A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl construiu uma narrativa visual ancorada em cenas reconhecíveis do cotidiano latino-caribenho. O casamento celebrado em espaço comunitário, a criança dormindo sobre cadeiras durante a festa, a vendinha de bairro, a manicure improvisada, as pessoas dançando na rua, as cadeiras de plástico espalhadas como extensão da casa: imagens que remetem a formas específicas de sociabilidade, ocupação do espaço urbano e convivência coletiva. Esses elementos compõem um retrato de práticas comuns, muitas vezes ausentes ou estereotipadas nos grandes espetáculos midiáticos, e situam a performance em um universo cultural marcado pela proximidade, pela informalidade e pela vida compartilhada nas ruas.
Mas a força visual da apresentação não reside apenas nessas cenas humanas. Um olhar mais atento à cenografia revela que o palco é estruturado também por elementos aparentemente secundários, que operam em um registro menos imediato. A cana-de-açúcar que delimita o espaço, o bananal que conforma a paisagem e os arbustos que se movem como corpos humanos não funcionam apenas como ambientação tropical.
O açúcar e a economia da monocultura no Caribe

A história da cana-de-açúcar no Caribe está diretamente associada à consolidação do sistema colonial moderno e à formação da economia atlântica. A partir do século XVI, o açúcar se tornou um dos principais motores da expansão europeia na região, transformando ilhas inteiras em territórios organizados quase exclusivamente para a produção de uma mercadoria destinada ao mercado externo. O açúcar funcionou como eixo articulador de um sistema econômico baseado na apropriação de terras, na exploração extrema do trabalho e na circulação transatlântica de riqueza.
Essa relação entre consumo europeu e violência colonial foi analisada pelo antropólogo e historiador Sidney Mintz em Sweetness and Power: The Place of Sugar in Modern History, publicado em 1985. No livro, Mintz demonstra como a popularização do açúcar nas dietas europeias esteve diretamente ligada à intensificação do trabalho escravizado no Caribe, conectando hábitos cotidianos de consumo à expansão do capitalismo colonial. O açúcar, nesse sentido, não só adoçou a modernidade europeia, mas ajudou a financiá-la, convertendo territórios coloniais em engrenagens de um sistema econômico global em formação.
Em Porto Rico, assim como em Cuba, Barbados e Jamaica, a monocultura açucareira estruturou a organização do espaço rural e da vida social. A concentração fundiária, o desaparecimento da agricultura diversificada e a dependência quase absoluta do mercado externo moldaram economias vulneráveis e hierarquias sociais rígidas. A necessidade de mão de obra intensiva impulsionou o tráfico transatlântico de africanos escravizados, consolidando um sistema racializado de exploração cujas consequências atravessam séculos e permanecem visíveis nas desigualdades contemporâneas.

Este é um processo bastante semelhante com o que vimos no Brasil, uma vez que, desde o início da colonização portuguesa, a cana-de-açúcar também desempenhou papel estruturante, especialmente no Nordeste, onde os engenhos organizaram o espaço, a política local e as relações sociais a partir do século XVI. Apesar das diferenças entre os regimes coloniais português e espanhol, o modelo produtivo apresentava semelhanças fundamentais: grandes propriedades, trabalho escravizado africano e orientação quase exclusiva para o mercado externo, além da consolidação de elites agrárias duradouras que produziram uma paisagem marcada pela concentração de riqueza e pela exclusão social.
Mesmo após a abolição formal da escravidão no século XIX, a lógica da monocultura não foi desmantelada. Regimes de trabalho assalariado precário substituíram a escravidão sem que houvesse redistribuição significativa de terras ou de poder econômico. Em Porto Rico, esse modelo foi aprofundado após 1898, quando a ilha passou ao controle dos Estados Unidos e a indústria açucareira foi progressivamente incorporada a circuitos de capital norte-americano. Ao longo do século XX, os ciclos de expansão e crise revelaram a instabilidade estrutural desse sistema e seu impacto duradouro sobre as comunidades rurais.
A banana como símbolo do imperialismo corporativo

Se o açúcar remete à fase inicial do colonialismo europeu, a banana simboliza a consolidação de um novo tipo de dominação nas Américas entre o final do século XIX e o início do século XX: o imperialismo corporativo. Nesse período, a expansão dos Estados Unidos para além de suas fronteiras territoriais passou a se dar menos pela ocupação formal e mais pelo controle econômico exercido por grandes empresas privadas, especialmente no setor agrícola. A banana se tornou um dos principais vetores desse modelo.
Companhias norte-americanas como a United Fruit Company — fundada em 1899 e posteriormente rebatizada como Chiquita Brands — desenvolveram um sistema de produção altamente integrado, que combinava o cultivo em larga escala, o controle da infraestrutura logística e uma relação direta com os governos locais. A empresa não apenas produzia bananas: ela possuía terras, portos, ferrovias, frotas marítimas e armazéns, criando economias inteiras organizadas em função de seus interesses comerciais. Esse modelo reduzia drasticamente a autonomia dos Estados nacionais e subordinava políticas públicas às necessidades de exportação.

