Karol G, o funk brasileiro e a síndrome do protagonismo

Karol G há alguns anos vem sendo um dos principais nomes da música em espanhol no mundo e se consolidou como uma gigante do gênero urbano após o sucesso estrondoso do seu mais recente álbum, “Mañana Será Bonito”, que lhe rendeu uma turnê de estádios em vários países do mundo. 

A colombiana está há algum tempo tentando se aproximar do mercado brasileiro: já veio participar do carnaval, fez pocket show, cantou na final da Copa América e parcerias com alguns brasileiros.

Após páginas de cultura pop e fofoca viralizarem o comentário de um dos produtores da Karol G dizendo que estava trabalhando em algo relacionado ao funk brasileiro, ocorreu uma chuva de comentários nas redes sociais criticando a cantora por supostamente se apropriar da cultura sem a participação de brasileiros.

A Karol G vai fazer um projeto de funk?

Primeiramente, nem sequer se sabe qual tipo de projeto vai acontecer. As notícias saíram por um comentário de um dos produtores que costumam trabalhar com a Karol G, falando que seria sobre funk brasileiro. 

Em nenhum momento, ele disse que seria uma música, um EP, um CD. Não temos detalhes sobre esse projeto, e mesmo assim, as pessoas estão falando como se ela estivesse querendo dominar o mundo com um funk, como se estivesse querendo roubar isso do Brasil. Não sabemos nada, não temos nenhuma informação sobre o que será esse projeto.

A Karol G não pode fazer funk? Ela é obrigada a trabalhar com brasileiros?

Usuários do X/Twitter começaram a dizer que ela não poderia fazer nenhum tipo de trabalho relacionado ao funk brasileiro porque não é brasileira. Isso seria algum tipo de problema, principalmente porque, supostamente, neste projeto (não confirmado) não teria nenhum brasileiro envolvido. 

No final das contas, além de não ter nada sobre o projeto em si, as pessoas já estão supondo que não vai ter nenhum brasileiro envolvido nisso.

Então, vamos fingir que esse tal projeto realmente existe e que de verdade não tem nenhum brasileiro envolvido. Qual o problema?

Pode parecer horrível porque o brasileiro gosta de ser protagonista de tudo, mas a dura verdade é que não necessariamente é preciso ter uma pessoa especialista no gênero para fazer uma música do gênero. Músicos são bons porque eles sabem estudar os sons, porque eles sabem estudar conceitos, eles sabem reproduzir. 

Por exemplo, quando a Wanessa Camargo foi lançar o primeiro reggaetón do Brasil, em 2005, “Amor Amor”, ela não convidou nenhum produtor de fora. Ao olhar nos créditos da música, não tem nenhum portorriquenho, não tem ninguém do Caribe, não tem ninguém que fala espanhol. A música foi produzida pelo César Lemos, brasileiro. 

Se a Wanessa pode fazer um reggaetón sem produtores portorriquenhos, porque a Karol G não pode fazer funk sem produtores brasileiros?

Ou alguém acha que quando o MC Papo lançou “Piriguete”, outro reggaetón brasileiro dos anos 2000, ele pediu permissão dos portorriquenhos? E o MC Gw com o “Ritmo Mexicano” (que nem mexicano é)?

Quando a Anitta começou o projeto xeque-mate e ela lançou o primeiro single em espanhol dela, que foi um reggaetón, “Paradinha”. Se você olhar nos créditos da música, vocês não vão encontrar uma pessoa que é hispana. Essa música foi inteiramente produzida por brasileiros.

Então, tudo bem, brasileiros fazendo reggaeton sem lavar de nenhum hispano, mas quando um hispano quer fazer um funk, ele é obrigado a fazer música com brasileiros? 

O funk é cultura brasileira e quem é de fora não pode fazer sem estar com artistas brasileiros

De fato, o gênero surge de uma realidade totalmente brasileira, embora inspirado em vários gêneros de fora do país. Porém, quando se trata de exportação da música para a indústria global — algo que o próprio público brasileiro vem defendendo que seja feito nos últimos anos — isso simplesmente se perde. 

A indústria cultural é isso. As pessoas estão lutando tanto para levar o funk para fora, mas quando chega lá fora, não querem que as pessoas de fora façam?

O funk é cultura brasileira, nossa música, vivência. E desde quando reggaetón, por exemplo, não é isso também? Desde quando todos os ritmos musicais não são isso? Todos os gêneros nascem a partir de um movimento específico, a partir de um povo, um grupo, uma camada social, a partir de algo que está acontecendo em um determinado lugar. O funk não é o primeiro e nem o último gênero musical que surgiu em um grupo marginalizado latino-americano que é exportado para o mundo. É isso que acontece quando se luta para exportar um ritmo musical.

