Você sabia que o Festival Internacional da Canção de Viña del Mar, que acontece em Valparaíso, no Chile, desde o último fim de semana, é, historicamente, um dos palcos mais importantes para um artista latinoamericano e um verdadeiro termômetro de êxito em suas carreiras?
O certame está em sua 65a edição e, ao longo dos anos consolidou-se como um dos espetáculos musicais mais emblemáticos do continente, mas, o que o torna tão especial?
Viña del Mar: construção histórica do Festival
O festival surgiu na década de 1960 como iniciativa do então prefeito de Valparaíso, Gustavo Lorca Rojas, inspirado no Festival de Benidorm, realizado na Espanha. Sim — a versão original do atual Benidorm Fest, que hoje funciona como pré-seleção espanhola para a Eurovision Song Contest.
Deslumbrado pelo estrondoso sucesso que o Festival de Benidorm alcançava, ainda que em sua segunda edição, Lorca vislumbrou a possibilidade de criar em solo chileno, um evento que unisse música, turismo e projeção internacional. A proposta não era apenas realizar um concurso musical, mas transformar a cidade em um polo cultural capaz de atrair olhares de toda a América Latina.
Assim nascia nascia o Festival Internacional da Canção de Viña del Mar, cuja premissa original trazia consigo a ideia de que os concorrentes deveriam apresentar a melhor canção original, cuja temática obrigatoriamente exaltava a cidade de Viña. A proposta era celebrar a identidade local por meio da música, fortalecendo o vínculo entre cultura e território.
O vencedor receberia, além de um prêmio em dinheiro, um troféu que, naquele então, era conhecido como Lira de Ouro — distinção que, atualmente, corresponde à Gaviota de Oro.
Entre as seis composições que disputavam o primeiro prêmio, “Viña”, de José Goles e Manuel Lira, consagrou-se como a vencedora do primeiro certame, realizado em fevereiro de 1961. Nos anos seguintes, o festival passou por modificações em seu formato, ganhou projeção nacional por meio da televisão e dos noticiários e experimentou um expressivo crescimento popular.

Durante os anos 70, o festival viveu momentos duros, marcados pelo contexto político da ditadura militar no Chile (1973-1990), instaurada após o golpe que depôs o presidente Salvador Allende e levou ao poder o general Augusto Pinochet.
Após o golpe de 1973, o festival — já consolidado como grande vitrine cultural do país — passou a operar sob forte vigilância e censura. Como outros espaços artísticos, tornou-se parte da estratégia do regime para projetar uma imagem de normalidade institucional e estabilidade internacional.
Houve maior controle sobre repertórios e discursos, com restrições a conteúdos considerados politicamente sensíveis. Nessa versão do festival, a canção “A la Bandera de Chile”, de Pablo Neruda, apoiador de Allende (e vencedor de um Nobel da Paz), qual também foi musicalizada por Vicente Bianchi e interpretada por Los Fortineros, foi um dos grandes destaques por sua participação. Coroada com o segundo lugar no certame, a canção foi vaiada por grande parte do publico, totalmente dividido por (óbvias) razões políticas.
Artistas associados à Nueva Canción Chilena ou a movimentos de esquerda enfrentaram limitações, enquanto nomes alinhados a uma estética mais neutra ou internacional ganharam espaço. Ainda assim, o evento não perdeu sua força popular e continuou atraindo grandes públicos à Quinta Vergara.
Então, em 1981, o festival viria a se consagrar como um evento consagrado nacional e internacionalmente, seja pela variedade de canções, pela inclusao de grandes estrelas internacionais no concurso ou pela qualidade dos artistas convidados participantes.
Na edição de 1981, considerada a melhor edição da história do festival, participaram grandes musicistas hispanos como Miguel Bosé, Julio Iglesias e Camilo Sesto. Esse ano também contou com a banda americana KC and the Sunshine Band (Please Don’t Go, Thats The Way).