A atuação da United Fruit Company se estendeu por países como Honduras, Costa Rica, Guatemala, Colômbia e Panamá, onde sua presença moldou tanto a economia quanto a política. Em muitos desses contextos, a empresa exerceu influência direta sobre decisões governamentais, apoiando regimes favoráveis aos seus interesses e pressionando contra reformas trabalhistas ou agrárias. O episódio mais emblemático dessa interferência ocorreu na Guatemala, em 1954, quando o governo democraticamente eleito de Jacobo Árbenz foi derrubado em um golpe de Estado apoiado pelos Estados Unidos. A reforma agrária proposta por Árbenz, que afetaria terras improdutivas da United Fruit, foi enquadrada como ameaça comunista no contexto da Guerra Fria, revelando a convergência entre interesses corporativos e a política externa norte-americana.
É nesse cenário que surge a expressão “república das bananas”, termo usado para descrever países cuja soberania política era severamente limitada pela dependência de um único produto de exportação controlado por empresas estrangeiras. Indo além de uma metáfora depreciativa, a expressão descreve um arranjo estrutural em que economias nacionais, instituições políticas e relações de trabalho eram organizadas em função da lógica do capital transnacional.
Em Porto Rico, a produção agrícola voltada à exportação — incluindo a banana — foi progressivamente integrada aos interesses do mercado norte-americano. A condição de território não incorporado limitou a capacidade de decisão local e reforçou um modelo econômico dependente, no qual os lucros frequentemente eram externalizados, enquanto os custos sociais permaneciam na ilha. Assim, embora o enquadramento jurídico fosse distinto daquele das repúblicas centro-americanas, o padrão de assimetria nas relações de poder apresentava semelhanças evidentes.
A banana, frequentemente associada a uma imagem tropical padronizada, inofensiva e destinada ao consumo global, acaba sendo símbolo de um sistema que articulou exploração do trabalho, controle territorial e interferência política. No palco de um dos maiores espetáculos midiáticos do mundo, o bananal funciona como um lembrete visual de que a prosperidade de economias centrais esteve, e continua estando, profundamente ligada à exploração sistemática de territórios periféricos.
Arbustos, guerra e camuflagem: ecos do Vietnã
À primeira vista, a presença de pessoas disfarçadas de arbustos na apresentação pode ser interpretada como uma solução técnica de produção. Em eventos de grande escala como o Super Bowl, o uso de figurinos móveis em vez de estruturas cenográficas fixas podem ser uma estratégia para agilizar a montagem e desmontagem do palco, reduzindo tempo, custo e complexidade logística.
No entanto, essa explicação técnica convive com uma coincidência visual difícil de ignorar. A imagem de corpos humanos camuflados como vegetação ativa imediatamente um repertório histórico específico: o da camuflagem militar utilizada por tropas vietnamitas na Guerra do Vietnã, ocasionada pelos Estados Unidos.
Durante o conflito vietnamita, a selva foi um elemento central da guerra. Soldados vietnamitas passaram a empregar técnicas intensivas de camuflagem, disfarçando-se de arbustos ou integrando seus corpos à vegetação densa. Registros fotográficos e audiovisuais da época mostram militares quase indistinguíveis da paisagem, transformando a natureza em instrumento tático e em símbolo visual de um conflito marcado pela assimetria e pela dificuldade de controle territorial.

Embora Porto Rico não tenha sido palco de um conflito armado semelhante, a ilha esteve profundamente inserida nessa lógica geopolítica, servindo como base estratégica e território militarizado no Caribe. Ao longo do século XX, o arquipélago abrigou instalações militares, áreas de treinamento e zonas de testes controladas pelas forças armadas dos Estados Unidos, integrando-se à arquitetura global da política externa norte-americana durante a Guerra Fria. Milhares de porto-riquenhos foram recrutados para servir nas forças armadas dos Estados Unidos, incluindo no próprio conflito do Vietnã. O envio de soldados de um território sem soberania plena para uma guerra estrangeira reforçou a condição ambígua de Porto Rico: politicamente subordinado, mas estrategicamente indispensável.
A coincidência se torna ainda mais sugestiva quando considerada em relação ao espaço urbano da própria ilha. Existe um chamado Barrio Vietnam, que é uma comunidade localizada no município de Guaynabo, em Porto Rico, historicamente marcada por disputas em torno da terra e por lutas contra processos de expropriação. O nome, adotado de forma informal, passou a identificar um território submetido a pressões constantes de remoção, expansão imobiliária e intervenção estatal, em um contexto de assimetria de poder entre moradores e autoridades. Assim como o Vietnã ocupava, no imaginário norte-americano, o lugar de um espaço hostil, instável e difícil de controlar, o bairro porto-riquenho era percebido como uma zona problemática, frequentemente tratada como exceção dentro da ordem urbana.
Ao longo de décadas, a comunidade enfrentou tentativas recorrentes de deslocamento forçado, frequentemente justificadas por projetos de desenvolvimento urbano, obras de infraestrutura ou reordenamento territorial.
Porto Rico entre espetáculo e subordinação política
A interpretação da apresentação exige atenção ao estatuto político singular de Porto Rico. Desde a Guerra Hispano-Americana de 1898, a ilha integra o território dos Estados Unidos como uma possessão não incorporada. Seus habitantes adquiriram cidadania norte-americana em 1917, mas continuam privados de direitos políticos plenos, como o voto nas eleições presidenciais.
Essa condição ambígua produziu uma relação marcada por dependência econômica e limitação da soberania. Ao longo do século XX, Porto Rico foi utilizado como laboratório de políticas industriais e sociais, como a Operação Bootstrap, que buscou transformar a economia agrícola em um polo industrial dependente de capitais externos. Embora essas iniciativas tenham promovido crescimento econômico em determinados períodos, também geraram desigualdades e vulnerabilidades estruturais.
Leia mais sobre a relação histórica de Porto Rico com os EUA
Porto Rico aparece simultaneamente integrado ao espetáculo cultural norte-americano e excluído de sua plena cidadania política. A apresentação sugere que a cultura porto-riquenha, mesmo quando celebrada globalmente, carrega as marcas de uma história de subordinação institucional.
