43 de Ayotzinapa: entenda o que aconteceu no Massacre de Iguala, no México

Em 26 de setembro de 2014, 43 estudantes desapareceram na cidade de Iguala, no México, após serem perseguidos e atacados pela polícia local. Seis anos depois do caso Ayotzinapa que mobilizou todo o país em busca de justiça contra a violência institucional, apenas três corpos foram encontrados e identificados.

Até hoje, não há explicações concretas sobre o que aconteceu e quem foram os culpados. A versão oficial do governo do ex-presidente Peña Nieto foi desbancada e o caso evidencia uma grande problemática na sociedade mexicana: segundo a Anistia Internacional, o país conta com mais de quarenta mil desaparecidos, sendo muito deles envolvidos em contextos de narcotráfico ou ações governamentais. 

Onde estão os 43 de Ayotzinapa?

Linha do tempo do Massacre de Iguala

  • Antecedentes

As Escolas Normais são um projeto social instaurado no México depois da Revolução Mexicana, em 1920, que tem como objetivo formar líderes comunitários regionais. Ali se aprende não apenas o currículo básico, mas também a ter pensamento crítico, política, organização de movimentos, etc. 

Inclusive, em uma época houve a tentativa de derrubá-las, sob o governo de Gustavo Díaz Ordaz Bolaños, na década de 1960. Muitas foram fechadas, mas ainda permanecem 17 —  entre elas, a Escola Normal Isidro Burgos, em Ayotzinapa.

Uma prática comum entre os estudantes ligados a movimentos sociais das escolas normais é o de roubo de ônibus e combustível para utilizá-los por razões próprias. 

Os jovens da Escola Normal Isidro Burgos tinham disponíveis para si mesmos cinco desses veículos, que eram utilizados para viagens para comparecer em atos, encontros e manifestações em outras cidades.

Naquela ocasião, o grupo havia planejado ir para a Cidade do México em 2 de outubro, para comparecer ao ato que relembrava o Massacre de Tlateloco, ocorrido 10 dias antes das Olimpíadas de 1968. Então, haviam se equipado com os roubos durante a semana anterior para se preparar para a viagem.

Em Iguala, o então prefeito José Luis Abarca Velázquez e sua esposa María de los Ángeles Pineda estavam sob suspeita de associação ao grupo criminoso Guerreros Unidos, fundado em 2011 após a dissolução do cartel de drogas Beltrán Leyva — que, inclusive, teve como membros alguns familiares de Pineda.

  • Tarde de 26 de setembro de 2014

Com apenas dois ônibus, os estudantes normalistas partiram para a cidade de Iguala para tomar posse de mais três veículos. Em um deles, o motorista resistiu e conseguiu avisar a empresa e a polícia sobre o roubo.

Eram mais de cem estudantes, sendo dois do terceiro ano do Ensino Médio, seis do segundo e o restante do primeiro.

Nesse primeiro dia, María Pinedo estava dando uma festa para o Sistema Nacional para el Desarrollo Integral de la Familia (DIF), que era dirigido por ela.

  • 21h30: primeiro ataque

Os cinco ônibus estacionados no terminal da cidade decidiram partir de volta para Ayotzinapa. Primeiro saíram quatro ônibus que, para desviar do trânsito, foram até o norte da cidade para acessar a estrada que partia desde aquele local. Com isso, passaram a apenas algumas quadras do festejo do DIF. 

O quinto veículo saiu alguns minutos mais tarde e não chegaram a pegar o trânsito, que já havia desaparecido. Portanto, seguiram o trajeto normal.

A polícia, atendendo ao chamado do motorista, começou a seguir os que foram pela primeira rota. Cercaram os estudantes na esquina das ruas Juan N. Álvarez e Periférico Norte, o que fez com que eles saíssem dos ônibus para entender o que estava acontecendo.

Quando Aldo Gutiérrez Solano e Daniel Solís Gallardo tentaram lutar com um dos policiais, o primeiro deles terminou ferido e o segundo morto. A partir de então, começaram vários disparos contra os estudantes, que tentaram se esconder atrás dos ônibus ou fugir, enquanto gritavam que estavam desarmados.

Os alunos conseguiram se comunicar com normalistas que ficaram em Ayotzinapa. Estes, então, arrumaram algumas camionetes e seguiram em direção a Iguala para salvar seus amigos.

Os que estavam no quinto veículo também foram avisados e tentaram voltar para resgatar os que estavam perdidos. Porém, foram encurralados, detidos e obrigados a descer sob ameaça das armas. Depois, foram permitidos a fugir correndo.

