Azúcar: Celia Cruz e o legado afrolatino e caribenho

Celia Cruz, conhecida como “A Rainha da Salsa”, foi uma cantora cubana de música tropical. A cantora desempenhou um papel fundamental na popularização do gênero musical conhecido como salsa, sendo uma das principais figuras responsáveis por difundir esse estilo musical ao redor do mundo e consolidá-lo como uma referência da música global. 

Sua carreira incluiu sucessos como “Quimbara”, “Burundanga”, “La vida es un carnaval” e “La Negra Tiene Tumbao”. Com 37 álbuns de estúdio e diversos prêmios, incluindo dois Grammys e três Grammy Latinos, Celia Cruz deixou um legado musical impressionante.

A artista era uma defensora orgulhosa de suas raízes africanas e frequentemente falava sobre a importância de abraçar a herança africana na cultura cubana e latina em geral. Sua figura inspiradora tornou-se um símbolo de orgulho negro para a comunidade afro-latina globalmente.

História de Celia Cruz

Nascida em Santos Suárez, Havana, desde a infância Celia Cruz cantava e sonhava em ser cantora, embora seu pai desejasse que ela se tornasse professora. Ela iniciou sua carreira participando de programas de rádio e dançando em Havana. 

Em 1948, foi contratada para cantar com o grupo “Mulatas de Fuego”, fundado por Roderico Rodney Neyra, alcançando grande sucesso em apresentações no México e Venezuela. Posteriormente, começou a cantar na Radio Cadena Suaritos e gravou músicas com um grupo que interpretava coros yorubas e ritmos de batá. 

Durante os anos 1950, Celia Cruz alcançou o estrelato como vocalista da icônica banda cubana Sonora Matancera. Sua voz poderosa e carismática, aliada à sua presença de palco contagiante, a levaram ao centro das atenções. A Sonora Matancera era uma das orquestras mais populares de Cuba na época, e a parceria de Celia com a banda resultou em sucessos memoráveis e uma legião de fãs leais.

Foi também durante essa época que Celia recebeu seus primeiros apelidos, como “A Rainha Rumba”, “Garota Guaracha do Oriente” e “Garota Guaracha de Cuba”, que refletiam sua popularidade e a presença marcante em seus shows ao vivo.

Ao longo dos anos 1960 e 1970, Celia Cruz continuou a brilhar e a consolidar sua carreira solo, colaborando com outros músicos talentosos, como Tito Puente e Johnny Pacheco. Ela mergulhou totalmente no gênero da salsa e se tornou uma das principais representantes desse estilo musical em ascensão. 

Durante a década de 1970, a cubana viveu um período de grande destaque e consolidação em sua carreira musical. A artista manteve sua parceria musical com o lendário músico Tito Puente. Juntos, eles gravaram vários álbuns de sucesso, como “Cuba y Puerto Rico son…” (1966) e “Quimbo Quimbumbia” (1969). Esses álbuns continham uma mistura de ritmos caribenhos e mostraram a química artística entre Celia e Tito Puente.

Em 1973, Celia Cruz deu um passo importante em sua carreira ao se juntar à famosa Fania All Stars, um grupo de músicos latinos renomados que eram produzidos pela gravadora Fania. Com eles, Celia teve a oportunidade de se apresentar em diversas cidades ao redor do mundo e expandir seu público internacionalmente. Sua participação no lendário concerto da Fania All Stars no Yankee Stadium, em Nova York, foi um marco em sua carreira e a ajudou a conquistar novos fãs.

A artista realizou uma turnê histórica na África em 1974, que se tornou um marco importante em sua carreira e também na disseminação da música latina no continente africano. Essa turnê foi organizada por Jerry Masucci, o fundador da gravadora Fania Records, com o objetivo de levar a música salsa e o talento de Celia Cruz para novos públicos ao redor do mundo.

Durante essa turnê, Celia Cruz e a Fania All Stars visitaram alguns países africanos, incluindo Zaire (atual República Democrática do Congo) e Senegal. O ponto alto da turnê foi a participação no famoso festival “Rumble in the Jungle” em Kinshasa, Zaire, em 1974, que aconteceu em conjunto com a histórica luta de boxe entre Muhammad Ali e George Foreman, conhecida como a “Luta do Século”.

A apresentação no festival foi um sucesso e teve um impacto significativo na popularização da música latina na África. Essa turnê se tornou uma das conquistas mais significativas de sua carreira, consolidando ainda mais sua posição como uma artista latina de destaque e uma representante da cultura afro-latina em todo o mundo. 

Durante a década de 1970, a cubana também explorou novas variações dos ritmos caribenhos, incorporando influências modernas como o rap e o hip hop em sua música. Em 1979, lançou o álbum “Tremendo Caché”, produzido novamente por Tito Puente, que foi bem recebido pelo público e apresentou o sucesso “Quimbara”, um dos maiores hits de Celia Cruz.

Em 1987, a artista recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, um reconhecimento de sua importância como uma das figuras mais influentes da música latina.

Além de sua carreira musical, Celia Cruz também se aventurou no mundo da atuação, participando em filmes e telenovelas, mostrando suas habilidades como atriz. No entanto, em 2002, ela foi diagnosticada com glioma, um tumor cerebral agressivo, o que não a impediu de continuar sua carreira musical. Antes de falecer em 2003, aos 77 anos, em sua casa em Fort Lee, Nova Jersey, ela gravou seu último álbum, “Regalo del alma”, cumprindo seu desejo expresso.

Celia Cruz e a cultura afro-latina e cubana

A música de Celia Cruz é profundamente enraizada nos ritmos afro-cubanos, como o son cubano, rumba, guaguancó e batá. Ela foi fortemente influenciada pelos cantos e ritmos das religiões afro-cubanas, como a santería e o yorubá, que eram parte integrante da cultura cubana. Em suas letras, ela também homenageou figuras religiosas importantes para a cultura afro, como Yemayá, Ochún e Changó (divindades da santería).

Nas suas apresentações, a artista incorporava movimentos de dança afro-cubanos, como a rumba e a guaguancó, que eram parte integrante de suas performances enérgicas e carismáticas. 

Inclusive, a cantora era conhecida por seu estilo extravagante e único no palco. Seu guarda-roupa incluía roupas coloridas, vestidos com lantejoulas, turbantes e várias perucas coloridas — elementos visuais que, muitas vezes, faziam referência à estética afro.

Por meio de sua música e arte, Celia Cruz se tornou uma embaixadora da cultura afro-cubana e da música afrocubana em todo o mundo, de modo que sua contribuição para a preservação e celebração das tradições negras na América Latina é inestimável. Seu legado continua a ser uma fonte de inspiração e apreço pelas raízes das mulheres negras, latinas e caribenhas.

Celia Cruz e o “azúcar”

Ela é reconhecida como um ícone da cultura latina em todo o mundo, e sua famosa expressão “¡Azúcar!” ficou marcada como sua assinatura durante toda sua carreira.

Durante uma entrevista, Celia Cruz foi questionada sobre a origem dessa tradição. Ela contou que um dia foi comer em um restaurante cubano em Miami e, quando tinha terminado de comer, estava prestes a beber um café.

Um garçom do estabelecimento perguntou: “Você quer o café com açúcar?”. Então, ela respondeu, “Não, garoto, você é cubano e sabe que nosso café é muito amargo. Com açúcar! Com açúcar!”.

Um dia, durante uma apresentação enquanto cantava, a cubana soltou o divertido grito: “¡Azúcar!” e não parou mais.

Veja os 7 álbuns essenciais para a expansão da música em espanhol nos EUA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *