Javier Milei e Lali Espósito: a obsessão do presidente da Argentina com uma cantora pop

Atualmente, a Argentina conta com uma inflação de 21% em janeiro, o subsídio do governo para controlar o valor para alimentação, luz e água foi cancelado, houve corte de ministérios, as passagens de transporte público quase dobraram de preço, pessoas estão vendendo suas economias em dólar para pagar as contas do mês…. E isso é uma informação que o próprio presidente divulga.

Eleito em dezembro, o atual presidente da Argentina, Javier Milei, parece ter uma preocupação maior que a situação do próprio país: a atriz e cantora de pop argentino Lali. Em entrevista divulgada pelo La Nación, ele a menciona e a chama de “Lali Depósito”, fazendo um trocadilho com o sobrenome da artista, Espósito.

Não é de hoje que isso acontece. Ao olhar as próprias curtidas do chefe de estado na rede social X/Twitter, é possível ver que ele tem um grande hiperfoco na cantora. No post abaixo, o vídeo mostra os assuntos recentes que ele tem curtido.

Tudo começou durante as eleições primárias, que aconteceram em 12 de agosto de 2023 e servem para decidir quem será o candidato oficial de cada partido para a presidência. Naquela ocasião, Milei surpreendeu com 30% das intenções de voto e se tornou a figura central do Libertad Avanza.

O ainda candidato já era conhecido pelas suas falas que ecoavam aquilo que o Brasil viveu em 2018: extrema-direita, discurso de ódio, entre outras coisas que chegam a ser um pouco mais perturbadoras — existe, inclusive, uma insinuação de uma relação mais que fraternal entre o político e sua irmã…

Como sempre, tudo em nome da “liberdade”. Um dos maiores lemas de sua campanha foi a frase “Viva la libertad, carajo”. Guardem essa frase.

Frente ao cenário, a artista fez um comentário com apenas quatro palavras em sua rede social: “que perigoso, que triste”. E apenas isso foi motivo para que, desde então, sua página estivesse carregada de comentários todos os dias de defensores da extrema direita.

Com isso, ela voltou a se pronunciar após a preocupação por conta dos ataques. “Não fico mal que falem mal de mim por considerar perigoso e triste que exista gente que vote por ANTI-DIREITOS”

Em 14 de agosto, em entrevista, Javier Milei disse que não a conhecia, pois escutava Rolling Stones. Já a então candidata à vice-presidência na chapa Libertad Avanza, Victoria Villarruel, dias depois, insinuou que os ataques da parte de Lali aconteciam porque ela ganhava dinheiro do Estado.

Porém, o assédio à artista não parou por aí, nas redes sociais. O entorno da campanha de Javier Milei se encarregou de criar uma história de que Lali o criticou porque ganha dinheiro público, por conta de shows em diversas cidades subsidiados por governos locais.

Algo que acontece em várias partes do mundo é que cidades do interior, principalmente, promovem eventos e festivais para levar artistas e fomentar a cultura e o turismo na região. Lali, como uma das cantoras mais populares do país, esteve algumas vezes em festivais em diversas províncias argentinas — assim como muitos outros artistas também o fizeram, mas que não são alvos de ataques.

A narrativa que se começou a criar é que Lali estaria cobrando do Estado cifras absurdas para viver disso. Inclusive, quando Javier Milei ganhou, seus adoradores começaram a celebrar que, a partir de então, a cantora estaria “desempregada”.

Também utilizaram um áudio de uma cena de um de seus filmes, Permitidos (2016), para criar uma notícia falsa. Na ocasião, afirmaram que Lali estaria gritando e irritada pela vitória de Milei.

Outra fake news criada em seu nome foi uma afirmação de que ela sairia do país caso Javier Milei ganhasse as eleições. Inclusive, após a vitória, muitos defensores foram incessantemente nos comentários de suas redes sociais perguntando quando Lali iria embora da Argentina.

O Community Manager de Milei, Iñaki Gutiérrez, em entrevista no mês de novembro, chama Lali de delinquente por cobrar pelo seu show.

Por outro lado, os que defendem a cantora já perceberam essa obsessão frequente do presidente e seus apoiadores, e utilizaram o lema da campanha, “Viva la libertad” (que você deveria ter guardado no começo do texto), para criar o “Viva LALI”. 

Para quem não conhece, Lali começou sua carreira aos 11 anos de idade, com um papel de destaque em uma novela infanto-juvenil, Rincón de Luz, produzida por Cris Morena — mesma criadora das versões originais de Chiquititas, Rebelde e Floribella.

Ao terminar seu primeiro trabalho, saiu em turnê com as músicas da novela para Tel Aviv — novelas argentinas são bastante populares em Israel —, tendo apenas 12 anos. Nesse mesmo ano, entrou para o elenco de Floricienta, a versão original de Floribella. Também acompanhou as apresentações ao vivo do grupo.