  • 23h30: segundo ataque

As camionetes chegaram com alunos e professores da CETEG (Coordinadora Estatal de Trabajadores de la Educación de Guerrero) e começaram a resgatar os alunos que estavam soltos e sobreviveram aos tiros. No local, começava a chegar imprensa para investigar o que havia acontecido.

Por volta da meia noite, um grupo armado chegou de repente e voltou a fazer disparos. Muitos conseguiram fugir, mas Julio César Ramírez Nava e Julio César Mondragón Fuentes foram atingidos e faleceram.

Na saída da cidade, os policiais abriram fogo contra um ônibus que acreditavam ser de mais estudantes, mas era de uma equipe de futebol de adolescentes que voltava a Chilpancingo. Aí, morreram David Josué García Evangelista, Blanca Montiel Sánchez e Víctor Manuel Lugo Ortiz.

  • 27 de setembro

Às 11 horas da manhã, Julio César Mondragón foi encontrado com o rosto desfigurado. Além disso, os primeiros registros de denúncias informaram que havia 57 pessoas desaparecidas — três dias depois, foi verificado que 14 estavam em suas casas, de forma que sobraram os 43 de Ayotzinapa. 

Naquele mesmo dia foram convocados para depor 280 profissionais da Polícia Municipal de Iguala, a fim de encontrar os que estiveram envolvidos nos ataques. Assim, 21 deles foram indiciados.

O prefeito declarou que não tinha nenhum envolvimento com o Massacre de Iguala, já que estava na festa do DIF junto a sua esposa — fato que foi respaldado pelo relatório emitido pelo escritório da instituição. Segundo Abarca, ele apenas tinha ordenado uma interceptação pois tinha medo que fizessem uma invasão no evento.

  • 30 de setembro

Apesar das declarações, José Luis Abarca foi declarado como suspeito de ser o autor intelectual dos ataques e das desaparições. Então, ele solicitou uma licença para se ausentar do cargo durante um mês. Depois, o prefeito e sua esposa desaparecem. Assim, o governador do estado de Guerrero emitiu uma ordem de para que ele se apresentasse. 

Investigações oficiais e a Verdade Histórica

Ao perceber que, depois de contados os que retornaram e os que foram assassinados, ainda faltavam os 43 de Ayotzinapa, a Força Estatal com o apoio do Exército Mexicano e da Procuradoria Geral da República (PGR) começou a fazer buscas em toda a região entre Iguala e Cocula. 

No dia 4 de outubro foi encontrada uma fossa clandestina com 28 cadáveres, enquanto no dia 8 foram encontradas mais quatro valas. Porém, as análises concluíram que nenhum dos corpos pertencia aos estudantes.

Também no dia 8 de outubro foram presos três membros dos Guerreros Unidos, entre eles os irmãos Osvaldo e Miguel Ángel Ríos Sánchez, que confessaram o envolvimento no Massacre de Iguala. Inclusive, apontaram Ángel Casarrubias Salgado como mandante dos assassinatos. Segundo eles, não havia clareza sobre quem eram os jovens e foram confundidos com membros do cartel rival, Los Rojos.

Já outros participantes capturados afirmaram que os estudantes normalistas foram enviados ao aterro sanitário de Cocula. Ali, quinze morreram asfixiados devido à superlotação nas camionetes usadas para transportá-los — foram apenas duas —, além da força com a qual foram atados.

Ainda segundo relatos dos presos, os que sobreviveram foram interrogados um por um e, depois, foram atingidos com uma bala na nuca. Os corpos foram jogados em uma parte mais baixa do aterro, onde foram incinerados a fogo baixo durante uma noite inteira. As cinzas e os ossos triturados foram colocados em sacos e jogados no rio San Juan.

Em um informe da PGR no dia 7 de novembro, durante conferência de imprensa em rede nacional, foi anunciado que outros detidos confessaram participar do crime. Além disso, essas pessoas declararam que os assassinatos ocorreram depois que os policiais de Iguala e Cocula entregaram os estudantes aos Guerreros Unidos.

Já no dia 27 de janeiro de 2015, a tese das investigações da PGR apontavam para o envolvimento do cartel junto ao prefeito de Iguala, porque se acreditava que os Los Rojos estavam apoiando os estudantes normalistas. Devido à confusão da noite, os Guerreros haviam decidido, então, executá-los. A ação teria sido apoiada pela prefeitura, já que os protestos constantes do grupo gerava inquietação das autoridades.