Nos anos seguintes, o festival passou a ser transmitido também em solo mexicano e norte-americano, por meio de acordos firmados com as emissoras Televisa e Univision. A parceria ampliou significativamente seu alcance, levando o evento a milhões de telespectadores fora do Chile e expandindo sua presença para outros continentes, como Europa, Oceania e África, consolidando sua projeção internacional.
De então até a atualidade, em meio a inúmeras modificações e modernizações em seu formato, o Festival Internacional da Canção de Viña del Mar realizou 65 edições marcadas pela diversidade de artistas que passaram por seu palco. Nomes como Donna Summer, Shakira, Laura Pausini, Celia Cruz, Xuxa, Anitta, Karol G, Maná, Backstreet Boys e Juan Gabriel integram a lista de atrações que ajudaram a construir sua história.
Na edição mais recente, o grupo sul-coreano NMIXX se apresentou no festival e entrou para a história ao se tornar o primeiro grupo de k-pop a conquistar a Gaviota de Oro, o tradicional troféu do evento — reafirmando o caráter global que o festival adquiriu ao longo de suas seis décadas e meia de existência.
El Monstruo: O festival como termômetro do gosto popular
O Festival de Viña del Mar consolidou-se, ao longo das décadas, como um verdadeiro termômetro de popularidade na música latina e global.
Diferentemente de muitos grandes eventos internacionais, em que a recepção do público é quase sempre protocolar, em Viña del Mar a reação da plateia é decisiva — e pode determinar o êxito ou o fracasso de uma apresentação em questão de minutos.
No centro dessa dinâmica está o chamado “El Monstruo”, apelido dado ao público da Quinta Vergara. O nome não é por acaso: a plateia é conhecida por sua exigência extrema, intensidade e poder de pressão. Quando aprova um artista, ovaciona, pede bis e clama insistentemente pela entrega das tradicionais Gaviotas. Mas, quando desaprova, não hesita em vaiar, interromper apresentações e até “devorar” artistas que não conseguem corresponder às expectativas.
Esse comportamento transformou o festival em um rito de passagem. “Domar o Monstro” tornou-se uma expressão recorrente para definir artistas que conseguem conquistar o público chileno. Receber a Gaviota de Oro ou a Gaviota de Plata não é apenas uma premiação simbólica — é o reconhecimento direto e imediato de uma plateia considerada uma das mais difíceis da América Latina.
Nesse sentido, Viña del Mar funciona como um termômetro popular: medir a reação do público da Quinta Vergara é medir, em grande parte, a conexão real de um artista com o público latino. Muitos nomes consolidaram ou revitalizaram suas carreiras após uma apresentação bem-sucedida no festival, enquanto outros enfrentaram momentos desafiadores que marcaram suas trajetórias.
Mais do que um palco, Viña é um teste, e “El Monstruo”, seu juiz soberano. Houveram artistas cuja carreira fora marcada pelo publico de Viña pra sempre.
A título de exemplo, nos anos 2000, a brasileira Xuxa subiu ao palco da Quinta Vergara, no tradicional Festival Internacional da Canção de Viña del Mar, para apresentar alguns dos maiores sucessos de sua carreira — que, convenhamos, não eram poucos. Ícone absoluto da cultura pop infantil na América Latina, ela retornava ao Chile cercada de expectativa e curiosidade.
Entretanto, nem mesmo o fenômeno Xuxa foi capaz de conter “El Monstruo”. O público não reagiu bem ao uso de playback e tampouco aprovou a escolha de um repertório pensado majoritariamente para o público argentino, o que soou como descuido com a audiência local. A resposta foi imediata: vaias, risadas e até versões alteradas das letras com conotação sexual ecoaram pela arena, marcando a apresentação como um dos momentos mais tensos daquela edição. Ainda assim, Xuxa foi escolhida pelo publico para receber a Gaviota de Plata e o recebeu aos prantos, com Sasha no colo, dizendo aos chilenos que achava que eles a odiassem. Novamente, foi insultada e vaiada, tomando assim a decisão de devolver aos organizadores do festival o troféu e prometendo nunca mais voltar ao país.
