Por Marina Rodrigues | Edição: Isabela Guiaro
Quando estava para completar 30 anos, decidi fazer uma viagem para comemorar a década que é muito aguardada por várias pessoas – e até capaz de impor certo medo como era no meu caso –, ainda no meio das incertezas da pandemia da COVID-19, escolhi um dos meus lugares favoritos na América Latina: Buenos Aires.
No roteiro da vez, além de experimentar a tradicional pizza porteña em outras pizzarias tradicionais, estava uma visita ao Museu de Cinema da cidade. Para a minha surpresa, no segundo andar do prédio, uma exposição gratuita se dedicava a homenagear a vida e obra da cineasta Maria Luisa Bemberg, um nome que ainda me era desconhecido no cinema latino.
De cara já fiquei curiosa para entender melhor a carreira de uma mulher que quebrou paradigmas na Argentina. Entre muitos cineastas e pesquisadores do cinema do país, Bemberg é considerada uma das pioneiras na direção de cinema, algo que na década de 1970, nos ares da ditadura que viria, ainda era impensável em uma sociedade machista.
Foi assistindo seus filmes que a cineasta Lucrécia Martel, considerada uma das melhores da Argentina atualmente, também se arriscou a seguir esse caminho, sem deixar de fazer um cinema tão crítico quanto o de Bemberg.
Entre seus temas prioritários, obras como “Señora de Nadie” (1982) e “Camila” (1984) dialogan diretamente com a liberdade feminina e a possibilidade de encontrar a si mesma longe dos padrões patriarcais.
Sobre essa necessidade, Bemberg afirmou que sempre foi uma inquietude própria ao ver os papéis sociais que eram apresentados para ela e suas irmãs: “seja esposa de alguém” “seja mãe de alguém”, mas nunca talvez ouse ser você mesma.
A entrada no cinema foi complicada, e esta parte da exposição foi a que mais me chamou atenção. Assim como ela, eu comecei a estudar cinema querendo seguir carreira na direção. Antes da faculdade fiz um curso técnico na área em que de uma turma de quase 30 alunos, só havia eu e mais uma colega.
Entrar para a graduação anos mais tarde foi um alento por ver tantos rostos femininos querendo se dedicar em áreas diferentes, da qual a minha acabou sendo a produção executiva e a dedicação ineterrupta às leis de incentivo. Não ficou mais fácil com a questão do machismo, mas o cinema de Bemberg diz para a mulher que desistir nunca será uma opção.
Apesar de toda essa marca, a argentina não foi a única mulher que inspirou toda uma nova geração de cineastas no continente latino. Ainda bem antes dela, a belga Agnès Varda inspirou a cubana Sara Goméz a colocar as mãos em uma câmera e sentir orgulho daquilo.
Infelizmente, acometida por uma doença, faleceu jovem demais para que pudéssemos assistir mais das suas obras, mas o seu único longa “De Cierta Manera” (1974), nos apresenta um rico material sobre a vida dos cubanos após a Revolução, o que ajuda a quebrar mitos e inverdades que muitos ainda carregam sobre a ilha.
Já nos Andes, falar de cinema peruano e não citar a incrível Nora Izcue, é ignorar grande parte de uma filmografia de guerrilha em um país de tantos altos e baixos na questão cinematográfica.
Em “Runan Caycu” (1973), Nora nos conta a luta dos povos originários pela Reforma Agrágria, em especial a saga de Runan, líder campesino que junto a cineasta, foi perseguido durante a ditadura peruana.
Mesmo com as dificuldades, o caminho trilhado por Izcue não ficou esquecido, levando a arte da direção para cineastas da nova geração, como Claudia Llosa e seu icônico “La Teta Asustada” (2008) que narra na ficção a história de resistência feminina durante os anos mais duros da política do país.
Já se formos falar sobre Brasil, é quase impossível não citar Adélia Sampaio e o seu incrível trabalho em “Amor Maldito” (1984), levando a representatividade lésbica para as telas ainda durante a ditadura, o que também a transformou na primeira cineasta negra do nosso país, um legado que hoje segue sendo representado por nomes como Glenda Nicácio, Viviane Ferreira, Joyce Prado e tantas outras.
Seja no dia 8 de março, durante todo o mês da mulher ou em qualquer dia do ano, vale a pena olhar a filmografia riquíssima de cineastas que pautaram a diversidade e a estenderam o significado da representatividade feminina no cinema latino-americano.
