publicado nos EUA: La Bamba, de Ritchie Valens, lançada em 1958. O filho de imigrantes mexicanos que vivia em Los Angeles, na Califórina, além de começar o movimento, também foi muito importante na popularização da música latina no país.

Nessa época, porém, muitas canções tentavam seguir o padrão das músicas em inglês. Inclusive, eram feitas algumas simples traduções de letras para o espanhol. É o caso de “El Rock de la Cárcel”, dos mexicanos The Teen Tops, que é uma versão de “Jailhouse Rock” de Elvis Presley.

Com a chegada dos The Beatles e a febre causada pelo grupo na década de 1960, a busca por artistas que cantassem o rock em espanhol também aumentou. Afinal — algo que nós, brasileiros, entendemos bem —, não há nada como ouvir música no seu próprio idioma.

As bandas argentinas ​Los Gatos, Los Beatniks e Almendra foram especialmente importantes na época. Quanto aos solistas, vale a pena destacar Luis Alberto Spinetta — vocalista do Almendra —, Palito Ortega e Sandro, também argentinos. 

Aqui, também é essencial mencionar que essa forte presença da Argentina nos primórdios do rock em espanhol foi o que fez o país se tornar, hoje, a maior nação roqueira de toda a América Latina. Grande parte dos principais nomes do gênero partiram de lá.

O crescimento do folk rock

Uma característica muito importante para a formação da história do rock na América Latina e, inclusive, na Espanha, é a integração de elementos musicais dos gêneros folclóricos da região a partir do final dos anos 1960.

É o caso do grupo Los Jaivas, do Chile, cuja proposta era mesclar o que havia de principal do rock com instrumentos andinos — charango e flauta de pan, por exemplo. Já na Europa, as bandas Triana e Veneno trazem influências andaluzas e do flamenco.

O rock latino atravessado pela política e repressão na década de 1970

No final da década de 1960, o cenário da música em espanhol se viu tomando um rumo completamente diferente. O período foi marcado por mudanças políticas que, inclusive, geram efeitos até os dias de hoje nos países latino-americanos. 

Tudo começou no México, com a chamada Guerra Sucia. A forte repressão dessa “guerra suja” perseguia movimentos sociais e estudantis, chegando ao Massacre de Tlatelolco em 2 de outubro de 1968 — marco que seria homenageado pelos 43 estudantes de Ayotzinapa que desapareceram em 2014. 

O rock, por ser considerado subversivo, também foi perseguido. É nesse cenário que aparecem bandas como La Revolución de Emiliano Zapata. 

Los Dug Dug’s, El Ritual, Tinta Blanca, La Tribu, Los Yaki, División del Norte e Three Souls In My Mind também foram igualmente importantes e, inclusive, estiveram presentes no Festival de Avándaro, em 1971. Foi um marco para os roqueiros da época, apesar da constante tentativa de criminalizar o rock — os próprios meios de comunicação tentavam dar um tom pejorativo às notícias relacionadas ao evento.

O ciclo de repressão se espalhou por toda a América Latinca. O Chile, em 1973, sofreu um golpe militar que viria a derrubar o presidente Salvador Allende e colocar o general Augusto Pinochet no poder. Os principais grupos da época, assim como muitos cidadãos, se viram indo para a Argentina para expressar sua liberdade — especialmente em Mendoza, que fica próxima às terras chilenas. Os já mencionados Los Jaivas, inclusive, deixaram o país.

Isso não durou muito já que a Argentina, em 1976, também sofreu um golpe militar. Sendo essa uma das mais repressivas de todo o continente, ficou difícil para a permanência das bandas no país. Mesmo seguindo o sucesso de forma underground, muitos músicos preferiram se exilar na Espanha até o término do período ditatorial.

Alguns dos principais nomes argentinos da época foram Charly García (Sui Generis/Serú Girán), Gustavo Santaolalla (Soluna), León Gieco, entre outros.

A internacionalização do rock em espanhol nas décadas de 1980 e 1990

Com a influência do punk, do progressivo e do new wave, os anos 1980 foram essenciais para a internacionalização do rock em espanhol. Ainda sentindo os reflexos da ditadura, no Chile é formado o grupo Los Prisioneros, que entoaram um dos maiores hinos da juventude do país, “El Baile de Los Que Sobran”.

O México — um dos maiores palcos de bandas roqueiras na América Latina — viu o surgimento de Caifanes, El Tri e Maldita Vecindad. 

Já a Argentina se consagrou, novamente, como um dos grandes centros de formação de músicos do gênero: além da popularização de Andrés Calamaro, de Los Abuelos de la Nada, Fito Páez e Enanitos Verdes, o país foi responsável pela fundação da considerada maior banda de rock em espanhol de todos os tempos: o Soda Stereo.

Com os vocais e guitarra de Gustavo Cerati, baixo de Zeta Bosio e Charly Alberti, o grupo foi essencial para a difusão do gênero. “De Música Ligera” (1990), inclusive, é emblemática e tida como um dos maiores hinos entre os roqueiros hispanos. Aliás, a música tem uma versão em português cantada pelo Capital Inicial, chamada “À Sua Maneira”.

Todo o movimento anterior foi importante para levar o rock para países onde a cena ainda era razoavelmente fraca. É o caso da Colômbia, que viu no final dos anos 1980 um aumento expressivo de bandas nacionais, vindos especialmente de Medellín e Bogotá. É o caso do heavy metal do Kraven e o thrash do Ekhymosis — que tinha Juanes em sua formação original.

Entre os colombianos, porém, o maior destaque fica para Aterciopelados, um duo de  Andrea Echeverri e Hector Buitrago. Com “Florecita Rockera” e “Bolero Falaz”, ambas de 1995, os músicos chegaram à popularidade em vários países da América Latina.

Esse aumento da procura do rock na Colômbia, inclusive, foi importante para a formação musical de artistas como Shakira — que teve um início de carreira bastante influenciado pelo gênero.

O crescimento do rock alternativo e as fusões de ritmos

Os anos 1990 trouxe consigo a era grunge nos Estados Unidos, influenciando também o som que era feito nos países latino-americanos. 

E, com a ascensão do chamado rock alternativo, o México ganhou ainda mais protagonismo com suas bandas, principalmente por conta da fundação do Maná e do Café Tacvba — que até hoje são extremamente influentes na cena. Outras formações importantes foram o Molotov, Zoé, Santa Sabina e a cantora Julieta Venegas. 

Já na Argentina, surgiram Los Pericos, Babasónicos, Los Fabulosos Cadillacs e Los Auténticos Decadentes, todos muito inspirados pela nova onda do ska — ritmo jamaicano dos anos 1950. Seguindo esse mesmo conceito, também surgiram os uruguaios No Te Va a Gustar e La Vela Puerca.

Com a virada dos anos 2000, cada vez mais os grupos se empenharam em trazer fusões que deixassem o rock ainda mais diverso. O duo argentino Miranda! traz elementos de rock com eletropop, a chilena Mon Laferte faz músicas que conversam com o folclore tradicional latino-americano, blues e bolero, enquanto o uruguaio Jorge Drexler tem um estilo mais acústico.

Gostou de conhecer o rock em espanhol? Leia um pouco mais sobre outros gêneros hispanos, como a bachata!

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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