Em 2007, nem mesmo os apresentadores escaparam da temida reação do público da Quinta Vergara. Naquela edição, a cantora espanhola Ana Torroja (Mecano), foi uma das atrações mais aguardadas da primeira noite do evento. Após encerrar sua apresentação oficial, a artista deixou o palco sob uma ovação intensa. O público, visivelmente entusiasmado, passou a clamar por seu retorno com gritos e aplausos, exigindo um bis, prática comum no festival, onde artistas frequentemente retornam ao palco para uma música extra ou até mesmo uma interpretação a capella.
Surpresa e emocionada com a recepção, Ana Torroja demonstrou disposição para atender aos pedidos e voltar ao palco. No entanto, a produção do festival decidiu não autorizar o retorno da cantora, alegando questões relacionadas ao cronograma da transmissão televisiva e ao cumprimento rigoroso do tempo previsto para cada apresentação.
Sem muitas explicações claras ao público presente na arena, a organização optou por dar continuidade à programação. Coube aos apresentadores da noite retornar ao palco para seguir com o roteiro previsto. A decisão, porém, inflamou ainda mais os ânimos da plateia. O famoso “El Monstruo” atacou novamente, reagindo com vaias ensurdecedoras e gritos de “¡Fuera!”, expulsando simbolicamente os apresentadores do palco.
O episódio tornou-se um dos momentos mais comentados daquela edição do festival, reforçando a fama do público de Viña del Mar como um dos mais passionais de Viña del Mar.
Em 2017, Mon Laferte entrou para a história do Festival de Viña del Mar ao ser a primeira artista a receber gritos da plateia exigindo a Gaviota de Platina, o prêmio máximo do evento. Desde a primeira música, a reação do público foi avassaladora: a Quinta Vergara cantava em uníssono, deixando claro, já nos primeiros minutos, que a artista havia dominado completamente “El Monstruo”.
O momento carregava um peso simbólico interessante: nascida em Viña del Mar, Mon Laferte construiu sua carreira fora do Chile, após migrar para o México, onde alcançou projeção internacional e consolidou uma trajetória marcada por sucesso comercial, reconhecimento crítico e forte conexão emocional com o público latino. Ao retornar ao palco da Quinta Vergara como artista consagrada, viveu uma espécie de coroação pública: celebração de um show memorável junto ao reconhecimento definitivo de quem, hoje, é considerada a artista chilena mais bem-sucedida da história.
Em 2018, o espanhol Miguel Bosé foi um dos grandes homenageados do Festival Internacional da Canção de Vina del Mar.
Naquela edição, além das tradicionais Gaviotas de Prata e de Ouro — prêmios concedidos conforme a reação do público — Miguel Bosé recebeu o título de Artista Ícono, uma distinção especial entregue ao artista pela sua trajetória marcante e forte vínculo histórico com o festival.
Bosé se apresentou em Viña em 10 ocasiões, sempre despertando o furor e a paixão do publico na Quinta Vergara.
O Show de Talentos e o sistema de premiação
Desde sua concepção, o Festival Internacional da Canção de Viña del Mar mantém em sua estrutura um concurso musical que funciona como um verdadeiro show de talentos. Nele, artistas emergentes competem com canções originais, apresentadas ao vivo no palco da Quinta Vergara, diante de um júri técnico e do julgamento implacável do público.
O sistema de avaliação combina notas atribuídas por jurados especializados com a reação da plateia, criando um equilíbrio entre critérios técnicos e aceitação popular. As melhores performances recebem prêmios oficiais do festival, além de visibilidade internacional, o que faz do concurso um importante trampolim para novas carreiras na música latino-americana. Em Viña, revelar talentos sempre foi tão central quanto consagrar estrelas.
Um dos episódios mais emblemáticos desse formato ocorreu em 1993, quando Shakira, ainda no início da carreira e um talento desconhecido, participou do concurso do festival representando a Colômbia. Naquela edição, o júri contava com nomes já consagrados da música latina, entre eles Ricky Martin. Quatro anos depois, a colombiana retorna aos palcos, mas já como estrela da música do continente.
Achou interessante? Confira estas curiosidades sobre o festival Viña del Mar!
