Narcoseries e a globalização da cultura do tráfico na América Latina

Um dos lançamentos mais esperados para 2024 na plataforma de streaming Netflix “Griselda”, protagonizada por Sofía Vergara, mostra a trajetória da famosa traficante colombiana que tomou a cidade de Miami nos anos 1970 e mudou a forma como se consumia drogas naquela região dos Estados Unidos.

Quem não acompanha as produções latino-americanas certamente se lembra, de qualquer forma, do fenômeno causado por “Narcos”, outra série biográfica que se dedicou a contar a história de um chefe de cartel de drogas — dessa vez, Pablo Escobar, que foi interpretado pelo brasileiro Wagner Moura.

Mas, quem costuma assistir e acompanhar a televisão latino-americana sabe que as produções biografias da Netflix são apenas a ponta do iceberg: há pelo menos 15 anos as televisões locais, em especial da Colômbia, México e as emissoras latinas dos Estados Unidos, dedicam parte da sua grade ao mundo do crime e do narcotráfico.

É impossível discutir esse tema sem mencionar a novela “Sin tetas no hay paraíso”, lançada em 2008 pela Caracol TV na Colômbia. A trama se desenrola no interior do país, na cidade de Pereira, próxima a Medellín. Conta a história de Catalina, uma adolescente que é corrompida pelo ambiente de narcotráfico e prostituição que permeia as cidades pequenas e comunidades carentes.

O enredo destaca a forte cultura do narcotráfico, onde jovens aspiram a se tornar “pré-pago”, acompanhantes de luxo para homens envolvidos no tráfico. Catalina, seduzida por esse universo, é levada a festas por sua melhor amiga e, posteriormente, à cidade de Bogotá para colocar próteses de silicone, requisito essencial nesse contexto.

A novela obteve grande sucesso, gerando várias adaptações e uma continuação oito anos depois, intitulada “Sin senos sí hay paraíso”. A Netflix, percebendo o fenômeno, adquiriu a série, ampliando seu alcance para uma audiência ainda maior.

Poster da segunda temporada de Sin Senos Sí Hay Paraíso, exibida em 2017

Na continuação de 2016, a história faz um salto temporal de 15 anos e acompanha a vida da família de Catalina depois de, spoiler, sua morte no último capítulo da novela. O curioso é que sua mãe teve outra filha e decidiu chamá-la com o mesmo nome, e sua então melhor amiga, que já havia se convertido em rival após dar um golpe e roubar o seu marido, acabou se tornando uma grande traficante da região. 

Com o objetivo de fazer com que as coisas deem certo com sua nova filha, a mãe a proibe de sair de casa e conhecer o mundo. Porém, para os olheiros que ficam nas portas de escolas observando seus próximos alvos, isso não foi o suficiente… E daí se desenrola mais uma história com três temporadas e uma série final, entitulada El Final del Paraíso, lançada em 2019.

Outra produção notável é “La Reina del Sur”, de 2011, inspirada em um livro homônimo e produzida pela Telemundo. A história narra a vida de uma mexicana, Teresa Mendoza, envolvida com cartéis, iniciando com sua fuga após o aviso de seu namorado traficante. Mesmo buscando escapar desse mundo e viver uma vida traquila, ela acaba se envolvendo novamente com um um aspirante do tráfico. 


Poster da primeira temporada de La Reina del Sur (2011)

Isso a leva para a prisão e lá aprende muita coisa: ela era uma garota simples, de uma cidade pequena, que não tinha tido muitas oportunidades na vida. Na cadeia, leu livros, estudou e aperfeiçoou o que era seu maior dom: a matemática, já que ela era cambista de dólares antes de se envolver com traficantes e conseguia pensar muito rápido com números. 

Com a inteligência apurada, com os contatos certos e uma oportunidade única, não teve jeito Teresa, la mexicana, acabou se tornando a maior traficante da região.

Esta novela, que se tornou um fenômeno, alcançou a maior audiência da história da televisão americana de língua espanhola. Diante disso, foi lançada uma versão estadunidense de A Rainha do Sul, estrelada por Alice Braga. No entanto, a trama difere da original, e o autor do livro não aprovou a adaptação. Em 2018, optaram por retomar a versão original, e a Netflix assegurou os direitos de exibição, consolidando mais um sucesso de audiência.

Mas, essa descrição ainda é pequena para dimensionar o quão popular foi La Reina del Sur. Para ficar mais claro, existe uma história bastante conhecida no México: o traficante de renome El Chapo, um dos mais buscados pelos Estados Unidos, enquanto estava na prisão, conseguiu um box de DVDs da novela e, segundo contam os que tinham contato com o criminoso, ele era completamente obcecado — e apaixonado pela atriz que interpretou a protagonista, Kate del Castillo.

O mais curioso é que, uma vez, a atriz fez uma crítica ao presidente mexicano em seu Twitter e disse que era mais fácil confiar no Chapo. Até então, tudo bem. Porém, o traficante ficou sabendo disso e levou como um elogio… E a história não para por aí.