Depois de dois anos, esse projeto se encerra e ela entra como protagonista em Chiquititas 2006, além de acompanhar a sequência de apresentações de teatro musical.

Seu último papel com Cris Morena foi na novela Quase Anjos, que, com quatro temporadas, durou de 2007 a 2010. Além de protagonista, formou parte da banda que foi criada dentro da história e, com isso, fez inúmeras apresentações em vários países. O grupo continuou até 2012.

A partir de então, ela continuou seu trabalho na atuação, e já fez novelas, filmes e séries de sucesso — as mais recentes são Sky Rojo, da Netflix, e El Fin del Amor, da Amazon Prime. Inclusive, por conta das gravações para a Netflix, a atriz esteve a maior parte do tempo entre o final de 2019 e o início de 2022 morando na Espanha.

Na música, ela se anunciou como solista em 2013 e trouxe uma sonoridade inovadora para o cenário musical argentino, que vivia de rock, cumbia e folklore: Lali era uma artista pop, que investiu em figurinos, dançarinos, luzes, tal qual divas da música em inglês. Sua carreira também a levou a várias partes do mundo e, em 2023, se tornou a primeira mulher solista argentina a esgotar um show no Estádio Vélez, em Buenos Aires.

Além disso, também foi jurada de alguns programas de talento, incluindo duas temporadas do La Voz Argentina (que conhecemos no Brasil com o título em inglês, The Voice).

Aos poucos, desde 2018, a atriz e cantora também se envolveu em questões de movimentos sociais. Durante a “ola verde” na luta pela legalização do aborto, Lali participou de marchas e falou publicamente sobre a aprovação da lei. Também participou de coletivos de atrizes argentinas para falar sobre situações de violência que algumas companheiras sofreram.

Leia sobre o panorama do aborto na América Latina

Essa breve introdução sobre sua longevidade de 21 anos de carreira — tendo apenas 32 de idade — é essencial para entender a importância da sua figura para a cultura pop argentina, e que também, definitivamente, temos uma pessoa que faz mais coisas do que shows “bancados pelo Estado”.

A narrativa que ataca artistas se tornou bastante forte, já que ela traz um reducionismo que, para quem não entende do meio, é de fácil apoio: não queremos usar dinheiro público para deixar artistas milionários, sendo que crianças passam fome. 

Porém, como acontece em qualquer parte do mundo, o investimento em cultura é apenas uma pasta do governo. Em geral, o orçamento previsto para ações desse porte não poderiam ser realocadas depois para, por exemplo, educação. Em todo caso, esse é o tipo de política que deveria vir antes e que, definitivamente, não tem nada a ver com os artistas contratados, mas sim com os governantes locais.

Outro ponto crucial nessa questão é que as quantias que dizem que Lali teria recebido nunca foram provadas e os “documentos” que aparecem sempre são resultados de montagem. Segundo os apoiadores de Milei, ela teria recebido 350 mil dólares para fazer um show na região do Chaco, uma das que mais tem sofrido com a pobreza no país. Esse valor não bate com o preço que produtoras privadas teriam que pagar para levar o show para outros países — um insider do Exclamación já entrou em contato e a quantia para trazê-la ao Brasil, por exemplo, seria 200 mil dólares.

Uma coisa que é preciso ter em mente é que cachês de shows não são equivalentes ao salário líquido dos artistas. Essas quantias são necessárias para pagar produção, técnicos, deslocamentos, logística, hospedagens de todos os envolvidos, banda, dançarinos, figurinistas, equipamentos, instrumentos, luz, som, entre outras questões que viabilizam a montagem do show em si.

Em janeiro de 2024, Javier Milei começou a retweetar em sua própria conta algumas postagens que atacavam a cantora:

Nessa mesma época, ocorreu o único pronunciamento real da cantora sobre o ataque massivo que tem recebido nas redes sociais apenas por comentar quatro palavras nas prévias eleitorais, em agosto de 2023.

No último 10 de fevereiro, em apresentação em um dos maiores festivais da Argentina, Cosquín Rock, Lali dedicou uma música aos “anti pátria”, de meses sendo perseguida nas redes e sendo alvo de fake news da extrema direita.

Também ocorreu a troca de uma letra da música “Quiénes Son”. No trecho “Mi presente superando mi pasado, mientras llevas todo el día ahí sentado. ¿Que? Que si fumo, que si vivo, que si digo, que si bebo, que si a tantas me he besado” essa última parte se transformou em “que si vivo del Estado”.

Esse acontecimento dos shows de 10 de fevereiro foi o que gerou um hiperfoco do presidente nas redes sociais nos dias seguintes, culminando na entrevista mostrada anteriormente para o La Nación — na qual ele a chama de Lali Depósito.

