Super Bowl da Shakira e JLo: as referências por trás do show

No dia 2 de fevereiro de 2020, a colombiana Shakira e a estadunidense Jennifer Lopez fizeram história ao performar no intervalo do Super Bowl, maior evento de futebol americano. 

Esse foi o 10º show de intervalo mais assistido ao vivo da história, chegando a um pico de 103 milhões de espectadores. Por outro lado, ao combinar as visualizações posteriores da postagem no YouTube com a apresentação completa, os números foram impressionantes: em menos de uma semana, o vídeo já havia sido visto mais de 100 milhões de vezes. 

Porém, o caráter histórico da apresentação não é sobre recordes e números, mas sim o que representa. De um lado, temos uma nascida e criada latino-americana trazendo a voz da América do Sul — com breves referências a sua família árabe —, enquanto do outro temos uma filha de porto-riquenhos mostrando a força dos imigrantes.

Entenda algumas referências importantes para entender a riqueza cultural por trás do Super Bowl da Shakira e JLo.

O que está por trás do show da Shakira no Super Bowl

Embora muita gente diga que ela abriu com “She Wolf”, na verdade houve um breve trecho de “La La La (Brazil 2014)”. Um detalhe interessante é que ela começou com “Hola Miami”, ou seja, a não falou inglês e saudou o público em espanhol. 

Uma curiosidade posterior é que esse “Hola Miami” acabou virando um meme até mesmo no TikTok, já que todos diziam que essa fala era icônica.

O primeiro ponto a ressaltar aqui é que todas as suas dançarinas são negras. Ela nunca foi do tipo de cantora que teve muitas bailarinas, mas, quando usou, ela seguiu esse padrão. Por exemplo: clipe de “Give It Up To Me” ou na tour Sale El Sol. 

Depois, ela fez uma transição para “She Wolf”. Na época de lançamento (2009), a cantora comentou que era sobre a liberdade da mulher moderna. Porém, pela letra “há uma loba no armário, abra e liberte-a”, ela comentou também naquele ano que serve para LGBTs.

“Empire” (2014), que veio logo depois, é uma balada poderosa queridinha por todos os fãs por lembrar dos tempos da “Shakira de antigamente”. Infelizmente ela foi deixada de lado, mas finalmente recebeu um reconhecimento.

Esse solo, porém, não é de Empire, mas sim de “Inevitable” (1998), um dos maiores hits latinos dos anos 90. Qualquer pessoa que conheça a “Shakira de antigamente” nesse momento entrou em colapso nervoso. O solo de Inevitable virou a intro de “Kashmir” do Led Zeppelin. 

A transição logo vem com o momento mais esperado por qualquer fã: a dança do ventre. Para quem não sabe, o pai da Shakira é libanês e ela cresceu muito conectada com a cultura árabe.

Inclusive, agregar a influência árabe na carreira foi o que fez ela virar um pouco pro lado do pop. E também foi uma estratégia do produtor Emílio Estefan, enquanto trabalhavam no álbum “Dónde Están Los Ladrones?” (1998), que viu nisso um diferencial incrível pra carreira dela. 

“Ojos Así” (1998) foi a primeira música que mescla ritmos árabes, latinos e rock a ganhar popularidade. Essa também foi a primeira canção em espanhol a ser performada na história do Super Bowl.

Enquanto ela dança com a corda vocês podem escutar uma espécie de tambor. Esse é um derbak, instrumento milenar de culturas do Oriente Médio e norte da África. A performance da corda já é bem conhecida pelos fãs. Nesse vídeo, Shakira faz a versão completa durante a Oral Fixation Tour, em 2006, antes de cantar “Whenever Wherever”.

E falando nela, essa é a próxima música da performance. Lançada em 2001, foi o primeiro single em inglês da Shakira, seguindo o sucesso do álbum anterior (DELL, 1998). Lembrando que a Shakira não falava inglês muito bem e escreveu com a ajuda de um dicionário.

O mais interessante é que, apesar de muitos colombianos acusarem a Shakira de “se vender” pra indústria dos EUA por cantar em inglês, “Whenever Wherever” foi a sua música mais latina até então: tinha charango e flauta de pan, instrumentos andinos, e a letra cita os próprios Andes.

Na introdução para “I Like It”, Shakira fala “en Barranquilla me quedo”, referência à salsa de mesmo nome de Joe Arroyo. Lembrando que a cantora é de Barranquilla, que fica na costa caribenha da Colômbia, entre Cartagena e Santa Marta.

Rapidamente a música muda para “Chantaje” em versão salsa. Para quem não sabe, esse remix existe e está disponível no Spotify. O tipo de salsa que ela dança é a caleña, da cidade de Cali, na Colômbia.

Logo chega um dos momentos mais esperados da noite: “Hips Don’t Lie”. Ela é inspirada na cumbia colombiana, gênero afro-colombiano que há várias décadas é extremamente popular na América Latina.

Enquanto a Shakira estava sobre o povo, é possível ver algumas máscaras. Elas são típicas do Carnaval de Barranquilla, a maior festa da Colômbia, e foram produzidas por artesãos locais. 