El Chapo protagonizou uma das maiores fugas da prisão já vistas no México, pouco tempo depois. E o que ele fez? Mandou chamar Kate del Castillo para conhecê-lo, pois ele queria dar a ela os direitos para produzir uma série sobre sua vida… E é sobre isso que ela conta no documentário “O dia em que eu conheci El Chapo”.

Kate del Castillo com Chapo Guzmán e Sean Penn

Retomando ao mundo da ficção, engana-se quem pensa que Narcos foi a primeira vez que Pablo Escobar recebeu uma série biográfica. “Pablo Escobar: El Patrón del Mal”, que foi ao ar entre 2009 e 2012, foi baseada no livro “La Parábola de Pablo” de Alonso Salazar e narra a vida do infame narcotraficante colombiano. 

Ainda nos pilares das narconevelas, é possível destacar Las Muñecas de la Mafia (2009-2010), que mostra as protagonistas, conhecidas como as “muñecas” (bonecas), que são mulheres fortes e determinadas envolvidas nos intricados e perigosos círculos do narcotráfico em Cali, na Colômbia. 

O mais recente fenômeno é “El Señor de los Cielos”, que estreou em 2013 e conta com oito temporadas devido ao grande sucesso — inclusive, a novela até gerou um spin-off, “El Chema”. A trama é inspirada na vida de Amado Carrillo Fuentes, um narcotraficante mexicano conhecido como o Senhor dos Céus, líder do Cartel de Juárez.

A história segue a ascensão meteórica do personagem fictício inspirado em Amado Carrillo Fuentes. Inicialmente um fazendeiro, Casillas torna-se um dos traficantes de drogas mais poderosos do México. 

Outros grandes sucessos são “El Cartel de los Sapos” (2008-2010), “Dueños del Paraíso” (2014), “Camelia, la Texana” (2014), “La Viuda Negra” (2014-2016), “Señora Acero” (2014-2019), “Alias JJ” (2017), “El Chapo” (2017), “Falsa Identidad” (2018-2020), “El Barón” (2019). Além disso, há outras que não são necessariamente sobre o narcotráfico, mas que atravessam essas problemáticas, como “Rosario Tijeras” (2010) e “La Reina del Flow” (2015).

A arte imitando a vida?

Os países que mais produzem narco séries, como o México e a Colômbia, refletem a realidade dessas nações devido a seu profundo envolvimento no mundo do narcotráfico. Essa escolha e essa popularidade têm raízes nas experiências reais de ambos os países com as de drogas e suas consequências para a sociedade.

A Colômbia tem uma longa história marcada pelo narcotráfico, especialmente nas décadas de 1970 a 1990, quando o país era um dos principais produtores de cocaína do mundo. O infame Cartel de Medellín, liderado por Pablo Escobar, e o Cartel de Cali, entre outros, desempenharam papéis cruciais na formação da narrativa colombiana sobre o tráfico de drogas. 

As complexidades sociais, econômicas e políticas associadas a esses eventos oferecem um terreno fértil para a criação de narco séries envolventes e reflexivas, até mesmo quando o tráfico não é o protagonista. “La Reina del Flow”, por exemplo, tem esse contexto como pano de fundo porque o tio de um dos protagonistas, Charly, é um grande traficante da sua comunidade em Medellín — e isso é um fator determinante para a formação do seu caráter e sua história de vida, além das consequências que isso traz para a mocinha, Yeimy Montoya, que perde toda sua família porque eles não aceitaram pagar uma taxa ao traficante dono do bairro. É ficção, mas poderia ser verdade. 

O México também enfrenta desafios sérios relacionados ao narcotráfico e organizações criminosas. Porém, diferentemente da Colômbia, que iniciou um processo de pacificação e revitalização de áreas mais atingidas pelos cartéis, como é o caso de Medellín, as terras mexicanas ainda sofrem muito com extorsão e assassinatos, justamente por conta de sua localização estratégica na fronteira com os Estados Unidos. Muitas vezes, é considerado um “narcoestado”, uma vez que organizações políticas de alto escalão corrupção policial, suborno e infiltração dos cartéis em vários níveis da administração pública têm sido citadas como recorrentes.

Isso é algo exemplificado em La Reina del Sur, já que o padrinho de Teresa é um político que sonha em ser presidente — e que ninguém sabe que não apenas está ligado ao tráfico, mas que é um dos chefes da região. Durante sua candidatura à presidência, muitos anos depois, percebe que a protagonista pode ser uma “ponta solta” que revelaria seu segredo e, por isso, decide mandar seus capangas para a Espanha para que possam acabar com ela (ainda que ele tenha sido a pessoa quem a ajudou a escapar para a Europa após a morte de seu namorado).

Em última análise, a produção intensiva de narco séries nessas nações é uma resposta à demanda do público por histórias que explorem e contextualizem as realidades complexas e muitas vezes sombrias do tráfico em suas sociedades. Apesar das críticas, a narcocultura traz um reflexo da vida real e faz com que muitas pessoas se identifiquem com as histórias mostradas. Ou, ainda, traz um pouco de ação para aqueles que adoram séries de investigação criminal.

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