O bolero foi um dos principais pilares do Brasil nos anos 60 e foi muito importante para moldar a sonoridade da música popular brasileira — e o gênero é cubano. Porém, não vemos cubanos reclamando que os brasileiros começaram a fazer bolero em português, sem produção de pessoas cubanas, sem o aval, sem o apoio dos artistas locais.

O merengue, o cha cha cha, o mambo, a salsa, todos eles foram importantíssimos para a criação do axé, e a gente não vê pessoas que falam espanhol envolvidas nos processos que levaram de fato ao axé. As pessoas brasileiras simplesmente ouviram a música caribenha e decidiram transformar em algo nosso. 

A bachata, que é um ritmo tradicional da República Dominicana, é comumente utilizado por artistas brasileiros que mascaram suas versões ao chamá-las de sertanejo ou arrocha. Mas não estamos vendo dominicanos reclamando que estamos apropriando sua cultura.

E, falando em sertanejo, desde os seus inícios o ritmo bebe da mesma água das polcas paraguaias — muitas delas sendo cantadas tradicionalmente no idioma guarani —, das chacareras argentinas e do chamamé. Mas, nesse caso, alguns puristas musicais dos países vizinhos reclamam que o sertanejo se apropriou sim…

Por que que a gente pode fazer isso, e as pessoas de fora não podem fazer o mesmo? Será que é não é simplesmente uma síndrome de protagonismo? O brasileiro tudo pode, o estrangeiro que faz igual está se aproveitando?

Ao invés de bater palma para estrangeiros, vamos valorizar artistas nacionais?

Ficou claro que o ponto para algumas pessoas não era sobre a Karol G fazer o funk — e que, inclusive, ela era muito bem-vinda —, mas sim sobre o público brasileiro parabenizar uma “gringa” (disclaimer: latinos não são gringos) e não valorizar artistas locais.

Essa conta não fecha.

O funk é um dos gêneros musicais mais consumidos no Brasil, junto com o sertanejo. Em qualquer festa que se faz no país, é possível escutar os maiores sucesso do funk carioca, bregafunk, funknejo, furacão 2000, entre outras vertentes. 

A questão levantada sobre desvalorização de artistas nacionais vai em desencontro com o público que gostaria de ver a Karol G lançando funk. 

Certamente, os ouvintes do gênero não poderiam se importar menos se uma cantora colombiana — que apesar de ser o maior nome da atualidade na música latina urbana, ainda não tem seguidores tão expressivos no Brasil — irá lançar esse projeto (que não se sabe se é uma música, um EP, um CD, ou que sequer irá acontecer). Porém, são essas pessoas que devem ser cobradas de valorizar mais artistas, inclusive as pioneiras do movimento. Não faz sentido gostar de um ritmo musical sem enaltecer quem luta para transformá-lo.

Da mesma forma que não faz sentido dizer que fãs brasileiros de uma cantora colombiana que se sentem felizes em vê-la se aproximando do país deveriam valorizar artistas nacionais do gênero. A questão aqui não é pelo ritmo em si, mas sim o cuidado da artista em fazer algo voltado para o Brasil. 

Não cobrem fãs de uma cantora coisas que deveriam ser cobradas do público que consome o funk massivamente, ou da visibilidade que a mídia brasileira dá para determinados artistas.

O problema são todos os “gringos”?

Os ataques à colombiana começaram em sua performance de “Tá Ok” — sucesso que ganhou uma versão remix com Karol G e Maluma — na premiação VMA em 2023, já que ela estaria usando a música brasileira sem levar brasileiros, de fato.

Mas não é de hoje que o funk está no radar do mundo. Vários pioneiros do ritmo já na década de 2000 conseguiram levar para o mundo o ritmo que nasceu no Rio de Janeiro: desde Tati Quebra Barraco nos palcos de Berlim ao DJ Malboro visitando a Europa com sua música. 

A rapper M.I.A. sempre foi muito mencionada por ter lançado Bucky Done Gun em 2005, que foi insiprado no som da Deize Tigrona. Curiosamente, ao olhar os créditos da música, não é possível encontrar nenhum brasileiro envolvido na produção.

Já em 2023, a cantora Cardi B convidou Megan Thee Stallion para uma parceria musical que tem elementos do funk brasileiro. Nos créditos desse single, não é possível encontrar nenhum brasileiro envolvido no projeto.

Será que se uma artista considerada A-List a nível mundial anunciasse um projeto de funk estaríamos debatendo com tanta força a falta de participação de brasileiros, ou o problema é que a Karol G é uma “gringa” de segunda classe (ou seja, latina)?

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