A personagem Mafalda, criação de Quino, completou 60 anos de existência em 2024. A menina tornou-se referência na cultura latino-americana com seu humor inteligente e crítico sobre questões sociais e políticas, ainda muito atuais no mundo de hoje, inclusive quando falamos da pauta feminista.
A garotinha faz críticas afiadas às imposições de gênero, antecipando debates feministas que ganhariam mais força nas décadas seguintes.
Em suas histórias, Mafalda frequentemente desafia os papeis da mulher na sociedade, principalmente com sua mãe, uma dona de casa que largou os estudos para se dedicar à família e ao lar, situação que Mafalda não aceita passivamente.

Em diversas tirinhas, a personagem questiona por que as mulheres precisam assumir esse papel e por que não podem sonhar com algo além do casamento e da maternidade.
As indagações não ficam apenas para sua mãe, Mafalda também entra em embates com sua melhor amiga, Susanita, a típica amiga conservadora que aceita as responsabilidades femininas sem questionamentos. A personagem sonha em casar e ter filhos, seguindo os tradicionais padrões da época.

Mafalda, por sua vez, constantemente se choca com essa visão limitada do futuro feminino e tenta mostrar que as mulheres podem almejar mais. Essas conversas entre as duas refletem um debate real que persiste até hoje: o direito das mulheres de escolherem seus caminhos sem imposições sociais.
A personagem não esconde a frustração em perceber como a sociedade impõe às mulheres um destino limitado, sem a mesma liberdade e oportunidades que os homens possuem.

Quino já declarou sua afinidade com a pauta feminista: “Sempre acompanhei as causas de direitos humanos em geral e dos direitos das mulheres em particular, a quem desejo sorte em suas reivindicações”. Essa visão do criador torna a personagem transgressora, mas ao mesmo tempo, traz os pensamentos e opiniões de uma criança para o centro do debate.

Vale ressaltar que as tiras foram produzidas entre os anos 1960 e 1970, época em que as pautas feministas ganharam força ao redor do mundo, com a segunda onda do feminismo que reivindicava a luta pelos direitos reprodutivos, as discussões sobre sexualidade e a liberdade feminina, bem como o mercado de trabalho e as desigualdades nesse âmbito.
Apesar de ter sido criada em uma fase em que o feminismo não era tão amplamente debatido em países da América do Sul, Mafalda tornou-se um ícone para diversas gerações de mulheres que questionam normas e lutam por um mundo mais igualitário. Sua inteligência, irreverência e inconformismo continuam atuais, mostrando que as perguntas certas podem transformar a realidade.
Um adendo: No livro “Mafalda – Feminino Singular”, os editores trazem um compilado de todas as tiras em que Mafalda questiona o papel e espaço da mulher na sociedade, a começar pelas tarefas domésticas. Se você tem interesse em conhecer essa obra e os pensamentos feministas da personagem, é possível comprar em português em qualquer livraria de sua preferência.