Quando a PGR, liderada por Tomás Zerón, fez uma busca no local, encontrou, em 2014, o corpo de Alexander Mora, e em 2015 o de Jhosivani Guerrero, ambos no rio. Então, declararam sua chamada Verdade Histórica: os estudantes haviam sido assassinados ali, queimados e jogados ao rio. Essa versão foi declarada pelo procurador Murillo Karam.

Apesar dos relatórios, as famílias das vítimas não aceitaram as conclusões da PGR ou o rumo para onde estavam seguindo com suas teorias sobre guerra de gangues. Para eles, todos estavam vivos e estavam sendo mantidos em prisões clandestinas.

Frente a isso, uma forte onda de protestos se instaurou no país, exigindo explicações do governo sobre ocorrido. Com gritos de “vivos foram levados, vivos os queremos”, até mesmo o então presidente Enrique Peña Nieto chegou a ser envolvido, já que se mostrava inepto para gerir um país.

Investigações alternativas sobre os 43 de Ayotzinapa

Sem aceitar o laudo da Verdade Histórica, que dizia que os jovens foram mortos naquela mesma noite, incinerados e jogados no rio, os familiares solicitaram para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos novas investigações. Devido às pressões populares, o presidente aceitou uma nova linha de pesquisa.

Assim, foi criado o Grupo Interdisciplinario de Expertos Independientes (GIEI) em 16 de janeiro de 2015 para fazer uma pesquisa independente e criar uma nova versão dos fatos. Afinal, ninguém acreditava que o Estado não estivesse envolvido no desaparecimento e a maioria dos familiares pensava que eles ainda estavam vivos.

Algumas das conclusões encontradas pelo grupo, inclusive, colocam os pontos da Verdade Histórica em contradição. Uma delas é a hipótese de que os normalistas não tinham intenção de ir a Iguala e, inclusive, chegaram depois da festa da primeira-dama da cidade. 

Outras foram a análise de roupas encontradas que poderiam identificar o modus operandi da ação e a existência de um vídeo que supostamente foi apagado, mas que mostraria parte da operação de desaparecimento.

Além disso, as análises da Equipe Argentina de Antropologia Forense, convidada para a investigação, também contradizem a ideia do incêndio no lixão de Cocula.

São poucas as evidências de que naquele local tivesse acontecido uma queimada nas proporções que seriam precisas para se desfazer de 43 corpos, assim como não há vestígios de corpos no rio.

Aliás, graças à formação do grupo, as tentativas de busca e continuidade de investigações puderam continuar. Também houve maior atenção às vítimas sobreviventes, sendo possível dar a eles mais confiança para prestar depoimentos e fazer novos exames sobre suas lesões.

Em 2016, Peña Nieto não renovou o contrato com a GIEI, de modo que o grupo não tinha mais autorização de continuar investigando. Porém, dois anos mais tarde, em março de 2018, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos do México publicou um relatório que afirma que pelo menos 34 jovens haviam sido levados a outro local e torturados.

O atual presidente, Andrés Manuel López Obrador, durante a campanha de 2018 assinalou a importância do caso e, depois de vencer, criou a Comissão para a Verdade e Acesso à Justiça no caso Ayotzinapa. O objetivo é ter um centro de investigações especializado para poder chegar a conclusões mais concretas.

Em julho de 2020, uma nova descoberta corrobora a tese de que os jovens não foram incinerados no aterro: o corpo do jovem Christian Rodríguez foi encontrado no chamado desfiladeiro La Carnicería, próximo do aterro. Aquele mesmo local havia sido rastreado pela PGR em 2014 e não havia aparecido nenhuma prova.

Além disso, denúncias afirmam que em outubro de 2014, Tomás Zerón, chefe das investigações da PGR na época, havia ido com uma equipe antes da investigação oficial e essa visita não foi declarada. Hoje, ele está foragido. 

Quem são os 43 de Ayotzinapa?