Essa parte do movimento com a língua viralizou porque as pessoas acharam que ela estava só fazendo gracinha. Trata-se de uma Zaghrouta, expressão comum na cultura árabe e em diversos povos do norte da África para expressar alegria durante celebrações.

Ela sempre a usou em suas performances. Nesse texto do Washington Post, a autora fala que não se surpreende por as pessoas não saberem o significado da Zaghrouta porque a representação do Oriente Médio na mídia é restrita a estereótipos preconceituosos.

Nessa thread, o autor destaca da importância da performance da Shakira para o povo do Oriente Médio que sempre viu nela o mais próximo de uma boa representação da cultura deles na mídia.

“Vocês têm que entender o quão enorme a performance da Shakira é para a comunidade do Oriente Médio. Ela colocou dança do ventre, um mijwiz e um derbak, performou “Ojos Así”, que é uma das músicas com influência árabe, fez uma zaghrouta, todo amor no palco grande”

Tanto o texto quanto os comentários no Twitter dizem que ela nem faz tão bem a Zaghrouta, mas a celebração da cultura árabe como algo positivo é o que importa. De qualquer forma, colombianos apontaram que poderia ser, na verdade, uma referência ao Son de Negro, representação folclórica do Carnaval de Barranquilla.

No finalzinho a percussão toca forte e a Shakira e as dançarinas dançam freneticamente. Esse é o Mapalé, outra dança afro-colombiana, que veio diretamente de San Basílio de Palenque. Os movimentos são rápidos e fortes, acompanhando o ritmo da música. Acabou a primeira parte e notem que ela se despediu dizendo “gracias”. Mais uma vez, sem inglês.

O que está por trás do show da JLo no Super Bowl

Com a saída da Shakira, logo o público é impactado pela icônica entrada de Jennifer Lopez. 

Entrando sobre uma réplica de um prédio de Manhattan — o que, imageticamente, lembra aquela cena icônica de King Kong —, a cantora faz referência à cidade de Nova York, onde nasceu. Ao mesmo tempo, canta “Jenny From The Block”, música que também traz uma letra que fala do seu lugar de origem.

A sequência termina com “Ain’t It Funny” e “Get Right”. Ao transicionar para “Waiting For Tonight”, a cantora mostra suas habilidades no pole dance. Para quem não sabe, a também atriz havia feito um filme, “Hustlers”, que foi bastante elogiado pela crítica. Sua personagem era uma strippet e, por isso, fez muitas aulas de pole dancing. 

Depois de subir o tom da apresentação com “Love Don’t Cost a Thing” e “On The Floor”, o ponto alto de seu show ocorre com as luzes mais baixas e a entrada das crianças no palco. São todas garotas e a iluminação do palco, vista de cima, mostra o símbolo feminino.

A menina que aparece cantando é Emme, filha de JLo. Todas estão dentro de pequenas gaiolas, fazendo crítica aos campos de concentração de imigrantes nos Estados Unidos, que chegaram a prender crianças e separá-las de seus pais.

Não coincidentemente, a música que está sendo performada enquanto isso acontece é “Let’s Get Loud”, que significa “vamos fazer barulho”. A canção faz uma transição para o clássico de Bruce Springsteen “Born In The USA”. Jennifer Lopez aparece com um casaco que, de um lado, é a bandeira dos Estados Unidos e, do outro, é a de Porto Rico. Nesse momento, ela mostra a importância dos latinos nascidos no país.

Quando Shakira e JLo se juntam no palco

Enquanto a filha da JLo canta “Let’s Get Loud”, Shakira aparece tocando bateria. A colombiana canta um pouco com JLo e logo as duas começam “Waka Waka (This Time For Africa)”, hino da Copa do Mundo de 2010. Para quem não sabe, o refrão é um sample do hit de makossa camaronesa de 1986, Zamina Mina.

Logo depois da coreografia, Shakira e as dançarinas começam os “passinhos” que são conhecidos como Champeta, outro ritmo afro-colombiano influenciado por Palenque. A música ao fundo é Icha do camaronês Syrian M’Benza, que foi rapidamente reconhecida por africanos que assistiram ao Super Bowl. 

Depois que Shakira e seus dançarinos saem do palco, JLo entra com seus parceiros dançando salsa — uma das músicas típicas de Nova York e ritmo essencial para a expansão da música em espanhol nos Estados Unidos.

Por fim, juntas se despedem do que veio a ser uma das performances de intervalo do Super Bowl.

Esse post foi escrito com base nesse fio no Twitter, feito pela própria autora do texto em sua conta pessoal, em fevereiro de 2020.

Assista ao show completo para identificar os detalhes mostrados nesse texto!

Continue lendo o Exclamacion para saber mais sobre cultura hispana!

Autor: Isabela Guiaro

Jornalista e analista de conteúdo em marketing digital. Fiz pós-graduação em Globalização e Cultura e, durante o curso, desenvolvi pesquisas sobre identidade nacional e cultura latino-americana. Apaixonada pelo idioma espanhol desde os 5 anos de idade, meu objetivo é disseminar a cultura hispana no Brasil.

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