A constante perseguição já tipifica como qualificável para um processo por difamação e incitação a violência — ainda mais considerando que o autor é o presidente da nação que não deveria, em hipótese alguma, fomentar o ódio a um cidadão argentino.

Chama a atenção, também, o pouco suporte de colegas do meio artístico que Lali tem recebido. Praticamente sozinha na linha de frente, apenas recentemente, após a entrevista do La Nación, alguns artistas começaram a levantar a voz para dizer que não estão de acordo com a perseguição contra a cultura e a classe artística. A maioria dos que deram apoio são jornalistas e atores, enquanto os músicos ainda são poucos.

O Conociendo Rusia, por exemplo, é um dos que deixou seu apoio:

O mesmo ocorre com os integrantes do grupo de rock Divididos

O notório em toda essa situação é que Lali não é a única que vem sendo atacada. Em geral, Javier Milei tem focado, também em algumas jornalistas — todas mulheres, coincidentemente ou não. A publicação “Mentirosa”: los repetidos maltratos de Javier Milei a mujeres periodistas, do El Diaro AR, coleta vários dados de vezes em que o presidente foi misógino contra jornalistas.

E também existe o lado irônico. Javier Milei tem uma namorada, Fátima Florez. A relação foi confirmada em agosto de 2023, justo quando ele se tornou candidato oficial à presidência. Fátima é atriz, cantora, bailarina e humorista que também fez inúmeras apresentações gratuitas pelas províncias argentinas com um cachê pago pelo governo.

https://twitter.com/motiveishon/status/1758115917999878569?s=20

Na noite do dia 15 de fevereiro, a cantora deixou uma carta aberta para Javier Milei em suas redes sociais. Leia:

Em entrevista liberada na noite de 15/02, Javier Milei acusou Lali de calúnia e injúria. A entrevistadora comenta que, devido a sua posição, é perigoso que seus seguidores decidam atacar a cantora, ao que o presidente responde com “ela que tivesse pensado nisso antes de me agredir”.

Por que Milei criou toda uma perseguição contra Lali por fazer shows públicos, enquanto sua namorada também o faz? Será que não é apenas uma desculpa para atacar uma figura influente, que se opõe a ele e que é uma mulher? Ou ainda, uma cortina de fumaça para manter seus “minions” distraídos enquanto o governo vai de mal a pior?

A situação atual da Argentina

O primeiro decreto do presidente foi reduzir pela metade o número de ministérios do país: atualmente são 9, contra os 18 do governo de Alberto Fernández, seu antecessor.

Segundo dados publicados na quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024, pelo Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC), a inflação de janeiro alcançou 20,6%. É um número mais baixo em relação a dezembro (25,5%), que havia sido a média mais alta desde 1991, mas ainda assim preocupante.

A inflação de janeiro acompanhou o aumento de preços dos transportes públicos e também do combustível, com 26,3%, e a alimentação, que subiu 20,4%. Os bens e serviços variados chamam atenção com 44,4%.

Uma das maiores preocupações atuais é o deslocamento, principalmente para os moradores de Buenos Aires que estão vendo os valores das passagens de metrô (subte) e ônibus (bondi, na gíria local) subirem cada vez mais.

De acordo com o jornal Clarín, 2% do PIB argentino era destinado a subsidiar alimentos, energia, água, gás e transporte público para manter os valores mais baixos para a população. Com a nova medida do presidente, houve um corte nesse aporte do governo e os preços chegam para o consumidor de forma bruta.

Ainda nos primeiros dias de mandato, Javier Milei tentou estabelecer a Ley Omnibus, que obriga a notificação ao Ministério da Segurança Nacional sobre qualquer reunião ou manifestação e dá ao órgão o poder de se opor à realização delas com base em segurança nacional. Amplamente criticada, a lei foi derrotada no Senado por ter fundamentos autoritários e de controle da liberdade de expressão da população — mais uma contradição vindo de um presidente cujo lema é “Viva la libertad”.

3 thoughts on “Javier Milei e Lali Espósito: a obsessão do presidente da Argentina com uma cantora pop

  1. Parabéns pela matéria tão bem escrita, atualizada e detalhada. Já vimos tudo isso acontecer por aqui, espero que por lá tenha um final ainda mais feliz. Lali, e todos os artistas e cidadãos merecem respeito!

  2. excelente matéria. Acompanho o trabalho de Lali há alguns meses mas não fazia ideia dessa perseguição política até a carta aberta que ela divulgou ontem.

  3. Estive recentemente lá, e posso dizer que o clima é pesado…os argentinos estão assustados, tensos, vendo o futuro cada vez mais sombrio na direção deles. É triste, mas passamos por isso e sobrevivemos…dá muito trabalho re-construir, consertar e lutar pra manutenção dos direitos básicos. Mas é isso. Democracia ñ é uma garantia.
    Parabéns pela matéria, está super informativa e muito bem escrita!

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