Foto: Atoq Wallpa Sua, Flickr

Fora os três que já tiveram seus corpos encontrados, os 40 estudantes que ainda seguem desaparecidos são:

  1. Abel García Hernández
  2. Abelardo Vázquez Peniten
  3. Adán Abrajan de la Cruz
  4. Antonio Santana Maestro
  5. Benjamín Ascencio Bautista
  6. Bernardo Flores Alcaraz
  7. Carlos Iván Ramírez Villarreal
  8. Carlos Lorenzo Hernández Muñoz
  9. César Manuel González Hernández
  10. Christian Tomas Colón Garnica
  11. Cutberto Ortiz Ramos
  12. Dorian González Parral
  13. Emiliano Alen Gaspar de la Cruz
  14. Everardo Rodríguez Bello
  15. Felipe Arnulfo Rosas
  16. Giovanni Galindes Guerrero
  17. Israel Caballero Sánchez
  18. Israel Jacinto Lugardo
  19. Jesús Jovany Rodríguez Tlatempa
  20. Jonas Trujillo González
  21. Jorge Álvarez Nava
  22. Jorge Aníbal Cruz Mendoza
  23. Jorge Antonio Tizapa Legideño
  24. Jorge Luis González Parral
  25. José Ángel Campos Cantor
  26. José Ángel Navarrete González
  27. José Eduardo Bartolo Tlatempa
  28. José Luis Luna Torres
  29. Julio César López Patolzin
  30. Leonel Castro Abarca
  31. Luis Ángel Abarca Carrillo
  32. Luis Ángel Francisco Arzola
  33. Magdaleno Rubén Lauro Villegas
  34. Marcial Pablo Baranda
  35. Marco Antonio Gómez Molina
  36. Martín Getsemany Sánchez García
  37. Mauricio Ortega Valerio
  38. Miguel Ángel Hernández Martínez
  39. Miguel Ángel Mendoza Zacarías
  40. Saúl Bruno García

Já os mortos são:

  1. Julio César Mondragón Fontes
  2. Daniel Solís Gallardo
  3. Julio César Ramírez Nava
  4. Alexander Mora Venancio (fazia parte dos 43)
  5. Jhosivani Guerrero de la Cruz (fazia parte dos 43)
  6. Christian Alfonso Rodríguez Telumbre (fazia parte dos 43)
  7. David Josué García Evangelista (jogador de futebol do ônibus que foi confundido)
  8. Víctor Manuel Lugo Ortiz (motorista do ônibus)
  9. Blanca Montiel Sánchez (passageira de um táxi que circulava na região quando o ônibus da equipe de futebol foi atacado)

Conclusões sobre o Massacre de Iguala

O ex-prefeito de Iguala José Luis Abarca Velázquez e sua esposa María de los Ángeles Pineda foram detidos em uma casa na cidade de Iztapalapa no dia 5 de novembro de 2014. Depois de julgamento realizado em 2016, a justiça definiu que ele deveria continuar preso por delitos graves, mas não pôde conectá-los diretamente ao desaparecimento dos 43 de Ayotzinapa.

Ainda não há nenhuma conclusão sobre o caso. Mesmo com diferentes linhas de investigação e depoimentos, existem muitas falhas nas narrativas. Os verdadeiros mandantes, por exemplo, seguem não identificados. 

Apesar do envolvimento de membros dos Guerreros Unidos e de alguns membros das polícias locais de Iguala e Cocula, também não há clareza de como foi a operação após a captura. Não se sabe se seguem vivos, se foram mortos no mesmo dia ou se foram levados a algum lugar e permaneceram com vida por algum tempo.

As principais linhas teóricas são:

  • foram capturados para evitar a realização de protestos e atrapalhar o evento da primeira-dama de Iguala (primeira versão);
  • foram contidos por possível associação com o cartel rival dos Guerreros Unidos, os Los Rojos, levados ao aterro sanitário de Cocula, assassinados, incinerados e jogados ao rio (versão oficial da Procuradoria Geral da República, a Verdade Histórica);
  • os ônibus sequestrados para os trajetos continham drogas escondidas e os Guerreros Unidos, junto à polícia, acreditavam que eles sabiam disso e roubaram de propósito. Então, decidiram matá-los (versão alternativa);
  • sem motivo concreto, foram capturados pela polícia, levados a algum outro lugar onde foram torturados (versão da GIEI).

De qualquer forma, o envolvimento de agentes governamentais colocaram em cheque a popularidade do então presidente Enrique Peña Nieto, que foi denunciado por diversos órgãos que lutam por direitos humanos. Os familiares e mesmo parte da população acredita que foi obra do Estado e confia na versão do GIEI.

Isso fez com que o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que liderava as eleições presidenciais há décadas, sofresse com a repercussão. Nas eleições de 2018, o AMLO, de esquerda, chegou à vitória com a promessa de levar as investigações a sério.

Seis anos depois, a investigação segue aberta. Afinal, o que aconteceu no Massacre de Iguala de 2014? Para onde foram levados os 43 de Ayotzinapa? 

Continue lendo os conteúdos do Exclamación, portal sobre cultura, história e política de países hispanos.

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s